O experimentalismo do cinema português

Dois filmes portugueses arriscam desafiar convenções e lugares-comuns: "Mariphasa" e "O Espectador Espantado" chegam esta semana às salas escuras

Experimentalismo? A palavra, por vezes, suscita algumas suspeitas. E com razão, convenhamos. Nos tempos que correm, sob a evidência (e a ostentação) do experimental esconde-se, não poucas vezes, um vazio de ideias e um formalismo sem destino.

Dois filmes portugueses que, esta semana, chegam às salas escuras justificam o adjetivo experimental. São eles: Mariphasa, de Sandro Aguilar, e O Espectador Espantado, de Edgar Pêra. Provavelmente, ambos suscitam uma dúvida metódica: será que as suas opções experimentais cumpriram totalmente os seus desígnios? Seja como for, importa destacar o mais significativo. A saber: Aguilar e Pêra são cineastas que valorizam o risco estético, nessa medida praticando a arte salutar de desafiar os hábitos e crenças dos próprios espetadores.

No caso de Mariphasa, o título alude a uma planta do Tibete que possuiria míticos poderes curativos. Em todo o caso, trata-se de uma referência puramente metafórica. Isto porque a ação decorre numa zona industrial desativada (aparentemente na Grande Lisboa) em que se cruzam algumas personagens marcadas por uma deriva que tem tanto de físico como de emocional. É pena que o filme não trabalhe mais na definição dessas personagens, já que a ausência de detalhes sobre as suas histórias particulares empobrece a nossa relação com as suas ações. Seja como for, este é um objeto de cinema apostado em valorizar as imagens (e sons!) como elementos de um ambiente realista em que, instante a instante, pressentimos a iminência de alguma tragédia.

O Espectador Espantado foi revelado há cerca de dois anos e meio no Festival de Roterdão. Tal como outras experiências do seu realizador, é um filme que se oferece como um documentário para se transfigurar num ensaio surreal sobre o seu tema central. Deparamos, assim, com uma série de depoimentos de pessoas ligadas ao cinema (da produção à escrita), comentando esse "espanto" que faz do cinema uma arte de reprodução, e também de delírio, da realidade à nossa volta. O que é isso de ficarmos maravilhados perante a projeção de um filme? Será que a nova idade digital nos está a fazer perder o gosto de olhar para um ecrã de cinema? Talvez faltem respostas concisas, mas há que reconhecer que O Espectador Espantado não é uma tese, antes uma deambulação em torno do prazer, exuberante ou secreto, da nossa relação com os filmes.

Da presença simultânea destes dois títulos no mercado fica uma certeza: há um cinema português que, com resultados mais ou menos conseguidos, se demarca das convenções e lugares-comuns das telenovelas. Hoje, mais do que nunca, esse é um fundamental valor artístico. E também uma forma criativa de entender o espetador.

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