Rafael Vilhais: "É muito positivo ver tanta gente jovem a querer ser toureiro"

No primeiro dia das festas da Moita, o empresário tauromáquico Rafael Vilhais, nascido em Samora Correia e gestor das praças de Salvaterra de Magos, Moura, Caldas da Rainha e Moita e apoderado (manager) das carreiras dos cavaleiros Francisco Palha, Filipe Gonçalves e representante do rejoneador Diego Ventura em Portugal, fala sobre o setor e as tendências.

Como está a correr a temporada? As praças têm tido bom público?

Sim, está a correr bem. A temporada tem vindo em crescendo e a partir de finais de junho até agora houve um aumento significativo de público, com bastantes casas cheias e muitas com lotação esgotada. Nas minhas corridas consegui esgotar Salvaterra, como foi na atuação do Diego Ventura, e praças cheias ou quase esgotadas como nas Caldas, Salvaterra ou Moura. A praça das Caldas não esgotou, nas duas corridas deste ano, por poucas dezenas de bilhetes. Têm sido corridas memoráveis.

Agora que começaram as festas da Moita haverá mais entusiasmo?

A Feira da Moita começou esta noite de 11 e vai até 14 de setembro, com três corridas e uma novilhada. Depois desta corrida mista - com o matador português Nuno Casquinha, o espanhol Manuel Escribano, um toureiro que está nas principais feiras de Espanha, junto com o cavaleiro Vítor Ribeiro e um curro de Falé Filipe - vem a novilhada de oportunidade aos mais novos nesta quarta-feira. Dia 13 comemoramos os 40 anos de alternativa do mestre João Moura com uma grande corrida, um cartel cheio de figuras que encheu a praça das Caldas por completo, com Mouras, Telles, Rouxinóis e Francisco Palha e toiros Passanha. Terminamos dia 14 com uma corrida em que toma a alternativa a cavaleira Verónica Cabaço e homenageamos o forcado Fernando Quintella, que foi colhido mortalmente faz agora um ano, com artistas de estilos muito diferenciados e um curro de ganadarias da maior qualidade e emoção.

Como se constrói um espetáculo destes para garantir que é um sucesso, o que é que não pode falhar?

Primeiro, começar pela base principal que é a escolha dos toiros. A apresentação dos mesmos é fundamental, depois os toureiros. Em cada praça, em diferentes zonas do país, existem públicos distintos, o que nos obriga, com o tempo, a ter uma aprendizagem do que realmente são as suas preferências de cartel. O público das Caldas não é o mesmo de Salvaterra nem de Moura nem da Moita. Depois de montado o cartel com os toiros e toureiros falta a cereja em cima do bolo, os grupos de forcados, e para grandes cartéis os melhores grupos. Depois, estando tudo montado, é preciso saber vender o espetáculo, promovê-lo de forma bem eficaz e atrair novos públicos, especialmente os jovens.

Há um aumento significativo de público nesta temporada, especialmente nas camadas mais jovens

É empresário na área dos toiros, tem a gestão de praças e é apoderado... Como se vive deste negócio em 2018? Quais são as maiores dificuldades, como se divide o tempo?

Atualmente tenho a gestão de Salvaterra, Caldas, Moita e a de Moura com a ajuda de um amigo, o João Cortez, que foi forcado do Real Gfa de Moura. Sou apoderado dos cavaleiros Francisco Palha e Filipe Gonçalves, com a ajuda do Vasco Pinto, e sou, ainda, representante do Diego Ventura que é apoderado pela Casa Lozano de Madrid. Qualquer negócio, este como outros, vive de acordo com a situação económica do país. Os tempos atuais já mostram sinais de recuperação económica mas ainda falta muito para o poder de compra ser recuperado. Se o povo - e este é um espetáculo de todas as camadas sociais - tiver de gerir as suas finanças de acordo com as suas dificuldades de rendimentos terá que eleger onde quer e pode ir, tal como com o cinema, o teatro etc...por isso temos que montar cada vez espetáculos com melhor qualidade. A qualidade é o que faz a diferença, movimenta o público e gera rentabilidade. O que me preocupa é a grande falta de respeito por parte de alguns políticos extremistas mas, felizmente e graças a Deus, têm sido constantemente derrotados em sede própria.

