Nico para além do mito de Nico

Estreia. Nico foi a musa dos Velvet Underground, mas a sua vida e obra não cabem nesse rótulo: "Nico, 1988" é um filme capaz de nos devolver as muitas faces de uma personagem fascinante.

Como contar a história de Nico, a musa dos Velvet Underground? Provavelmente, esquecendo os Velvet Underground... É essa, pelo menos, a lógica, de uma só vez informativa e simbólica, que encontramos em Nico, 1988, o belo filme realizado pela italiana Susanna Nicchiarelli sobre uma mulher que lutou até ao fim para não ser reduzida a um rótulo de "acompanhante" da banda de Lou Reed e John Cale.

Enfim, não simplifiquemos. Claro que Nico é uma presença determinante no registo de estreia da banda, para mais intitulado The Velvet Underground & Nico (com a lendária capa da banana desenhada por Andy Warhol): estava-se em 1967 e, com a sua mistura de metódico experimentalismo e poesia agreste, o álbum surgiu como uma espécie de clássico instantâneo, influenciando de forma decisiva os caminhos da música popular (mesmo se, no seu lançamento, foi um falhanço comercial). O certo é que Nico rapidamente iniciou uma carreira a solo, lançando, ainda em 1967, o mítico Chelsea Girl.

Descobrimo-la num labirinto emocional: por um lado, tentando superar a dependência da heroína; por outro lado, numa demanda angustiada para restabelecer relações com o seu filho

A figura encenada por Nicchiarelli é alguém que, muito rapidamente, reconhecemos tocada por um assombramento trágico, mesmo que possamos não conhecer os seus detalhes biográficos. O título Nico, 1988 alude, aliás, ao ano do falecimento de Nico (a 18 de Julho, contava apenas 49 anos).

Dois elementos são fundamentais na apresentação da personagem. Em primeiro lugar, a breve introdução dos tempos de infância em que Nico vê, no horizonte distante, o clarão de Berlim a arder nos dias finais da Segunda Guerra Mundial; depois, a insistência em ser tratada, não como Nico, mas pelo seu verdadeiro nome: Christa (nascida na cidade de Colónia, a 16 de Outubro de 1938). Dir-se-ia um duplo desafio existencial: não rasurar as suas origens e reencontrar a verdade da sua identidade.

Descobrimo-la, assim, num labirinto emocional: por um lado, tentando superar a dependência da heroína; por outro lado, numa demanda angustiada para restabelecer relações com o seu filho. Isto sem esquecer algumas dramáticas performances de palco (como a que ocorreu em 1987 na Checoslováquia), afinal reveladoras de uma artista que, mesmo nos seus momentos de maior fragilidade, nunca abdicou da singularidade emocional das suas canções.

Centrado numa magnífica interpretação da dinamarquesa Trine Dyrholm - a sua Nico combina a máxima energia com a mais comovente vulnerabilidade -, este é um daqueles pequenos grandes filmes que corre o risco de passar despercebido num mercado de Verão dominado por outro tipo de produções (e promoções). Esperemos que os espectadores estejam atentos.

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