Nem a maçonaria na Madeira escapa ao primeiro romance de Alberto João Jardim

O ex-dono de toda a Madeira deixou-se de memórias e passou à ficção. Mesmo que o romance de Alberto João Jardim, diz "Não!", seja em muito um voltar ao passado e sempre com a sua vivência histórica em pano de fundo.

A porta aberta que está na capa do romance de estreia de Alberto João Jardim fala diretamente para a ação de um grupo de jovens madeirenses que vê a sua vida voltada do avesso com a Revolução de Abril e a obrigação do ativismo político. O primeiro romance do ex-Presidente do Governo Regional da Madeira, diz "Não!", já chegou às livrarias e é uma narrativa inesperada para quem faz parte da História e agora quer contar histórias.

Começa em tom de thriller, com uma reunião no Foreign Office em Londres no início dos anos 70, em que se discute a presença inglesa na Madeira em caso de uma mudança política em Portugal. Segue-se uma descrição dos vários personagens que vão entrar em cena. A partir daí, é impossível ao leitor não estar à procura de encontrar a presença do autor na narrativa.

Ler diz "Não!" exige que se esqueça a 'anterior profissão' do autor e que se goste de intriga política. É disso que o livro é feito e ninguém melhor que João Jardim para relatar os picantes, as traições, as fake news e os eventos da atividade política nacional das últimas décadas.

João Jardim usa a técnica de pequenos capítulos para introduzir inúmeros temas, destacando o poder da maçonaria na ilha desde o início da ditadura a 28 de Maio de 1926, que é dissecado em mais páginas do que outros temas no resto do livro, justifica a criação de um partido que defenda os interesses regionais, refere os partidos criados ou com vida prolongada pela democracia, enumera os desvios históricos que o regime constitucional iniciado em 1976 provoca na região, faz previsões para 2019 e mais à frente, tem uma fixação no sindicalismo...

A voz do autor está bem presente a nível político, basta ler certas frases: "O PSD estava manietado pela incompetência e a infiltração internas", "a comunicação social afeta desdobrava-se em quotidianos orgasmos" ou "Tudo era o que Lisboa queria e decidia". Mesmo que logo a seguir a ficção regresse em força com o personagem Teddy Rotter afastado em Londres, com Carlos e Joana a criticarem o seu papel de pais, a beleza de Carmelinda nos seus passos de "marcialidade estética".

No final, em várias páginas, está um dicionário de "palavras do linguajar madeirense" para facilitar a leitura. Mas antes de se lá chegar, João Jardim não deixa de dourar a pílula da sua primeira experiência literária com uma última frase romântica: "Nessa noite fizeram amor pela primeira vez".

diz "Não!"

Alberto João Jardim

Editora Casa das Letras

418 páginas

O livro é apresentado esta sexta-feira no Museu da Imprensa da Madeira, em Câmara de Lobos, pelas 17.00

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