Paulo Flores no Rock in Rio: uma história de semba e futebol

Músico angolano com 30 anos de carreira e 15 álbuns editados foi este domingo o cabeça de cartaz do palco EDP Rock Street do Rock in Rio, num concerto que foi antecipado por causa do jogo de Portugal com o Uruguai, no Mundial da Rússia

A kizomba está na moda, certo é, mas Paulo Flores escolheu não trazê-la para o concerto deste sábado à tarde no palco EDP Rock Street do Rock in Rio, inteiramente dedicado a África. Trouxe semba. Afrobeat. Temas do último álbum, Kandongueiro Voador, como Boca do Lobo. "É um show mais upbeat com a intenção de pôr as pessoas felizes e com uma energia boa", dizia Paulo Flores ao DN no backstage, antes do início do concerto. Alguns dos músicos que o acompanham, como o guitarrista guineense Manecas Costa, assistiam ali ao Argentina-França, que acabou com a vitória francesa. Iriam entrar em palco 45 minutos antes do previsto. Às 18.15. O motivo é o futebol. Portugal-Uruguai em Sochi. Que acabou com a vitória uruguaia.

Mas quando o angolano tocou na Bela Vista estava-se longe de prever um tal desfecho e durante todo o espetáculo o músico puxou por Portugal e pelo público. "A seguir vamos gritar Portugal, ya? Mãos no alto, tocando as estrelas", lançou, à audiência já de braços no ar. Numa interação perfeita com os vários músicos e instrumentos - como de resto costuma fazer nos concertos que quase transforma em jam sessions - Paulo Flores avisou: "De Angola, para quem não conhece, o semba". E tocou o tema Poema do Semba.

E a dança saiu. Formaram-se pares. Dançou-se. Aplaudiu-se. "Eu já fui tocar à Polónia, à China, à Rússia por causa da kizomba e do semba. Fui a festivais de bachata, salsa, kizomba e semba. Acho que isso são formas de nos aproximar. O mundo artístico não conhece fronteiras. Nunca pensei que chegasse tão longe, mas acho que tem tudo que ver com a dança, com essa vontade de seguir em frente e com uma energia diferente", constatou ao DN, na entrevista de backstage, sublinhando o papel da dança no interesse dos públicos pela música angolana.

"Mãos lá em cima gente. Sem vergonha gente. Quero ver que Portugal vai marcar. Para cima. Para cima", gritava o músico, enquanto o público saltava. Para quem conhecia, veio de propósito, soube a pouco, para quem não conhecia, ficou a curiosidade de conhecer mais. "A ideia de um palco dedicado a África no Rock in Rio é de louvar. Este palco tem uma função de nos dar espaço e de estar mais perto das pessoas. Estou contente por estar aqui", confessou o músico angolano que, desta vez, não tocou o tema Só fui lá pôr um Like. Então num festival de selfies, youtubers, instagramers e facebookers à caça de Likes não toca esse tema? "Não. Neste show não foi prioridade. Hoje não há Like", garantiu, entre risos.

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