Um clássico americano e outro português para rever na Cinemateca

Numa sessão dupla, a Cinemateca reuniu dois títulos fundamentais na história das convulsões dos anos 50/60: o americano "Shadows", de John Cassavetes, e o português "Belarmino", de Fernando Lopes.

Como dar a conhecer às gerações mais jovens os grandes clássicos do cinema? As possibilidades são muitas e variadas, mas vale a pena não desvalorizar o método mais primitivo. A saber: a comparação, ou melhor, o paralelismo entre filmes capazes de reflectir as transformações temáticas e estéticas de um mesmo período.

É o que acontece hoje na Cinemateca (15h30) em mais uma das suas "sessões duplas", promovidas com a designação dos velhos tempos de Hollywood (e não só). Ou seja: "double bill". Assim, será possível ver duas obras clássicas que correspondem a estreias fulgurantes na longa-metragem: Shadows/Sombras (1959), de John Cassavetes, e Belarmino (1964), de Fernando Lopes.

A simples junção dos filmes numa mesma sessão recorda-nos que a noção de "nova vaga" está muito longe de se aplicar apenas ao movimento que, através de Jean- Luc Godard, François Truffaut e Eric Rohmer, entre outros, transfigurou a paisagem do cinema francês, ao mesmo tempo abrindo inusitados caminhos da modernidade. De facto, esse espírito de inovação estava presente nos mais diversos contextos.

Nos EUA, Cassavetes, na altura já com uma carreira diversificada como ator (sobretudo em televisão), surgia como símbolo de um espírito de experimentação em grande parte ligado a uma sensibilidade novaiorquina em que o gosto do jazz surge como peculiar elemento definidor. Shadows é um retrato seco e desencantado desse mundo em transformação, além do mais apostando num registo realista muito marcado pela improvisação dos atores.

Belarmino entrou na história, a par de Dom Roberto (1962), de Ernesto de Sousa, e Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, como um dos títulos fundadores do Cinema Novo português. Ao fazer o retrato do pugilista Belarmino Fragoso, Fernando Lopes não se limita a cruzar a crueza do documentário com uma assumida teatralidade. A condição anímica do protagonista, celebrando a utopia perdida do seu próprio destino, adquire a intensidade de uma parábola eminentemente nacional.

Reencontrar estes dois filmes, ambos fotografados em admirável preto e branco, é sentir um pouco das convulsões de um tempo (décadas de 1950/60) que, em boa verdade, transfigurou toda a herança clássica do cinema. A modernidade que emergia procurava também novas linguagens para lidar com a teia de histórias das cidades em transformação - Shadows e Belarmino são também dois poemas, sobre Nova Iorque e Lisboa, respetivamente.

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