Robert Redford e a despedida comovente em Toronto

The Old Man and The Gun, a despedida de Robert Redford do cinema. Toronto celebrou o filme que funciona como homenagem à carga mítica do ator que agora decidiu afastar-se da interpretação. Um trunfo de um festival que termina no próximo domingo

Os cabelos louros de Redford não têm idade. Em The Old Man and The Gun, apresentado em Toronto em estreia mundial, o realizador David Lowery (o génio por detrás de A Ghost Story), filma um canto do cisne. Uma despedida de carreira do ator que torna a própria história do filme num programa de pergaminhos simbólicos. O filme será mesmo a última vez que Redford será visto num grande ecrã e a sessão aqui no festival foi especial. Antes do começo da sessão, esbarrei com um Redford a mancar e visivelmente envelhecido, mas sempre com aquele charme intemporal. No final da mesma, houve algo inesquecível: uma ovação estrondosa e um Redford sorridente a ver uma plateia do gigante Elgin Theater em lágrimas. Foi bonito.

Foi ainda mais bonito porque The Old Man and The Gun é uma espantosa comédia de golpes, um filme sossegado sobre um homem que nunca fica sossegado. Podemos até falar de estado de graça, de serenidade graças a um guião com as notas certas de humor e nostalgia. Tudo se passa nos anos 1980 e a história é absolutamente verdadeira: um gangue de assaltantes de idade avançada (Redford, Danny Glover e um tocante Tom Waits) começa uma espiral de assaltos a bancos sem violência e com um bónus: o velho do título é cordial e sempre cavalheiro.

Tratado de dignidade e simplicidade, The Old Man and the Gun emociona-nos quando não estamos à espera e joga com as marcas temporais. Os flashbacks incorporam sem problemas imagens de outros filmes de Redford em processo de homenagem velada). Uma realização descontraída, quase ao sabor do vento e do carisma do sorriso de Redford. Em outubro chega às salas portuguesas.
Nesta reta final do TIFF, destaque ainda para Colette, de Wash Westmoreland, honesto "biopic" da escritora francesa e veículo para a inglesa Keira Knightley. Um filme apenas simpático e competente que se demite de voos maiores.

De referir ainda a desilusão Destroyer, de Karyn Kusama, com uma Nicole Kidman em versão "boneco" a interpretar uma detetive de Los Angeles desfigurada peloo tempo e com o trauma de uma missão de infiltração mal resolvida. Cinema com oportunismo feminista e cheio de problemas de montagem - as suas duas horas passam devagar.

Felizmente, o TIFF revelou uma surpresa de todo o tamanho: Green Book, de Peter Farrelly, com Viggo Mortensen, "filme-de-estrada" sobre a América racista do começo dos anos 1960. Arrisca-se a ser o campeão de popularidade do festival. Como Viggo Mortensen se fartou de frisar, nunca antes em toda a sua carreira viu uma aclamação tão evidente num festival de um filme seu. Depois do que se passou aqui em Toronto, é outro título a entrar diretamente na corrida para a temporada dos prémios.


O TIFF, na secção Midnight Madness, encerra este fim-de-semana com Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, a comédia subversiva sobre o melhor craque de futebol do planeta que é clonado pelo Governo Português. Mais uma aclamação de todo o tamanho para o melhor filme português de 2018.

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João Gobern

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Rogério Casanova

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