"Os portugueses veem os Descobrimentos com óculos cor de rosa"

O primeiro livro de Barry Hatton sobre Portugal vai em 12 edições. Após Os Portugueses, publica Rainha do Mar, uma "biografia" de Lisboa, com uma opinião que desafia a maneira como os portugueses gostam que falem deles.

Barry Hatton publica primeiro em Inglaterra e só depois é traduzido para português. Rainha do Mar sucede a Os Portugueses, um sucesso editorial pouco habitual no nosso país. Sobre o novo livro do correspondente da Associated Press em Portugal, o Financial Times disse que o jornalista tinha "uma perspetiva fascinante e por vezes inquietante sobre a capacidade fora do comum de Lisboa para sobreviver".

É da capital portuguesa que Rainha do Mar trata principalmente, mas como o país é "macrocéfalo", ao fazer-se a história de Lisboa faz-se também a de quase todo o Portugal. Hatton espanta-se porque se esconde o papel na cidade de figuras importantes, é o caso do apagamento de Salazar, e refere que tudo é contado tendo em conta o tempo antes e depois do terramoto de 1755.

Quando se lhe pergunta se para si também há uma data que marque um antes e um depois na sua vida portuguesa, aponta 1986, o ano da adesão à União Europeia: "Quando aqui cheguei há 33 anos, descobri uma cidade que parecia estar numa quinta dimensão. Desembarquei na Estação de Santa Apolónia e foi um choque cultural. Era uma cidade que pertencia ao passado, e como vinha de Londres ainda foi pior. Londres já era uma cidade pós-punk."

Nada que não tenha ficado para trás, como refere: "Tenho testemunhado nestas décadas uma grande mudança e vi o país ser catapultado para um tempo atual." Pergunta-se se voltasse a descer em Santa Apolónia agora ainda estranharia a cidade: "Não, é uma cidade europeia e moderna."

Rainha do Mar mantém a curiosidade sobre o nosso país que já se observava em Barry Hatton quando da publicação de Os Portugueses e faz um retrato original e de muito boa leitura. Não será por acaso que o livro já vai em tantas edições. Hatton já publicou uma biografia sobre a ex-primeira-ministra Maria de Lurdes Pintasilgo, em coautoria, o que mostra como certas figuras da vida nacional o interrogam.

Diz no livro que é um jornalista inglês apaixonado por Portugal. É o seu cartão-de-visita?
Acaba por ser porque cheguei em 1986 e sempre recusei vários convites da empresa para ir para Bruxelas, Londres e Nova Iorque. Gosto do país. Não ganho tanto como poderia nessas cidades, nem tenho os benefícios que uma carreira dessas me daria, mas prefiro Portugal, que não é um país rico financeiramente mas sim em pessoas e cultura.

A razão de ficar em Portugal foi...
Há sempre uma mulher no meio destas histórias. Mas poderíamos ter ido para outro lado, não ter dado nomes portuguesíssimos aos três filhos. Nem se discutiu muito a questão: "Queríamos ficar os dois."

Os Portugueses vai em doze edições e isso não é normal nos livros em Portugal. O que tem este de especial?
Suponho que não é normal e também fiquei surpreendido. Não achei que os portugueses se interessassem pela minha opinião sobre eles, o país e a sua história, embora saiba que os portugueses adoram que se fale deles. Quando há um artigo sobre Portugal num jornal estrangeiro é muitas vezes notícia nos de cá. Creio que se deve ao facto de Portugal ter sido muito ignorado durante bastante tempo e continuar a ser relativamente ignorado.

Só por essa razão?
Creio que também se deve a ter sido honesto no que escrevi. Falei do que é bom e mau, porque os países são como as pessoas. Os leitores perceberam que os tratei com honestidade e amor, pois recusava-me escrever um livro com mentiras sobre Portugal.

Neste Rainha do Mar tem várias críticas ao país, como termos sido os maiores esclavagistas!
Acho que ninguém se revê nessa realidade. É como quando se diz que os descobrimentos são momento mais glorioso do país, mas se formos ver o que aconteceu nessa época percebemos que o império português era como qualquer outro do mundo: espanhol, inglês, francês ou mesmo o romano. Um império parte daqui para ir longe, subjugar e tirar as riquezas. Os portugueses têm a tendência para ver os Descobrimentos com óculos cor-de-rosa, mas há estudos que mostram que não é bem assim quando se tem um império: há discriminação, massacres, tratamento desigual aos indígenas. Não há dúvida é que ninguém está interessado em falar sobre a escravatura.

É uma característica portuguesa?
Não, mesmo que haja outros países que já se confrontaram com o seu passado, com o que não gostavam e tiveram de o aceitar. Os belgas com o que fizeram no Congo, os ingleses na Índia, mas os descobrimentos continuam a ser envolvidos num pano de algodão para não doer.

Logo no início usa a expressão "marcar a presença" com um padrão para se referir ao 'descobrimento' do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Tenta ser politicamente correto?
Já se percebeu que ninguém descobriu, já lá estavam pessoas há muitos séculos, bem como havia seres na Austrália há 50 mil anos. É uma coisa muito europeia falar do descobrimento.

Fala de uma Lisboa onde ainda se pode ver roupa interior pendurada nas janelas...
Sim, é algo que distingue a cidade. Escolhi as histórias mais interessante e acho que está tudo o que faz falta no livro para falar da cidade. Se escrevesse muito mais nenhuma editora quereria publicar o livro.

