"Sol Cortante é um filme sobre um segredo, um filme assombrado"

A cidade raiana de Serpa foi o cenário escolhido pelas irmãs Laperrousaz para filmar um verão em família. Mas não um verão qualquer

Duas parisienses, uma formada em Filosofia e a outra em Belas Artes. Respetivamente, Clara e Laura Laperrousaz são rostos jovens no panorama atual do cinema francês. Vieram a Portugal filmar Sol Cortante, produzido pela Alfama Films, e não descartam a hipótese de repetir a proeza. Esta é a primeira longa-metragem de ambas com estreia comercial, embora já constem dois títulos na sua filmografia conjunta. Um deles - Retenir les ciels (2013) - serviu de base narrativa ao filme que agora chega às nossas salas.

Sol Cortante leva-nos até às planícies e vales de Serpa para falar do verão de uma família: um casal com duas amorosas filhas gémeas. O cenário que encontramos é extremamente agradável ao olhar, muitas vezes a roçar o efeito postal. Mas por detrás da boa saúde das imagens esconde-se um drama íntimo, uma memória trágica. Esse segredo do passado regressa para definir o tom destas férias familiares. E tudo começa na pergunta que uma das pequenas faz ao pai: "Porque é que nunca tínhamos vindo a Portugal?" Afinal, ele é um emigrante português. Que razão o impedia de trazer as gémeas francesas ao seu país? As irmãs Laperrousaz, que não são gémeas, encarregam-se de revelar pacientemente o mistério e as suas consequências no tecido doméstico. Com a mesma disponibilidade, responderam a uma só voz, e por e-mail, às perguntas do DN.

A força do título "Sol Cortante" [Soleil battant] parece conter desde logo um sentido duplo: a luminosidade própria dos dias de verão, e o lado obscuro desses dias. Podemos dizer que é entre as duas coisas que o filme se equilibra?

Tem toda a razão. O ponto de partida era mostrar o declínio e reabilitação de uma família. É um filme sobre a pulsão da vida, luminoso, pleno de amor. E para responder visualmente ao que as personagens atravessam, precisávamos de as encaixar num quadro especial: uma casa perdida numa natureza solar e selvagem, o verdadeiro paraíso. A tensão e o desconforto instalam-se até que explodem no calor do verão português... Por essa razão recorremos ao diretor de fotografia Vasco Viana, cuja abordagem do claro-escuro tínhamos descoberto e adorado em Montanha [2015], do João Salaviza. Era indispensável para nós trabalhar sobre a penumbra dos interiores. Havia, naturalmente, um desejo de oposição e complementaridade entre os exteriores ardentes, com a imensidão da luz, e os segredos revelados no interior do espaço íntimo, escuro e protegido, do quarto na hora da sesta. E já que nas tardes de verão em Portugal se fecham as persianas para proteger do calor, pudemos fazer valer essa pista estética no filme. Quisemos assumir uma imagem muito estilizada, sem nunca colocar o espectador à distância, porque a relação com as fontes permanece simples e viva. Em algumas sequências demos mesmo como referência ao Vasco as pinturas de Caravaggio, para imergir as personagens na sombra e no mistério. E dialogar com ele foi uma grande alegria, porque compreendeu as nossas aspirações.

Porquê a escolha da paisagem de Serpa?

A força visual do Alentejo siderou-nos. A escolha de Serpa - que é uma cidade extremamente bonita - passou também pelo amor ao primeiro encontro com o cenário principal da casa esquecida nas colinas vermelhas, que se estendem a perder de vista. Tínhamos o grande desejo de dar a este drama familiar a dimensão de um filme de paisagens. A sua beleza solar tem também uma carga inquietante. Essas paisagens são portadoras de uma dramaturgia e de um simbolismo que pesam sobre as personagens. Por isso, optámos imediatamente pelo Cinemascope, capaz de captar a imensidão âmbar das planícies e vales que esmagam e perdem os homens. Além disso, a referência ao western foi decisiva. Queríamos ter uma imagem quente, mesmo que seja sempre suave sobre a pele. E se estávamos interessadas ​​no plano visível, real, sensual, Sol Cortante é também habitado pelo invisível: os traços do passado traduzidos nas personagens. É um filme sobre um segredo, um filme assombrado, um filme de fantasmas.

Existe algo de autobiográfico nesta história?

