Uma base militar portuguesa a fazer furor em Paris

Campo, de Tiago Hespanha, passou com sucesso em Paris no Festival de documentários Cinéma du Réel. Um olhar inventado do campo de tiro de Alcochete. Ou como filmar o nosso exército no seu interior...

A ordem do mundo num campo militar. Essa é um pouco a utopia de Tiago Hespanha neste pedaço de cinema do real que é Campo, o seu filme que estreou este fim-de-semana em Paris no Festival de cinema documental Cinéma du Réel.

Do "era uma vez"e da História do Homem às estórias de recrutas no campo de tiro de Alcochete, a maior base militar da Europa. Muito mais do que um pingue-pongue documental sobre o que se passa lá dentro, o olhar de Hespanha é uma espécie de apanha de histórias de um ecossistema que mistura tudo o que acontece no quotidiano de um terreno no limiar da realidade.

Dir-se-ia que é um documentário livre e verdadeiramente na primeira pessoa capaz de refletir sobre o absurdo da guerra e divertir-se com o non-sense do cerimonial do combate e as suas regras militares. Nesse sentido, é absolutamente espantoso ter havido permissão para a carta-branca que o cineasta da Terratreme teve para levar a sua equipa para os treinos dos soldados, acompanhando, por exemplo, de perto uma ação de preparação bélica com um oficial dos EUA.

Num pequeno café, ao lado Centro Pompidou, a casa oficial do Cinéma du Réel, Tiago Hespanha conta-nos que a base militar de Alcochete tem como objetivo a abertura do seu imenso espaço e que houve sempre uma tolerância enorme para a autorização destas filmagens: "O filme parte um pouco desse encontro com um lugar que permite as mais variadas convivências. Na verdade, nunca me interessou fazer um documentário militar. O lado algo absurdo que acaba por convocar tanto pode vir dos militares como dos aeromodelistas, dos apicultores e dos cientistas. O surrealismo que captei vem deles todos. Se quisermos, o filme mostra que todos esses 'acontecimentos' e atividades diferentes estão próximos".

E entre as espreitadelas ao ridículo dos procedimentos militares (Hespanha salienta-nos que alguns dos exercícios militares usam o cinema americano como referência), a câmara, muitas vezes, olha de lado e encontra as pedras, os pássaros e a natureza, sempre com uma bondade distante. Quase antropológica e pontuada por uma narração do próprio autor que evoca o mito de Prometeu, outras histórias de deuses, Kafka, Carl Sagan, os feitos de Gagarine na exploração espacial ou Pessoa, isto quando não se debruça nos depoimentos de um ornitólogo com teorias românticas, no labor de apicultores que se dedicam à apanha do veneno da abelhas ou num momento da rodagem de Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira.

Num campo militar com mais 7500 hectares, o cosmos é variado e permite ao filme ir à caça. Uma caça com um jogo de espreitadelas, tão lúdico como arriscado.

O cineasta diz-nos que encontrou o tema do filme quando ficou curioso com o estudo que documentava a possibilidade da área ser transformada no novo aeroporto da zona de Lisboa, ainda em 2011. Depois, ao querer ver pontos de contacto entre aquilo que é estritamente militar com o lúdico ou científico, na mesa de montagem, quis fazer um cálculo de simetria da fábula: "Aí tratou-se de encontrar as evocações daquilo tudo junto".

Campo, na sua essência, parece muito ajuizado, mas faz da sua construção experimental uma odisseia algo insana, sempre nos limites. Será que tudo se encaixa? A pergunta vai ficar na cabeça dos espetadores, embora a perturbação cósmica faça das suas. Sai-se da sala algo desorientado, sem se perceber se o vale-tudo cósmico é acaso de cinema ou truque imposto, mas com a certeza que há uma câmara que afronta o território de lenda e fábula num cinema do real com espírito inquieto.

Na essência, é um filme que prova a abertura do Estado Maior da Força Aérea em permitir um convite de partilha de um terreno disponível para o espaço civil. O resultado é um cinema capaz de salpicar a ficção num real que nunca quer reportar (nem denunciar) mas sim fazer a questão essencial: porque queremos tanto brincar às guerras? A resposta de Hespanha é pacifista e interessa-se somente na convivência de diversos fatores que coexistem com a narrativa do treino militar, a dada altura em pé de igualdade com os outros acontecimentos não militares...

Em Paris, no muito elitista Cinéma du Réel, a recepção foi positiva. "A estreia mundial aqui correu muito bem, o filme provocou muito debate. Um debate interessante, com muitas questões. Chegámos mesmo a esgotar o nosso tempo na sessão com a conversa com o público", revela. O palmarés chega no fim-de-semana mas pelos corredores do Centro Georges Pompidou fala-se em prémios. Para já, em Portugal ainda não há estreia marcada e primeiro devem chegar mais festivais. Depois do caso de Tancos, resta saber se vai haver da nossa sociedade quem queira fazer polémica quando se perceber como as Forças Aéreas deixam um cineasta filmar de forma aberta os seus treinos e território.

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