Qual foi a razão para voltar a escrever sobre o país?
Andava à procura de um tema para escrever porque gostei de fazer o livro anterior, onde pus muitas experiências pessoais e bastante história. Percebi que Lisboa era o que conhecia melhor no país e como a cidade é palco de muita da história portuguesa, porque tudo é muito concentrado na capital, acaba por ser também uma história de Portugal.

Tem muitos pormenores sobre as pessoas e os factos. Foi difícil encontrá-los?
A investigação não foi muito complicada, levei oito meses a ler muitos livros, a consultar o Google Scholar e a visitar vários lugares ao fim de semana para ver na realidade o que estava a escrever.

É quase um guia de Lisboa?
Não é um guia turístico, só se for para turistas que querem saber muito mais do que aquilo que viram. Mas é uma leitura divertida em vez de ser chata como muitos livros sobre Lisboa. O mesmo acontece em Inglaterra, onde há muitos livros de história chatos. Tentei evitar a armadilha própria dos livros escritos por historiadores e fiz como se fosse para ler uma história publicada num jornal.

Foca-se em Lisboa neste livro. Porquê esta escolha em Rainha do Mar?
Porque é o que conheço bem em Portugal e por existir uma sedução da cidade em mim. Como a sua luz e o estado de espírito que provoca. Quem vive cá não repara em certas situações, mas um estrangeiro não as consegue ignorar. Há uma magia que não se encontra em mais nenhum lugar da Europa, daí estarmos cheios de turistas, que finalmente descobriram a cidade.

Como convive com esta invasão turística?
Eu também não gosto e Portugal é mais uma vítima do hiperturismo que afeta várias cidades. Parece uma multidão num jogo de futebol. Na época alta nem podemos ir para o centro no fim de semana e será preciso encontrar uma forma de evitar que a cidade sofra como acontece em Barcelona, Praga e, até certo ponto, Londres. Tenho escrito muitos artigos sobre essa situação.

Enquanto fazia a investigação encontrou histórias com interesse jornalístico?
Não diria isso, foi antes ao contrário. No meu dia-a-dia encontro coisas que não têm espaço para ser desenvolvidas e usei-as no livro.

Qual é a parte que os portugueses vão gostar mais de ler?
A minha filha já me perguntou qual era o capítulo de que mais gostava e não fui capaz de lhe responder. Quanto aos leitores portugueses, não sei dizer o que lhes agradará mais. Tentei transformar as partes da história mais aborrecidas em coisas interessantes. Como o século XIX, em que, tal como na Inglaterra, é necessário fazer um grande esforço para tornar a sua leitura interessante.

Essa parte das invasões francesas e da ajuda inglesa não é um bom tema para um terceiro livro?
Porque não, mas iria obrigar-me a pesquisar muito e a viajar para fora de Lisboa, e não tenho tempo. A presença dos ingleses em Portugal já foi tema de conversa com a minha editora inglesa, designadamente o caso dos casamentos anglo-portugueses, mas falta-me tempo.

Uma das figuras que surgem muitas vezes neste livro é Salazar. Diz que "poderão procurar por ele por toda a Lisboa e nunca encontrarão qualquer menção". Achou estranho?
Acho estranho, mas também acho estranho ninguém saber dos restos mortais do marquês de Pombal, apesar de ter uma rotunda e uma estátua gigantes em Lisboa. É mais a forma como se trata as figuras de Estado do passado! Ainda falta que os portugueses digiram o que foi o século XX, obviamente não espero que haja uma estátua para Salazar, mas ignorá-lo deste modo parece que se está de propósito a olhar de lado. O que resulta no ridículo de Salazar ter sido considerado o português mais famoso num concurso da televisão ao mesmo tempo que se tenta ignorar o passado. É no que dá.

Não se deve ignorar Salazar?
Sim, porque quando vemos a impressão digital de Lisboa, a dele está muito presente - através de Duarte Pacheco, por exemplo. É mentira dizer que Salazar está ausente.

Conseguiu percebe porque são os portugueses assim em relação a Salazar?
Gostaria muito mais ainda não o consegui. Pode-se comparar essa situação com a dos alemães com Hitler, dos italianos com Mussolini, por exemplo. Mas Salazar não matou milhares de pessoas; era um ditador e as pessoas têm vergonha de ter tido um ditador e questionam-se porque não se fez mais para o expulsar. No entanto, nunca encontrei uma explicação que me convencesse sobre a relação entre os portugueses e Salazar. Salazar foi posto numa caixa no sótão. Porquê? Deveria explicar-se quem ele era e até poderia ser benéfico para o país.

Fala da "operação secreta" de Fernão de Magalhães. Essa disputa ibérica sobre a nacionalidade da viagem é uma polémica bem atual...
É verdade, mas acho que seria melhor que os dois países se juntassem para descobrir a contribuição da cada um para a viagem em vez do choque ibérico a que assistimos.

Evitou o final feliz ao dizer sobre a capital portuguesa que "após sete séculos, o país continua a ser macrocéfalo" e dependente de Lisboa. Não há volta a dar?
Falo da Expo'98, que é uma espécie de final feliz, se bem que passageira e oficial. Quanto à cultura portuguesa, ela permanece como nos tempos de Eça de Queirós! Creio que Rainha do Mar mostra bem a escolha que os portugueses fizeram ao longo dos tempos, ou teriam mudado a sua história.


Rainha do Mar
Barry Hatton
Editora Clube do Autor, 312 páginas

Exclusivos