No Tremor os Açores são cabeça-de-cartaz

São Miguel recebeu mais uma edição deste festival que, durante cinco dias, transformou a ilha num imenso palco, com concertos, performances, conversas e exposições um pouco por todo o lado.

Era uma chuva daquelas fortes e cerradas, que ensoparam até aos ossos, mesmo quem se precaveu com capas de plástico e calças impermeáveis. Mas nem isso demoveu aquela pequena multidão, de quase uma centena de pessoas, de percorrer em silêncio, sem tirar fotos à paisagem ou sequer selfies, o percurso pedestre desde a pequena localidade da Ribeira Quente e a Ponta do Garajau. Num festival como o Tremor, em que a música mais não é que um ponto de partida para partir à descoberta, literal e metaforicamente, de todo um território geográfico, artístico e também social, a iniciativa, Tremor Todo-o-Terreno é sempre um dos momentos altos do programa.

Nela se propõe ao público fazer uma caminhada, ao som de uma composição musical, ouvida de forma individual nos fones de cada um, desenvolvida em residência na ilha de São Miguel por um artista convidado. Este ano, a tarefa coube à artista britânica Natalie Sharp, que no final continuou ao vivo a banda sonora antes ouvida individualmente, num misto de concerto e performance inspirada numa hipotética viagem ao paraíso, com algum pecado carnal à mistura - com certeza totalmente expiado pela copiosa tempestade.

Noutro ponto da ilha, o mau tempo obrigou mesmo a alterar por completo o programa desse dia do Tremor na Estufa, os concertos surpresa cuja localização e artistas apenas são revelados momentos antes de acontecerem. O espetáculo dos Yin Yin acabaria por ter de se realizar no antigo casino das Furnas e não no Parque Terra Nostra, onde, a exemplo de anos anteriores, o público assistiria ao concerto dentro do tanque de água termal. Mesmo assim, o grupo holandês fez a festa, com a sua mistura de funk, eletrónica e rock psicadélico, provando que no Tremor nada se perde e tudo se transforma em algo de bom.

Já na sexta edição, o festival que nasceu em 2014, com o objetivo de "dar vida ao centro de Ponta Delgada", cresceu bastante e não só se alarga a toda a ilha, como se tornou numa referência, colocando São Miguel no mapa dos festivais europeus dedicados ao microcosmos das franjas da música e cultura mais alternativas. Desde há muito que os bilhetes estavam esgotados. Um feito, mesmo tendo em conta a lotação do festival, um pouco inferior a duas mil pessoas, que faz Luís Banrezes, um dos elementos do triunvirato da organização, em conjunto com António Pedro Lopes e a editora e promotora Lovers & Lollypops, a falar ao DN de "algumas dores de crescimento", para corrigir em futuras edições.

De facto foram muitas as filas à porta das diferentes salas, como aconteceu na quinta-feira, à entrada do Ateneu Comercial de Ponta Delgada, onde nessa noite tocaram os Pop Dell" Arte, atraindo muito mais gente que o holandês Jacco Gardner, que mais ou menos à mesma hora atuava no Teatro Micaelense. Já antes, pela tarde, se percebia que este seria um Tremor assim, de multidões, com a enchente de carros e pessoas que se deslocaram à recôndita zona da Ribeira dos Caldeirões, um parque florestal situado junto a uma sucessão de açudes e cascatas, que serviu de contrastante cenário à temática urbano-romântica de David Bruno, o alter-ego inspirado em Marante de DB, um dos membros do Conjunto Corona.

Na sexta-feira e a exemplo do que já tinha acontecido no ano anterior, estava prevista uma incursão do Tremor à vizinha ilha de Santa Maria, onde estavam previstos dois concertos (dos The Sunflowers e de Natalie Sharp) e diversas atividades, incluindo um almoço com pratos regionais em local surpresa. O mau tempo, porém, neste caso o nevoeiro, acabou por novamente trocar as voltas à organização e a comitiva de várias dezenas de pessoas acabou por ficar em terra. Mas lá está, no Tremor nada se perde e o que parecia uma oportunidade perdida permitiu a quem não foi assistir a um dos momentos mais altos da edição deste ano, que aconteceu em Rabo de Peixe, presença na Casa do Espírito Santo - Irmandade da Beneficência, onde o duo catalão Za! Apresentou um espetáculo criado em conjunto com as Despensas de Rabo de Peixe, os grupos tradicionais compostos por 15 dançarinos e cinco músicos - os primeiros bailam e tocam castanholas, ao som das violas e acordeões dos segundos.

