St. Germain: "Gosto de apresentar a eletrónica a novos públicos"

St. Germain é o grande cabeça-de-cartaz do segundo dia de Lisb-on, o festival de música eletrónica que começou sexta-feira e continua até domingo no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Nesta entrevista ao DN, o músico francês Ludovic Navarre antevê o espetáculo e fala da carreira do seu alter-ego musical

Chama-se Ludovic Navarre, mas foi como St Germain que o músico e produtor francês se tornou conhecido um pouco por todo o mundo, em especial quando, na viragem do século, editou o álbum Tourist, alargando as fronteiras da eletrónica a territórios mais próximos do jazz e até da pop. Cerca de três milhões de álbuns e quase 300 concertos depois, foi necessário esperar mais 15 anos para se ouvir um novo disco de St Germain. É este álbum homónimo, inspirado pelas sonoridades tradicionais de África, que hoje apresenta em Lisboa, no festival lisb-on, num concerto no qual a electrónica serve, mais uma vez, de ponto de partida para uma viagem pelos muitos universos musicais de St Germain.

Atuou há menos de um mês em Portugal no Neopop Festival e está agora de regresso para o Lisb-on, que diferenças haverá entre um espetáculo e outro?

Vamos tocar praticamente o mesmo alinhamento, mas desta vez teremos também a participação do baixista Sullyvan Rhino, que se vai juntar a nós em palco. É um espetáculo sempre com muita improvisação, por parte dos músicos, portanto nunca há na verdade dois concertos iguais.

Que tipo de instrumentos vai trazer a banda? Podemos esperar algumas das sonoridades africanas que explorou no último trabalho, o disco homónimo de 2015?

Neste espetáculo vamos ser sete em palco, a tocar instrumentos como guitarra, teclas, baxo, flauta, saxofone, bateria e percussões, mas também instrumentos menos habituais, como o N"Goni, que é uma pequena guitarra originária do Mali.

E qual é o papel de St. Germain no meio disso tudo?

O meu papel está algures entre o de compositor e o de maestro. Faço a mistura disto tudo em tempo real, acrescentando diferentes instrumentações e sons africanos, que num espetáculo como este soam realmente fantásticos.

Prepara os seus espetáculos de forma diferente, consoante vai tocar num festival de música eletrónica, num de jazz ou noutro mais mainstream, como Coachella, onde também já tocou?

Em festivais como o de Coachella apenas tocamos uma hora, portanto em casos como esse o trabalho apenas consiste em saber escolher bem as músicas que melhor se adequam para esse tempo de espetáculo. Depois, uma das coisas que mais gosto é poder apresentar a música eletrónica a novos públicos. Tocámos em muito festivais de jazz em todo o mundo, durante a digressão do álbum Tourist, que foi lançado pela editora Blue Note e sempre fomos muito bem recebidos. E agora, com este último álbum, tenho sido convidado para atuar em festivais de world music, como o Nomad, o que também foi uma novidade para mim.

Concorda quando se diz que Tourist acabou por ser um marco na história da música eletrónica, pelo modo a apresentou a novos públicos?

Nunca esperei que o álbum tivesse tanto sucesso. Ainda hoje continua a vender-se bastante bem, a passar nas rádios, em bares...O meu primeiro disco, Boulevard, que lancei em 1995, abriu-me as portas da cena eletrónica e do house em países como os Estados Unidos ou a Inglaterra, mas Tourist, também talvez por ter sido editado pela Blue Note, deu-me a oportunidade de tocar em muitos festivais de jazz e chegar a um público mas alargado em muitos países.

Tourist foi editado em 2000 e só 15 anos depois lançou um novo disco, porque demorou tanto tempo? O que andou a fazer durante esse período?

Logo após o lançamento de Tourist andámos em digressão durante mais de dois anos, o que representou cerca de 250 espetáculos um pouco por todo o mundo. Depois disso precisei de fazer uma pausa na música, que só terminou quando produzi o álbum a solo de Soel, o trompetista que tocava em Tourist e me acompanhou ao vivo nessa altura. Também fiz um álbum de remixes do Gregory Porter para a Blue Note e em 2005 ainda dei um último concerto na China. No ano seguinte comecei a trabalhar num disco novo, com os mesmos músicos no anterior, mas não fique nada satisfeito com o resultado final e deitei tudo fora. Recomece a pesquisar, comecei uma viagem musical no meu estúdio, que me conduziu a países como a Nigéria, o Gana ou o Mali, especialmente este último, que acabou por se tornar na grande referência para o último álbum.

O que é que o atraiu nessas sonoridades africanas?

No caso dos blues do Mali, teve a ver com a minha paixão por sonoridades tradicionais e estes músicos fazem-nas tocando instrumentos também eles tradicionais. Por outro lado, foi fácil para mim encontrar muitos e bons músicos malianos em Paris. Infelizmente nunca cheguei a ir ao Mali.

Esse disco já foi editado há mais de três anos, tem planos de lançar um novo trabalho num futuro próximo?

O meu último espetáculo será precisamente este, em Lisboa. Depois vou regressar a casa, para o meu estúdio e começar a trabalhar em material novo, que espero poder vir a editar num novo disco já para o próximo ano.

Que diferenças há entre St Germain, o artista, e Ludovic Navarre, a pessoa?

Enquanto Ludovic Navarre, o meu estúdio em casa é fundamental. Gosto de trabalhar sozinho, à noite, no silêncio da cidade, que me ajuda muito a concentrar. Gosto muito de estar sozinho, não me satisfaço facilmente com o meu trabalho e também não gosto de falar muito. Já enquanto St. Germain, adoro partilhar com os outros a minha música ao vivo, num palco. Neste momento somos uma equipa de 14 elementos na estrada e existe uma grande amizade e cumplicidade entre todos nós. E no meio disso tudo tenho também de desempenhar o papel de maestro, de ser a pessoa responsável pelo resultado final que é apresentado em palco. Portanto, posto isto, só espero que venham ao espetáculo e que se divirtam!

Lisb-On

Parque Eduardo VII, Lisboa. Até domingo, 14h. €30 a €65 (passe)

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