"Não houve qualquer censura", garante administração de Serralves

Ana Pinho, presidente do Conselho de Administração da Fundação, garante que não aceita acusações de interferência e que as decisões tomadas na exposição Robert Mapplethorpe: Pictures devem ser atribuídas ao curador e diretor demissionário João Ribas

"Em Serralves não há, nem nunca houve, nem nunca sobre nossa responsabilidade haverá censura", afirmou nesta quarta-feira Ana Pinho.

A presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves falou pela primeira vez sobre a polémica em torno da exposição Robert Mapplethorpe: Pictures, que envolve uma zona interdita a menores de 18 anos a menos que acompanhados por um adulto, e apresenta menos 20 obras do que as inicialmente previstas para a mostra, sem que esta exclusão tivesse sido anteriormente explicada pela administração da fundação ou pelo diretor artístico demissionário e curador da exposição, João Ribas.

A administração de Serralves contradisse hoje o curador, que dissera ao jornal Público antes da inauguração que não haveria salas ou obras reservadas, deixando subentendido que esta decisão fora posteriormente imposta pela administração. "Foi o próprio diretor do museu recomendou que a exposição tivesse um núcleo mais reservado no final do percurso expositivo, dedicado às obras mais sensíveis, e nós concordámos", afirmou, pelo contrário, Ana Pinho nesta quarta-feira.

Em relação às 20 obras que faltam, entre as 179 inicialmente anunciadas para a mostra, a presidente do conselho de administração foi contundente, atribuindo de novo a responsabilidade para o diretor demissionário: "O conselho de administração não mandou retirar quaisquer obras." Ana Pinho afirmou que a retirada foi uma "decisão exclusiva de João Ribas".

Para se demarcar da retirada de 20 fotografias desta exposição antológica de Mapplethorpe, a qual disse até "estranhar", a administração deu ainda aos jornalistas a lista completa dessas obras, para mostrar que há, de facto, algumas de caráter sexual explícito, mas outras apenas mostrando crianças, como Sam and Max Sullivan (1981) ou uma folha, como Leaf (1987). "As 20 obras não expostas por iniciativa do curador não justificam qualquer situação de censura", sublinhou Ana Pinho, na nota informativa que leu no início da conferência.

Em relação à sinalética na zona reservada da exposição, onde inicialmente se lia "A admissão nesta sala está reservada a maiores de 18 anos", aviso depois substituído por "A admissão de menores de 18 anos está condicionada à companhia de um adulto", a presidente do conselho de administração explicou que o aviso inicial "foi feito por similitude com a legislação sobre espetáculos". E acrescentou: "Porém, constatado o vazio legal sobre a matéria ["as exposições de arte carecem de classificação etária" esclareceu já a Inspeção-Geral das Atividades Culturais; ao contrário do que acontece com cinema, teatro, dança, circo ou tauromaquia] foi substituído por outro mais adequado".

Ana Pinho admitiu, sim, que a decisão sobre o teor dos avisos colocados foi da responsabilidade do Conselho de Administração. "Pedimos aos serviços da Fundação para colocarem o aviso legal adequado. Isso foi responsabilidade do Conselho de Administração", anuiu, lembrando, porém, que foi "proposta do diretor que houvesse uma sala restrita com aviso sobre a natureza das obras".

"Não podíamos correr o risco de ter pais a processar Serralves"

A acompanhar Ana Pinho nesta conferência de imprensa estiveram os vice-presidentes Isabel Pires de Lima, Manuel Cavaleiro Brandão e Manuel Ferreira da Silva, além de José Pacheco Pereira, que também integra o conselho de administração: "Não há censura nenhuma. Está lá tudo", sublinhou o historiador, dizendo-se particularmente sensível à questão da censura, por ter lidado e sofrido com ela antes do 25 de abril. E referiu-se à atual polémica como uma "pseudodiscussão sobre censura que não existe".

Pacheco Pereira acrescentou ainda que numa instituição por onde passam "milhares de crianças", "não podemos correr o risco de pais processarem Serralves, como já aconteceu noutros sítios" por verem os seus filhos expostos a determinadas imagens potencialmente chocantes sem aviso prévio.

