O que Anthony Bourdain disse na sua última entrevista

Conselhos para viajantes, a pior coisa que a namorada Asia Argento lhe disse, a morte (imaginada) de Weinstein ou uma feroz crítica ao casal Clinton pelo chef que morreu há cerca de um mês e meio. São estes alguns dos temas abordados na última entrevista do chef

É a última entrevista de Anthony Bourdain que se conhece. Foi feita em fevereiro no Coliseum, um bar em Nova Iorque de que o chef Anthony Bourdain, que se suicidou a 8 de junho, aos 61 anos, gostava muito.

Maria Bustillos, da revista Popula , que publicou a transcrição das mais de duas horas de entrevista neste domingo, conduziu a vasta conversa que atravessou a política americana, o trabalho do chef e estrela televisiva de No Reservations ou Parts Unknown, o movimento #MeToo, as drogas, ou o valor que Bourdain atribuía às coisas materiais.

Asia Argento A namorada de Bourdain, atriz e uma das faces mais proeminentes do movimento #MeToo, alegadamente violada por Harvey Weinstein, foi referida várias vezes ao longo da entrevista. Numa delas o chef recordou a pior coisa que ela lhe disse, e que aconteceu numa troca de mensagens entre os dois: "Tu queres ganhar sempre!" "Fiquei tão magoado com isto. Eu não preciso de vencer. Não sou uma pessoa competitiva. Preciso de sobreviver."

Harvey Weinstein Bourdain admitiu imaginar a morte de Weinstein. A cena é a seguinte: "Ele está vestido no seu famoso roupão de banho aberto" quando, "de repente, tem o raio de um ataque cardíaco fatal", e, num último momento de consciência, "percorre a sua lista de contactos tentando perceber a quem pode ligar, quem de facto lhe atenderá o telefone".

Sobre os Clinton Bourdain não poupou as críticas a Bill e Hillary Clinton. "Nojenta" foi a palavra que usou para descrever "a forma como ele e ela destruíram estas mulheres e a forma como toda a gente continua e ainda continua cega para isto!" O chef referia-se ao caso de Monica Lewinsky e das mulheres que acusam Bill Clinton de assédio e abuso sexual. "Foi monstruoso", disse sobre o caso.

E mesmo afirmando que nunca votaria em Bill Clinton, para a estrela televisiva o ex-presidente não deveria ser destituído pelo sucedido.

Bourdain condenou também a forma como Hillary Clinton se comportou em relação ao caso Weinstein, um dos seus grandes financiadores, como de resto de vários democratas, incluindo Obama, face às acusações de abuso e assédio sexual por parte do poderoso produtor de Hollywood, que acabariam por dar forma ao movimento #MeToo. Para o chef, a reação de Hillary veio já atrasada, uma vez que as histórias sobre Weinstein "circulavam há anos".

A bondade e a falta de paixão de Obama "Acredito que nunca vais ver um ser humano melhor na Casa Branca", afirmou, mesmo admitindo que o antecessor de Trump pode não ter sido "o melhor presidente" da história do país, que ele era "muito pouco convincente em público", e que sempre quis ver nele "um pouco mais de paixão". Bourdain jantou e gravou um episódio com Barack Obama no Vietname.

Os apoiantes de Trump "Eu falei com eles [os apoiantes de Trump]! Disse-lhes: vocês sabem que este tipo não quer saber de vocês, não sabem?"

Sobre Bernie Sanders "Teria sido um opositor de sonho para Trump. Nós vivemos numa sociedade profundamente racista. Odiamos intelectuais, judeus."

Conselhos para viajantes "Gosto da ideia de inspirar ou encorajar pessoas para arranjarem um passaporte e partirem para as suas próprias aventuras", afirmou Bourdain, que prefere este tipo de viajantes àqueles que se limitam a seguir o itinerário percorrido por alguém como ele próprio.

"Prefiro pessoas que aparecem em Paris e encontram o seu caminho sem um itinerário específico, que estão abertas às coisas que acontecem. Aos erros. Aos erros, porque essa é a parte mais importante da viagem. As tretas que não planeamos, ser capaz de adaptar e receber essa informação de forma útil em vez de dizer algo como: 'Oh raios, já não há bilhetes para o Vaticano'."

A forma como conversava com as pessoas no seu trabalho "Estou lá para comer, e ponho perguntas muito simples. O que o faz feliz? O que gosta de comer, onde vai para beber alguma coisa, sabes? De que tens saudades quando estás longe? E descubro uma e outra vez que, apenas passando tempo [com as pessoas], pondo questões muito simples, elas têm-me dito as coisas mais extraordinárias. Muitas vezes, coisas que seriam muito desconfortáveis para elas dizerem fora de um contexto casual, coisas que tivemos de tirar do programa."

Bourdain conta ainda que, a certa altura, percebeu que usava um método de interrogatório policial "para desarmar" quem está do outro lado, que consiste em "contar coisas sobre mim que possam ser dolorosas ou embaraçosas", para então "levá-los a um ponto em que se sintam à vontade para dizer alguma coisa. Ou então ponho uma série de perguntas realmente estúpidas, na esperança de que me deem uma resposta inteligente".

As drogas "Posso fumar erva em casa quando já não preciso do meu cérebro", disse o chef, que achava esquisito que as pessoas em Inglaterra ainda consumissem cocaína. "De repente toda a gente está pedrada com cocaína, o que é isto? 1986?! Quero dizer, quem é que ainda usa cocaína? Que raio?!"

Sobre o trabalho. Alguma vez parava? "Não."

"Entretinha-me com a ideia de que trabalhava com um objetivo, com um fim, com o facto de um dia poder deitar-me numa rede, numa colina na Toscana, com uma grande pilha de livros. Hoje compreendo que não conseguiria... Consigo fazê-lo por pequenos períodos de tempo. Mas [definitivamente] não consigo."

O valor das coisas materiais A casa perfeita não faria dele um homem feliz, mas alguém "triste e aterrorizado". Bourdain contou que era "por natureza alguém que aluga, gosto de sentir a liberdade de mudar de ideias acerca do sítio onde quero estar daqui a seis meses ou um ano". "Se tiveres uma casa tens de ir de férias para o mesmo sítio todos os anos", salientou ainda.

Nunca aceitar cooperação de entidades oficiais em trabalho "O erro fatal [no trabalho] é aceitar cooperação de quaisquer entidades oficiais, de turismo ou governamentais... Tentamos mesmo evitar isso", disse, acerca dos programas que filmou por todo o mundo e dando o exemplo de um episódio gravado na Roménia, que descreveu como "uma comédia do género Borat, porque mostrámos cada pedaço de artificialidade e manipulação".

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