O Predador mostrou as garras cómicas em Toronto

Os primeiros dias do Festival de Toronto deram-nos guerra de aliens, piruetas narrativas de Camilo Castelo Branco e um épico da Netflix para rivalizar com Braveheart. Esta rampa de pré-Óscares começou dia 6 e dura até ao próximo fim-de-semana

Arranque fortíssimo do TIFF- Toronto International Film Festival, o festival que vai marcar a próxima temporada dos prémios. Depois de em Veneza se ter percecionado o alcance global de certos filmes, Toronto marcará o destino de obras como O Primeiro Homem, de Damien Chazelle, Assim nasce Uma Estrela, de Bradley Cooper, Roma, de Alfonso Cuáron, entre outros, enquanto um punhado de estreias mundiais ajuda a propagar o tal aroma a Óscares. Nesse capítulo, Beautiful Boy, de Feliz Van Groenigen, Boy Erased, de Joel Edgerton e Destroyer, de Karin Kusama, apresentam-se como principais candidatos.

Tudo isto num festival que continua a misturar de forma séria mas também descomprometida uma ideia de glamour com o mais profundo respeito na fé cinéfila (o TIFF tem secções fortes de cinema experimental, do mundo, descobertas e de curtas-metragens).

Dos primeiros dias, destaque para O Predador, de Shane Black, mostrado em rigorosa antestreia mundial na secção Midnight Madness, onde se mistura cinema de transgressão com "sci-fi", comédia e terror. Esta nova aposta da Fox, com Olivia Munn e Sterling K. Brown, impressionou pela marca autoral de Black, responsável pelo argumento de Predador, o primeiro filme da série, estreado em 1987.

Trata-se de um divertimento de grande qualidade de série B. Qualidade e série B nas mãos do cineasta de Kiss Kiss Bang é tudo menos um contra-senso, sobretudo porque Shane Black tem ideias insanas - cruza géneros, faz piruetas narrativas e tem sempre diálogos com uma loucura saudável. A história anda à volta de uma luta entre dois tipos de Predadores. Pelo meio, há uma criança com Asperger, um gangue de militares com problemas mentais e uma cientista sexy que se baba a dormir. Esta espécie de "reboot" de Predador vai ser um "blockbuster" de todo o tamanho e Shane Black mostra todas as garras de mestre de entretenimento do fantástico.

Surpresa muito agradável foi também O Caderno Negro, de Valeria Sarmiento, produção de Paulo Branco a partir de um argumento de Carlos Saboga que adapta O Livro Negro do Padre Dinis, uma prequela de Mistérios de Lisboa. Ao contrário de As Linhas de Wellington, a cineasta chilena não abusa do academismo e compõe um filme equilibrado entre o prazer de contar uma história cheio de histórias lá dentro.

Comandado por uma interpretação de grande entrega da estrela francesa Lou de Laâge, O Caderno Negro (inteiramente filmado em Portugal) é uma masterclasse de como tratar o conceito do folhetim em cinema. Além do mais, tem uma fluência narrativa sólida e um gesto de inocência que não deixa ninguém indiferente. A estreia europeia é já no Festival de San Sebastian, onde concorre para a Concha de Ouro.

A Netflix é também uma das protagonistas do festival num ano em que se suspeita que o gigante do streaming quer chegar aos prémios de cinema. A abertura do festival teve o seu carimbo com a estreia de Outlaw King, da David McKenzie, a história de Robert The Bruce, rei escocês que lutou contra o império inglês e conseguiu a independência escocesa no século XIV. Um épico filmado com bravura pelo realizador escocês de Hell or High Water- Custe o que Custar. Tem batalhas com centenas de figurantes, explosões e um realismo visceral que torna Braveheart- O Desafio do Guerreiro, de Mel Gibson, uma brincadeira de crianças.

Outlaw King é a prova de que a Netflix está a produzir cinema a uma escala de grande ecrã. Aliás, este é verdadeiramente um filme para se ver no grande ecrã. Para já, não se sabe ainda se poderá ser mostrado nos cinemas. Mesmo com todos os seus defeitos (o sangue digital e o abuso dos planos de drones cansam imenso...), não deixa de ser um acontecimento.

Pelos corredores do festival, descobriu-se que a organização não permite entrevistas à próxima diretora do festival, Joana Vicente, produtora de cinema que vai comandar os destinos do TIIF já na próxima edição. Segundo o DN apurou, Joana só poderá ter "media" (expressão dos publicistas do festival...) a partir de Novembro.
Acesso também vedado à imprensa portuguesa para Nicole Kidman, porventura a grande figura do festival. A atriz está em Destroyer, de Karim Kusama e em Boy Erased, onde contracena com Russell Crowe. É o nome mais falado para nomeação certa para os Óscares, provavelmente em Destroyer, onde interpreta sem maquilhagem uma detective infiltrada. Julia Roberts, por exemplo, é bem mais acessível e já tem combinada uma entrevista com o DN....

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