"Eu tenho uma formação diferente e uma vida diferente da que tem a Ana Pinho, mas quero que isto fique escrito: nunca vi ninguém num conselho de administração que trabalhe pro bono a defender melhor os interesses de Serralves do que a Ana. O que adquirimos no ano anterior e vamos adquirir coloca-nos num upgrade em relação à situação atual", considerou Pacheco Pereira, defendendo a presidente do conselho de administração.

"Foi atacada porque não vem do mundo artístico", afirmou o historiador que apontou "a inveja" de Serralves como um dos motivos que justificaram a criação da polémica em torno da exposição.

Isabel Pires de Lima, antiga ministra da Cultura, frisou que a prática seguida em Serralves em relação à exposição de Mapplethorpe "foi a seguida por vários outros museus internacionais" e, repetiu, "proposta pelo próprio diretor do museu". "Há vários museus que optam por apresentar todas as obras, colocando as mais sensíveis num espaço reservado e com os devidos avisos, e há outros que apresentam a exposição mais aberta, mas sem as obras mais sensíveis".

Críticas à atuação de João Ribas

O conselho de administração da Fundação de Serralves atribui exclusivamente a João Ribas a responsabilidade por uma polémica que pode beliscar a reputação internacional do Museu. Ana Pinho confirmou que o diretor está demissionário, tendo dado conta da sua demissão num e-mail enviado na sexta-feira, dia 21 de setembro, um dia depois da inauguração da polémica exposição: "Enviou-me primeiro um SMS a dizer que ia enviar um e-mail a solicitar a demissão e que iria informar um jornal."

"O que não é normal no meio disto tudo é um curador apresentar a coleção, e receber os aplausos sobre ela, e nada dizer sobre as questões que levantaria no dia seguinte", criticou Pacheco Pereira. "Do ponto de vista formal, se o curador tinha objeções ao resultado final da exposição deveria ter manifestado isso antes de a apresentar", acrescentou. "Abandonou o barco sem qualquer explicação plausível", acusou o vice-presidente Manuel Cavaleiro Brandão.

Ana Pinho anunciou que será em breve anunciado um processo "transparente" de escolha de um novo diretor para o Museu de Serralves, escusando-se a detalhar o teor do e-mail enviado por João Ribas a pedir a demissão. "A partir de agora há uma série de questões jurídicas e legais a respeitar", argumentou.

Recorde-se que, depois de guiar a visita de imprensa e a pré-inauguração da exposição, o diretor artístico do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, João Ribas, apresentou na sexta-feira a sua demissão porque "já não tinha condições para continuar à frente da instituição", disse ao jornal Público.

O jornal escreveu no sábado que a demissão surgiu depois de a administração ter limitado a maiores de 18 anos uma parte da exposição dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, comissariada por Ribas, e ter imposto a retirada de algumas obras com conteúdo sexualmente explícito.

João Ribas demitiu-se não se voltou a pronunciar ainda sobre o caso nem a explicitar as razões que levaram à sua demissão. Na terça-feira, o grupo parlamentar do PS já apresentou um requerimento para que o diretor demissionário seja ouvido no Parlamento, tal como o Bloco de Esquerda já fizera.

O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, também já pediu a convocação urgente de uma reunião do Conselho de Fundadores, onde a autarquia tem assento. "Estamos totalmente disponíveis para prestar todos os esclarecimentos ao Conselho de Fundadores", respondeu esta quarta-feira Ana Pinho.

Joana Vasconcelos, nova polémica à vista?

Na conferência de imprensa desta quarta-feira a administração recusou-se a responder a quaisquer perguntas que fossem além do âmbito da exposição de Mapplethorpe, nomeadamente sobre o "mal-estar" que tem sido apontado na relação entre a presidente do conselho de administração e os trabalhadores de Serralves, ou sobre se a exposição de Joana Vasconcelos, atualmente patente do Guggenheim de Bilbao, I'm your mirror, está de facto programada para 2019, uma vez que Suzanne Cotter, ex-diretora do museu, já afirmou ao Público que não a programou.