Dividir o tempo entre apoderado e empresa não é fácil e para mim são coisas totalmente distintas. A dedicação à empresa ocupa muito mais tempo, ser apoderado é apaixonante. Tenho de acompanhar o mais possível o toureiro e sentir algo pela sua forma de tourear. Jamais serei capaz de apoderar alguém que não me diga nada artisticamente.

Há muita gente de novas gerações a entrar? Temos visto até mais mulheres cavaleiras... mas esse interesse é visível? E entre os forcados também se tem feito essa renovação?

Está aparecer muita gente jovem a tentar a sua sorte nesta profissão tão difícil que é ser toureiro, e sem dúvida muitas mulheres. Há uma nova geração de mulheres toureiras a despontar. O interesse que todos estes jovens toureiros despertam depende deles mesmos, sejam homens ou mulheres. Como em tudo, considero que no panorama atual alguns não têm qualidade suficiente para se manterem, sejam novos ou já com algum tempo de profissão. Aqueles que não conseguem singrar têm que dar lugar a outros que querem abrir caminho, sendo o público que irá fazer a seleção natural comprando o seu bilhete para os ver. Mas, antes de mais, é muito positivo ver tanta gente jovem a querer ser toureiro.

Em relação aos grupos de forcados eles são os amadores que fazem muita falta à Festa. Nascem por todo o lado, nunca houve tantos forcados em atividade nem tantos grupos como agora. Em algumas terras como por exemplo Alcochete são como os pardais. Considero que existem demasiados grupos, mas também é sempre importante destacar que são uma escola de criar aficion por todo o país. Bater as palmas a um toiro não é para todos.

Está aparecer muita gente jovem a tentar a sua sorte nesta profissão tão difícil que é ser toureiro, e sem dúvida muitas mulheres

O toureio a pé feito por portugueses seria uma boa aposta?

O toureio é uma forma de expressão artística e cultural universal, tem que ver com sensibilidade e não com nacionalidade. Em relação aos toureiros portugueses para terem maior visibilidade têm de procurar novos rumos, seja em Espanha, França ou América Latina. A viver em toureiro temos o caso do Nuno Casquinha, que rumou ao Peru onde tem tido enorme sucesso, à custa de muito sacrifício e uma tremenda ambição. Os resultados estão à vista, por isso esteve ontem na Feira da Moita por mérito próprio, numa corrida em que toureou o matador espanhol Manuel Escribano e o cavaleiro Vítor Ribeiro. Faz sempre falta um matador português que arraste público, que crie paixão e adeptos ao seu toureio, para que as corridas com matadores portugueses tenham rentabilidade sem recorrer a matadores estrangeiros.

Há um crescente movimento antitouradas que tem dado nas vistas nas universidades (Porto, Coimbra, até Évora), nas juntas, etc., apesar de as corridas terem sido ratificadas recentemente na Assembleia. Como responde a quem diz que as corridas de toiros estão em vias de extinção?

O aumento significativo de público nesta temporada, e especialmente nas camadas mais jovens, ditam precisamente o contrário. Esta história da "extinção" passa pelos partidos extremistas e por políticos oportunistas, desconhecedores do mundo rural, da história do país, do povo e de uma cultura que é nossa. Quanto mais nos tentam atacam mais fortes nos tornam. Esta temporada está a ser uma prova disso. Mais de 80% dos deputados esmagaram o ataque do PAN. Veja a corrida da TVI, transmitida há poucos dias, foi vista por quase 2 milhões de portugueses. São números fabulosos e muito reveladores da adesão massiva dos portugueses às touradas.

Tem números que revelem crescimento de público/bilhetes vendidos?

No meu caso, tive espetáculos que tiveram um crescimento de público de 30% a 35 % em três anos.

Quanto mais nos tentam atacam mais fortes nos tornam

Quais são os principais desafios/ambições para os próximos tempos?

O meu grande desafio é criar espetáculos cada vez com maior qualidade. Esta é sempre a minha intenção. Torná-lo atrativo, e aí os toureiros terão um papel importante ao darem a cara, baterem-se todos dias para estarem melhor. É o que eu digo aos toureiros que apodero. Deixa-me muito satisfeito ver surgirem jovens com um querer, uma ambição desmedida como a que tem o Francisco Palha, que está no momento mais alto da sua carreira e a querer ser Figura. Tem tido actuações e triunfos impressionantes. Existem mais alguns em que tenho esperança e têm qualidade para tal. Ambições tenho sempre muitas e essas guardo-as para mim porque para já são somente sonhos.

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