Sul-coreana Han Kang vai escrever livro para ser lido só em 2114

A artista Katie Paterson plantou uma floresta perto de Oslo, com árvores que serão transformadas em livros. Mas até 2114, as obras, uma por ano, ficarão numa cápsula do tempo

A escritora sul-coreana Han Kang vai escrever um livro que ficará fechado durante quase um século e só poderá ser lido em 2114. A autora é a quinta a ser selecionada e a aceitar participar no projeto "biblioteca do futuro" (Future Libraries), da artista escocesa Katie Paterson, juntando-se a nomes como Margaret Atwood e Sjón.

Kang, de 47 anos, venceu em 2016 o Prémio Internacional Man Booker, com a obra A Vegetariana, editada em Portugal pela D. Quixote. Aceitou este desafio e deverá entregar o manuscrito do seu novo livro no próximo ano.

A escritora considera que este é um projeto sobre o tempo, num horizonte de 100 anos, que tem o poder de "nos abrir os olhos para a transitoriedade das nossas vidas mortais e a preciosa fragilidade da vida".

"Na Coreia, quando um casal se casa, as pessoas abençoam a união dizendo 'que vivam juntos 100 anos'. Parece uma eternidade. Eu não estarei viva daqui a 100 anos, claro. Ninguém que eu ame sobreviverá também. Este facto inescapável fez-me refletir sobre o essencial na minha vida. Por que escrevo? Para quem falo, quando escrevo?"

Quando já não existir ninguém que tenha amado, ainda existirão as árvores da Noruega que agora estão a ser plantadas também no âmbito deste projeto, lembra Han Kang. E ao aperceber-se da diferença na esperança de vida entre árvores e humanos, a escritora explica como foi relembrada da nossa mortalidade. "Gostaria de orar pelo destino de humanos e livros. Que ambos sobrevivam e se apoiem, em 100 anos e depois disso, mesmo que não atinjam a eternidade."

A artista Katie Paterson plantou uma floresta perto de Oslo, na Noruega, cujas árvores serão transformadas na biblioteca, um projeto artístico para um século. Será preciso esperar 100 anos para que estas árvores cresçam e sejam transformadas em papel e até lá os livros entregues pelos escritores vão ficar fechados numa cápsula do tempo, sem ser lidos, numa biblioteca que está a ser construída ao lado do edifício da Ópera e deverá ficar pronta em 2020.

Segundo a artista escocesa responsável pelo projeto, Kang foi escolhida porque tem o condão de expandir a nossa visão do mundo. "As suas histórias são perturbadoras e subversivas, explorando a violência, crueldade, a efemeridade da vida e a aceitação da fragilidade humana", escreve Paterson.

A obra de Paterson foi encomendada para a série Slow Spaces [Espaços Lentos], um projeto de construção de arte em espaços públicos da Bjørvika Utvikling, explica Anne Beate Hovind, a comissária e produtora.

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