Tribalistas em Portugal: um concerto como "um grito de celebração"

"Seria muito egoísta da nossa parte querer essa felicidade só para nós", diz Marisa Monte que se apresenta com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes em concerto no domingo na Altice Arena, em Lisboa

Da primeira vez não houve digressão. Eles dizem que foram apanhados desprevenidos. "O nosso primeiro álbum foi espontâneo, nós não tínhamos expetativa nenhuma", diz Arnaldo Antunes, recordando o disco lançado pelos Tribalistas em 2002. "A gente resolveu registar aquelas músicas e não esperava de jeito nenhum que aquilo ganhasse proporção", acrescenta Carlinhos Brown. Não esperavam vender cinco milhões de discos nem esperavam que todo o mundo cantasse Velha Infância, por isso não planearam nenhuma digressão, todos eles tinham outros compromissos assumidos para os meses seguintes. Além de que Marisa Monte tinha um bebé de dois meses, "não tinha condições para pegar a estrada".

"Nós nunca planeámos nada. Nem no primeiro disco nem neste", garante Arnaldo Antunes. Mas desta vez, já estavam preparados. Depois de muitos pedidos dos fãs, ao fim de 15 anos, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo lançaram um segundo disco de Tribalistas e decidiram "dar um stop" nos seus projetos pessoais para dedicarem algum tempo a este projeto em trio. O disco saiu em agosto do ano, os concertos começaram no Brasil no verão. E agora, finalmente, chegam à Europa, com dez datas marcadas, a começar já este domingo na Altice Arena, em Lisboa, e depois, dia 23, no Coliseu do Porto.

"Nestes 15 anos o mundo mudou bastante e a gente é o reflexo dessas mudanças, os temas que abordamos são diferentes. Em 2002 vivíamos um momento mais esperançoso, com uma perspetiva positiva. Mas, de uma maneira geral, eu acho que os dois discos têm mais semelhanças do que diferenças", diz Marisa Monte, que sublinha o trabalho coletivo, autoral e experimental como as principais características dos dois álbuns. Arnaldo Antunes confirma: "A gente se surpreendeu de depois de um intervalo de 15 anos este disco soar tanto como o primeiro. Há uma sonoridade que foi preservada e isso se evidencia no show quando a gente entrelaça as canções dos dois discos e ainda outras parcerias nossas que não estão gravadas em nenhum destes discos de Tribalistas. Isso mostra como a nossa história é muito coesa."

Os três músicos acabaram de chegar do Brasil e já estão numa sala inóspita de um hotel de Lisboa a responder às perguntas dos jornalistas. Marisa Monte, com uma túnica vermelha e florida e o cabelo apanhado em dois carrapitos no topo da cabeça, coloca os óculos escuros para melhor enfrentar as perguntas. É ela a mais faladora. Fala da amizade que os une há 25 anos e de como este projeto é muito mais do que música: é uma prova de amizade e de respeito, e também o resultado da alegria que sentem quando estão juntos. "Seria muito egoísta da nossa parte querer essa felicidade só para nós", diz. Por isso, os concertos são, primeiro, uma forma de comunhão entre os músicos que estão no palco e, depois, também de comunhão com o público "que canta junto".

Tribalistas é também um projeto de diversidade e de união na diversidade. "Cada um vem do seu estado, tem o seu jeito, o seu sotaque, a sua música", explica o "titã" Arnaldo Antunes. Ele é de São Paulo, Carlinhos Brown mora na Bahía e Marisa Monte vive no Rio de Janeiro. É raro estarem os três juntos mas quando se encontram, cada um leva "o seu baúzinho" com canções que está a trabalhar e podem acontecer coisas maravilhosas. Nestes dois discos de Tribalistas gravaram 23 canções mas quando foram fazer o levantamento de todas as músicas que tinham feito juntos encontraram 56 temas gravados por eles ou por outros. E é um pouco disso tudo que vai estar no concerto. "São 25 anos de amizade e parceria, às tantas eu já não sei o que é meu com Arnaldo ou com o Brown", brinca Marisa Monte.

Enquanto a conversa decorre, o discreto Arnaldo Antunes entretém-se a desenhar, que é uma das suas muitas paixões artísticas, enquanto Carlinhos Brown, o mais expansivo de todos, com o seu enorme cabelo enfiado num turbante e as palavras sempre a divagar para conversas mais esotéricas, ensaia uns batuques com a garrafa de água que tem à sua frente. Não se interrompem, antes vão complementando as ideias uns dos outros. Num mundo tão cheio de desigualdades e de injustiças, a música e a poesia são as armas destes Tribalistas, explica Brown: "Nós somos muito esperançosos". E Arnaldo Antunes fala da música como "um grito de celebração". "Ninguém sabe como se faz um sucesso comercial, é imponderável, então nós nos concentramos nessa alegria de compormos e de tocarmos juntos", explica a cantora de Barulhinho Bom. "E depois essa alegria contagia o público."

Neste segundo disco, os Tribalistas tiveram a colaboração da portuguesa Carminho em dois temas: Os Peixinhos e Tribalivre. "A Carminho tem atravessado o Atlântico com muita frequência e nessas idas e vindas ela se sentou connosco", conta Marisa, enquanto Arnaldo lembra que a fadista já tinha participado no seu DVD ao vivo, gravado em Lisboa em 2016. Será que desta vez Carminho também vai subir ao palco, agora com os Tribalistas? "Tomara", lança Carlinhos Brown. Arnaldo Antunes esclarece que, para já, não têm nada combinado, mas adorariam cantar com ela. Quem sabe?

Sobre o futuro preferem não falar. Até aqui deram-se bem com a "imprevisibilidade" e com o facto de não terem qualquer obrigatoriedade. "As canções aparecem quando têm de aparecer, não somos nós que decidimos", diz Marisa Monte. E acreditam que é assim que vai continuar a acontecer. Se depois as canções vão dar origem a mais discos isso já não é possível saber. Neste momento estão a desfrutar dos concertos a três: "Todos temos nossas carreiras a solo, por isso é gostoso estar no palco a três. Sentimo-nos fortalecidos."

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