Começou na rua, com as Despensas a convidarem o público a entrar na dança e continuou depois no interior, com as modas tradicionais açorianas, como o inevitável Pezinho da Vila, a serem transformadas numa espécie de música para rave, por todos cantada e dançada, público, músicos e habitantes locais. Esta ligação do festival à comunidade é um dos pontos de honra do Tremor, que todos os anos convida diversos artistas para fazerem residências artísticas na ilha e com quem é de lá - o espetáculo de abertura do festival, no Teatro Micaelense, reuniu, por exemplo o coletivo Ondamarela com a Escola de Música de Rabo de Peixe e a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel.

Na noite de sexta e a exemplo do ano anterior, o festival transferiu-se para a Ribeira grande, onde artistas como Lula Pena, Lieven Martens, Chupame El dedo, Lafawndah, Vive la Void ou Teto Preto, ocuparam locais como o Museu Vivo do Franciscanismo, o Centro Cultural Arquipélago, o Marcado Minucipal ou o Teatro Ribeira Grandense. Outros, simplesmente, iam ficando pelos cafés da vila, como a Casa de Pasto Manuel Flor, onde um dia também comeu Anthony Bourdain, que neste dia esgotou todo o stock de alimentos, acabando os comensais a partilharem o pão de mesa em mesa. "O melhor festival de sempre", comentava, a este propósito, uma rapariga inglesa, enquanto jantava um prato de batatas fritas.

No último dia, o festival concentrou-se em Ponta Delgada, com uma sucessão de concertos nos mais diversos locais, que torna inglória a tentativa de selecionar o que quer que seja. Viu-se um pouco do espetáculo conjunto de açorianos entre o produtor e realizador Diogo Lima com o rapper LBC, no Solar da Graça, e salta-se a atuação do americano de origem açoriana Trans Vans Santos na Londrina, para ainda tentar chegar a tempo de apanhar o início do concerto da americana Haley Heynderickx, na Igreja do Colégio, já completamente a abarrotar.

O folk na melhor tradição americana da cantautora de Portland foi outro dos grandes momentos do Tremor deste ano e nem a própria estava à espera de tal receção. "Estou habituada a tocar em bares malcheirosos, com gente a tentar engatar-se e agora aqui estou, perante Deus, com uma multidão em silêncio à minha frente", afirmou a cantora, visivelmente comovida, apontando para o altar em estilo barroco, onde um dia também pregou o Padre António Vieira. "Adoro o modo como vocês se cumprimentam, com beijos e abraços, sempre a tocarem-se muito. Isso diz muito sobre um povo e o seu nível de felicidade", disse a seguir, provocando sorrisos na plateia.

Bem diferente, no entanto, era o ambiente no Ateneu Comercial, com as descargas de eletricidade punk-rock dos The Sunflowers a atraírem também muita gente. No teatro Micaelense, eram a mescla entre jazz e ritmos africanos do etíope Hailu Mergia que embalava os corpos. Tal como aconteceria um pouco mais tarde, mas ainda com mais dança e energia, durante o concerto do Conjunto Bulimundo, uma das maiores instituições da música cabo-verdiana, que incendiou por completo o Coliseu Micaelense, onde em seguida atuariam também os americanos Moon Duo. Depois veio o concerto da noite e talvez aquele que melhor resume o espirito de Tremor: de descoberta, surpresa, partilha e comunhão. Aconteceu na Antiga Garagem Varela e esteve novamente a cargo dos Za!, que retribuíram convidando para o palco, situado no centro da velha oficina, alguns tocadores de castanholas das despe3nsas, para com eles tocarem uma demolidora versão de Smack My Bitch Up, dos The Prodigy.

Na manhã seguinte, no aeroporto, eram visíveis as marcas da noite anterior. Bocejos, olhos fechados, tapados por óculos escuros, pés arrastados... Por lá andava também Haley Heynderickx, a caminho de uma digressão pela Irlanda, que antes de entrar no avião nos confessou "uma sensação estranha", na hora de partir. "Só cá estive três dias, mas sinto-me como se tivesse apaixonado por alguém e agora me obrigassem a separar dessa pessoa. Já só penso em voltar". É assim, o Tremor.

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