Tom Hardy e o seu parasita alienígena

Agora é a vez de os vilões terem filmes só para eles: Venom podia ser sombrio, mas é só mais um entretenimento para adolescentes. Estreia-se hoje

Eis mais um brinquedo Marvel a invadir o grande ecrã. Venom, o filme que conta a história deste némesis do Homem-Aranha, vem abrir (mais) uma nova porta dentro do amplo universo cinematográfico dos super-heróis. A intriga anda à volta de um megalómano dono de uma empresa científica - a Fundação Vida - que quer aperfeiçoar a espécie humana, recorrendo a métodos criminosos. É neste contexto que surge o protagonista Tom Hardy, como popular jornalista de investigação que o quer desmascarar. E se é verdade que Venom se trata de um spin-off centrado num vilão, a ideia do realizador Ruben Fleischer é fazê-lo cair nas boas graças dos espectadores... através de Hardy. Por enquanto, nem sinal do Homem-Aranha. Entenda-se: este último título da franchise é exclusivamente voltado para a origem da dita criatura alienígena, que, sendo um "parasita", usará o tal jornalista interpretado por Hardy como "hospedeiro". Em termos performativos, o que resulta desta "simbiose" (como se diz no filme) entre um humano e um ser extraterrestre é tão-somente um pretexto para o slapstick: o corpo de Hardy demora algum tempo a adaptar-se aos apetites da sua nova voz interior, e isso dá azo a momentos de descontrolo social, entre comer uma lagosta dentro do aquário de um restaurante chique e a vontade de devorar cabeças de pessoas.

Mas que não se fique horrorizado com estes desejos de Venom. Fleischer não arrisca demasiado nesse aspeto da violência gráfica da personagem, fazendo com que esta produção se aproxime mais de um entretenimento destinado a adolescentes, ao contrário do que seria o tom inicialmente pensado. A propósito de tal ligeireza, o próprio Tom Hardy fez saber, através de uma entrevista divulgada pelo The Telegraph, que os seus "40 minutos favoritos" do filme foram cortados na versão final (comentário que depois suavizou nas entrevistas da passadeira vermelha, durante a antestreia). Ou seja, cenas em que a crueldade do monstro seria mais explícita, e que garantiam uma expressão geral mais sombria. No entanto, como se poderá ver, essa audácia foi efetivamente descartada, dando origem a um produto de série sem o mínimo rasgo, que se limita a cumprir uma agenda.

Reconhecemos que Tom Hardy (ator que assinou contrato para mais dois filmes do vilão) forma uma interessante e estranha dupla com essa coisa pegajosa que vive dentro dele e se manifesta em momentos de ação, mas aqui não se chega a usar inteligentemente o conceito clássico do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que dava pano para mangas. Em vez disso, o argumento não faz mais do que aflorar o humor da situação, e o filme em si parece andar à deriva, com uma narrativa cansada e um esquema de ação saturadíssimo.

Como já vem sendo hábito, depois dos longos créditos finais há uma pequena surpresa para os fãs da franchise...

* (Medíocre)

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