Stuart e o DN, a "basezinha" do artista

Amanhã com o DN uma ilustração de Stuart Carvalhais. E nos domingos seguintes, mais sete. André Carrilho fez a seleção

"Adeus, "pá", até qualquer dia", escreveu Leitão de Barros no DN de 5 de março de 1961, três dias depois da morte de Stuart Carvalhais. Um adeus simples, despretensioso e direto como era o próprio ilustrador, nascido em Vila Real a 7 de março de 1887, mas toda a vida descrito, e com a obra a dar razão, como um lisboeta com raízes transmontanas. Leitão de Barros, realizador de A Severa, o primeiro filme sonoro português, foi também um homem dos jornais, tendo dirigido O Notícias Ilustrado, em tempos edição semanal do DN. Conviveu, pois, muito com Stuart, esse filho de português e de escocesa que foi um grande artista mas igualmente um homem dos jornais, o que dá valor singular às palavras que se seguem: "Esta voz de Lisboa vem despedir-se de ti, que foste durante meio século o mais lisboeta dos humoristas da imagem. Desde saberes beber uma garrafa de vinho até desenhares, como mais ninguém, as pernas das garotas que nascem nas calçadas deste velho burgo, como os esguios e esbeltos caules dos lírios e dos jarros, foste modelarmente o nosso primeiro artista de rua."

O texto de Leitão de Barros foi recuperado num álbum ilustrado intitulado Stuart Inédito, publicado em 1989, quando o DN celebrou 125 anos, e pouco antes o próprio centenário do artista tinha merecido uma exposição em Lisboa na Gulbenkian e cerimónias várias na sua cidade natal. Era então diretor do jornal Dinis de Abreu e a coordenação do álbum foi feita por Pedro Foyos, camarada de redação que conheci em 1992, quando entrei como estagiário na sede, na Avenida da Liberdade. Falo desse edifício porque era ali que, e cito Dinis de Abreu, Stuart dizia ter "a basezinha", o que mostra como foi especial a relação com o DN apesar de ter ao longo das décadas produzido para muitas publicações, ele que lançou em 1915 Quim e Manecas, a primeira banda desenhada portuguesa. E gostava tanto Stuart da "basezinha" que até a desenhou em ambiente futurista, ilustração que o nosso jornal ofereceu aos leitores quando em finais de 2016 fez das Torres de Lisboa a sua terceira sede em 153 anos.

Sempre se falou muito de Stuart no DN e com carinho. Diretores como Mário Bettencourt Resendes ou Ferreira Fernandes, hoje, fazem parte dos confessos admiradores. E também cá na casa trabalharam grandes conhecedores e amigos, como Manuela de Azevedo, que tantas vezes pagou ao artista "um copinho de tinto" na Parisiense ou na Trevo, ou António Valdemar, uma memória do jornalismo e do DN.

Calcula-se que entre 1925, data da primeira colaboração com o jornal (ainda na sede do Bairro Alto), e a sua morte, Stuart tenha feito três mil desenhos para o DN. Houve originais oferecidos pelo autor, outros extraviados, alguns certos censores terão desviado, mas o profissionalismo de sucessivos diretores do nosso arquivo, incluindo Leonel Gonçalves e Simões Dias, que conheci, permitem que haja uma catalogação que tornou possível a seleção de ilustrações que estamos agora a oferecer aos leitores desse artista que viveu sempre com dificuldades. Descrito ora como "boémio" ora como "bêbedo" (consoante gostasse ou não dele quem falava), tinha tanto humor que quando trocou um dia o vinho pela água passou a chamar-se a si próprio de o Stuart Carvalhelhos.

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