"Não há ninguém no mundo da ópera que hoje não saiba que eu existo"

Luís Gomes, o português que venceu dois prémios no Operalia, concurso mundial de ópera criado e dirigido por Plácido Domingo, fala das portas que agora se abrem ao tenor que nunca foi "um rato de concursos"

O tenor português dormiu poucas horas. "Para adormecer foi complicado", admite Luís Gomes. A razão? "Muita adrenalina." Afinal, não é todos os dias que alguém recebe das mãos de Plácido Domingo dois prémios no Operalia. Na gala final do concurso mundial de ópera, que neste ano teve lugar em Lisboa, o português de 31 anos recebeu o Prémio Zarzuela (ex-aequo com Pavel Petrov) e o Prémio do Público.

Na plateia do Teatro Nacional São Carlos contavam-se neste domingo figuras determinantes para o futuro daqueles jovens cantores, alguns dos melhores do mundo, vindos de países tão distantes como a Rússia e os Estados Unidos, China, Alemanha, África do Sul, Brasil ou França.

No júri, presidido pelo próprio Plácido Domingo, embora sem voto, estavam Ilias Tzempetonidis, diretor da seleção de elencos da Opéra National de Paris, Peter Katona, que ocupa o mesmo cargo na britânica Royal Opera House, ou Jonathan Friend, administrador artístico da Metropolitan Opera de Nova Iorque, que haveriam de atribuir ao tenor Pavel Petrov, da Bielorrússia, e à meio-soprano italo-canadiana Emily d'Angelo (que também venceu o prémio para voz feminina em Zarzuela) o primeiro prémio no concurso de ópera.

"Além do júri, de nível internacional, além das pessoas que estavam na plateia, tínhamos o mundo da ópera todo a assistir, porque foi [transmitido] em direto na Medici.tv para o mundo inteiro. Portanto, não há ninguém no mundo da ópera que hoje não saiba que eu existo. E isso é um passo muito importante no desenvolver de uma carreira", afirma ao DN o tenor que começou por cantar na igreja de Sarilhos Grandes, Montijo, onde cresceu.

Luís Gomes repetira já algumas vezes ao longo da competição que "não esperava nada". E assim foi até à final. "Depois de cantar, o trabalho para mim estava feito e depois era esperar o que acontecesse. Não esperava mesmo nada, até porque eu nunca fui um rato de concursos. [Ao] Estar a participar pela primeira vez num grande concurso, chegar à final já era uma grande vitória para mim. Portanto, receber dois prémios foi ainda melhor."

Depois de atuar na semifinal, na quinta-feira, o tenor português, que já participou no Pograma Jette Parker para jovens na Royal Opera House e recentemente foi Alfredo em La Traviata, ali mesmo no São Carlos, dizia que a ópera é a sua vida, e que a decisão de participar também na categoria de zarzuela foi feita com o "coração". "Porque esta música toca-nos também. É muito próxima das nossas raízes e ainda por cima, sendo do Montijo, onde há muita cultura de banda filarmónica."

Quanto ao contacto com Plácido Domingo, que neste domingo dirigiu a Orquestra Sinfónica Portuguesa enquanto os 14 finalistas atuavam, Luís Gomes recorda o conselho mais importante que guarda do tenor (depois barítono) espanhol, e atual diretor-geral da Ópera de Los Angeles: "Escolher o reportório certo e cantar com alma, com o coração. E com a cabeça, mas o coração é muito importante."

O tenor português cantou Tombe degli avi miei, ária de Donizetti de Lucia di Lammermoor, e na categoria de zarzuela La roca fría del calvario, de La Dolorosa, escrita por José Serrano.

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Anselmo Borges

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