Sim. E além disso, este material familiar foi assunto de uma média-metragem que realizámos em 2013 [Retenir les ciels], já com a longa em mente. Tínhamos uma necessidade muito grande de fazer este filme, para falar sobre esta família tocada por uma tragédia. Escrevemos a partir daquilo que conhecíamos bem, ou seja, do que poderia representar para as crianças o passado familiar. Escolhemos ter quatro personagens principais - as meninas e os pais - e queríamos compreender as falhas, os desejos e os medos que os animam à medida que vivem, aprendem, falam ou guardam para si. Tentámos entrar na singularidade de cada membro desta família, que passa por momentos quase "documentais" da nossa própria infância.

Como foi dirigir as gémeas Océane et Margaux Le Caoussin? Pergunto-me se se traduziu num trabalho meticuloso ou espontâneo. É que parece muito natural...

É dos melhores elogios que nos podem fazer, porque foi realmente esse o desafio do filme! As personagens de Océane [Emma] e Margaux [Zoé] são impulsionadoras: procuram entender o mundo dos adultos, empurram a narrativa, provocam os acontecimentos... Fizemos um longo casting antes de nos apaixonarmos pelas gémeas, e alterámos o guião que originalmente estava escrito para irmãs de idades diferentes. Mas a personalidade distinta das duas, evidente nos primeiros ensaios filmados, juntou-se ao que nos interessava na caracterização das personagens. Foi tocante e divertido perceber que a Óceane queria saber mais e mais sobre o seu papel, enquanto a Margaux ainda estava verdadeiramente na infância, mais preocupada com as brincadeiras do Clément Roussier [o ator que interpreta o pai]. O filme trabalha com alavancas emocionais assumidas, era essencial também dar um lugar a esses momentos de riso e fantasia para gerar intervalos de tom. E procurámos criar uma ligação forte com as duas antes de filmar para que uma real confiança se pudesse estabelecer. Sobretudo, não queríamos que elas aprendessem de cor os seus textos, porque o que importava era preservar a naturalidade. Na verdade, nós dispensámos as crianças "atores" durante o casting para evitar qualquer automatismo.

E, enquanto irmãs, reveem-se na cumplicidade destas gémeas?

Claro! E é muito engraçado termos procurado duas meninas que fossem irmãs - como no nosso caso - para no final dar os papéis a umas gémeas. Isto permitiu-nos falar melhor do vínculo forte que nos une. Porque apesar dos dois anos e meio que nos separam, temos realmente uma relação de gémeas, que sempre existiu mas se acentuou ainda mais através da nossa relação profissional e artística. Temos um tal conhecimento uma da outra, das nossas referências, da matéria afetiva que nos constitui, que quase podemos comunicar sem palavras, ter intuições comuns no plateau sem ser preciso discutir... O que é uma preciosa economia de tempo. Enfim, somos habitadas pelas mesmas obsessões, e o facto de sermos irmãs permite-nos exigir muito uma da outra. Fora do cinema - que já nos ocupa consideravelmente e nos faz passar um número incrível de horas juntas - estamos bastante próximas e comunicamos constantemente.

Este filme parece alinhar-se numa vaga ideia de cinema que retrata os emigrantes portugueses. O conceito de uma história partilhada entre duas nacionalidades esteve sempre na equação?

Na verdade, não. O filme foi escrito e pensado para ser rodado em França, no sul de Lozère, onde temos muitas memórias de infância. Depois, um acidente de produção baralhou as cartas e comprometemo-nos com o Paulo Branco [Alfama Films]. Foi ele quem adaptou o filme a Portugal e nos orientou para o Alentejo. Então, filmar no vosso país chegou tarde no processo, mas foi para nós uma espécie de epifania. Como se o que impediu de fazer o filme em França fosse afinal um plano secreto para nos conduzir a outras terras. E convidar a Teresa Madruga, que tanto admiramos, [para entrar numa cena] significou muito na nossa cinefilia. Surgiu como uma feliz coincidência que ela tivesse o sotaque da região! Da mesma forma, a sequência da música tradicional, à capela, nasceu de um momento que vivemos durante um almoço da rodagem: os velhos regulares do café começaram de repente a cantar com uma força que nos tomou as entranhas. Era impossível deixar o Alentejo sem prestar tributo a estas vozes, e então imaginámos uma sequência que as integrou na história.

Voltariam a filmar em Portugal?

Pelo que foi dito, dá para perceber que adorámos! Desenvolvemos uma ligação afetiva muito forte com o país, desde as pessoas que generosamente nos receberam em Serpa aos membros da nossa equipa. Já regressámos a Portugal algumas vezes depois da rodagem, e gostaríamos muito de fazer outro filme aí, um dia.

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