Pausa na música. O Alive tem um palco para quem se quer rir

Guilherme Duarte chama-lhe "Coachella da Primark", e à semelhança do que já aconteceu no festival norte-americano, também há um Palco Comédia no Nos Alive. Foi lá que o humorista se apresentou

Por Falar Noutra Coisa é o nome da página que Guilherme Duarte alimenta nas redes sociais. É a sua plataforma de humor, aquela que o lançou, sem televisão nem rádio, para o mundo do stand up, como disse Jel no momento de apresentar o humorista no Palco Comédia do festival Nos Alive.

"Coachella da Primark", chamou-lhe Guilherme Duarte no início da atuação esta quinta-feira, dia 12, arrancando as primeiras gargalhadas ao público, uma plateia bem composta, sentada na relva artificial. O humorista foi o penúltimo da noite (antes de Rui Sinel de Cordes).

O espetáculo reuniu material que tem levado em digressão pelo país, mas também histórias novas, que ganham corpo para um futuro espetáculo. O dia em que foi caçado pela polícia, depois de ter fumado ganza num descampado da Damaia, viver com a namorada, um momento de spoken word e o derradeiro segmento, em que critica os críticos - Coninhas Gonna Conate.

Os momentos antes de subir ao palco foram de pânico. "Estou sempre e hoje ainda mais um bocadinho, porque há sempre gente que não sabe ao que vem. Não pagaram para me ver... ".

Os momentos seguintes foram de descontração. "É sempre difícil, porque estamos num festival de música, as pessoas vêm mais pelos concertos, há barulho e o stand up precisa de muito silêncio, para controlar as pausas, mas mesmo assim acho que correu bem. Acho que cada vez mais as pessoas vêm ao palco comédia para se rir um bocadinho."

Do computador para o palco

Vários espetáculos ao vivo depois, Guilherme Duarte diz que estar ao computador ainda é o que mais gosta de fazer. "É mais fácil". O primeiro espetáculo a solo aconteceu há um ano. "Comecei a gostar mais de fazer stand up, de montar o espetáculo". Pretende ter um espetáculo novo todos os anos e está precisamente a trabalhar um novo texto e apresentou parte no palco do Alive. "Algum texto novo, algum mais testado, foi meio-meio".

Há episódios que envolvem canábis, polícia e um descampado na Damaia, e que se juntaram as piadas à vida em comum com a namorado, ao facto de ser informático e um momento de spoken word em fala da dependência das redes sociais.

Como quase tudo o que conta em palco, também aqui está a usar a experiência pessoal. "Cada vez mais me tento desligar disso, de ver quantos likes tem um piada...", diz, quando se pergunta se já foi ver quantos likes e seguidores tem a mais desde que desceu do Palco Comédia. "Passado um tempo vou ver, mas já não ligo tanto. É uma prisão muito grande e comecei a sentir que isso estava a tornar-se mal. Nem sei ao certo quantos seguidores tenho. Há sempre gente a entrar e a sair".

Neste primeiro dia, atuaram Joel Ricardo, Rui Xará, Guilherme Geirinhas e Manuel Cardoso (Colóquio de Bethipsters). "Correu muito bem. O Joel nunca tinha visto ao vivo, Geirinhas e Manuel Cardoso fizeram uma coisa diferente do habitual", diz, acrescentando que ainda quer ver Pedro Teixeira da Mota e não muito mais, que sobe ao palco este sábado. "Hoje em dia custa-me ver comédia. Se não correr bem, sofro. Se correr, penso 'ah, filho da mãe, correu tão bem".

O que ainda pode ver

Esta sexta-feira, dia 13, também sobe ao palco com a banda satírica Kalashnikov (00.50), um dos seus projetos de Jel ao lado do irmão, Vasco Duarte. No cenário criado pelo artista Bordallo II também vão passar o comediante britânico Simon Day (22.35), protagonista dos programas da BBC The Fast Show e History of Rock, o humorista e guionista Rui Cruz (20.50), o "jovem conservador de direita" Bruno Henriques (19.25) e Miguel Lambertini, a quem cabe a abertura do palco (18.00),

Amanhã, sábado, dia 14, os Cebola Mol, de Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca, são os cabeças de cartaz do último dia de Alive 2018. Sobem ao palco à 01.15. Pelo palco passam ainda o autor do poscadt Ask.tm e Erro Crasso, Pedro Teixeira da Mota (22.35), Diogo Batáguas, autor do espetáculo Quero Lá Saber (20.35) que tem levado em digressão pelo país (20.35), Ana Garcia Martins, autora do blogue A Pipoca Mais Doce(19.10)e o humorista João Pinto (17.45).

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.