"Não conheço uma única mulher que queira ser famosa por ter sido abusada"

Efeito #MeToo deixou Feira do Livro de Frankfurt órfã do anúncio do Nobel da Literatura este ano. Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana a viver nos Estados Unidos, ícone do feminismo, foi a convidada de honra da maior feira do livro do mundo e colocou o dedo na ferida

Há 20 anos, já estava José Saramago pronto a embarcar no aeroporto de Frankfurt, quando soube que tinha ganho o Nobel da Literatura. Voltou para trás. E foi a festa na feira do livro desta cidade alemã.

A maior do mundo, a feira é realizada desde 1454, depois de Johannes Gutenberg ter desenvolvido a impressão de letras móveis em Mainz, perto de Frankfurt, dando início à Revolução da Imprensa.

Interrompida durante a II Guerra Mundial, regressou em 1949, ano em que o Nobel não foi anunciado porque o comité decidiu que nenhum dos nomeados cumpria os critérios.

Este ano, quase sete décadas depois, o Nobel da Literatura voltou a não ser entregue. E a Feira do Livro de Frankfurt ficou órfã do tão aguardado momento do anúncio do vencedor.

As razões são, porém, bem diferentes e estão relacionadas com uma crise profunda na Academia Sueca depois de vários dos seus membros se terem demitido na sequência de acusações de abusos sexuais contra Jean-Claude Arnault, marido de um dos seus membros, a poeta Katarina Frostenson.

As acusações foram reveladas pelo jornal sueco Dagens Nyheter, em novembro do ano passado, altura em que se estava no auge das denúncias de abusos no âmbito da campanha #MeToo.

No passado dia 1, quase um ano depois, Arnault foi condenado a dois anos e meio de prisão na Suécia. Oito dias depois começava a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, tendo a organização deixado claro desde o primeiro dia que não iria ignorar as ondas de choque do #MeToo.

E a convidada de honra foi Chimamanda Ngozi Adichie, ícone do feminismo da atualidade, nascida há 41 anos na Nigéria mas a viver há muito nos Estados Unidos.

A mulheres estão a falar

"Por todo o mundo, hoje em dia, as mulheres estão a falar, mas as suas histórias não estão a ser realmente escutadas", disse na conferência de imprensa de lançamento da feira, na terça-feira, na qual foi recebida com aplausos, assobios, como se de uma estrela de cinema se tratasse.

"É altura de pôr um fim à pergunta "o que querem as mulheres", pois é altura de todos saberem que as mulheres só querem simplesmente ser membros de pleno direito desta família humana", afirmou a escritora, editada em Portugal pela Dom Quixote, do grupo Leya.

Adichie, como explica no livro Querida Iljeawele (Como Educar para o Feminismo), considera que o feminismo não pressupõe a exclusão dos homens, pressupõe, isso sim, a igualdade de direitos. A nigeriana, autora de outros livros como Americanah e Todos Devemos ser Feministas, recusa ser classificada como ativista por considerar que ativistas são os que estão em países como a Nigéria, no terreno, a arriscar a vida por vezes para defender a igualdade e os direitos humanos.

Não ignorando a realidade do país para onde foi estudar aos 19 anos, os EUA, a escritora afirmou ainda na conferência de lançamento da feira que termina no domingo: "O mundo está a mudar. Não podemos continuar a reger-nos pelas velhas regras da complacência. O país mais poderoso do mundo mais parece, hoje em dia, um tribunal feudal repleto de intrigas. Temos que saber o que é verdade. Temos que dizer o que é verdade. Chegou a hora de ter coragem".

Ladeada pelo CEO da Feira do Livro de Frankfurt, Jürgen Boos, bem como pelo presidente da Associação de Editores e Livreiros Alemães, Heinrich Riethmüller, Adichie sublinhou: "Há um grande lapso no imaginário de muitas pessoas no mundo atual. Existe uma incapacidade de sentir empatia pelas mulheres porque as histórias das mulheres não são verdadeiramente familiares; as histórias das mulheres não são vistas como sendo universais. É por isso, eu acho, que vivemos num mundo em que muitas pessoas pensam que um elevado número de mulheres pode simplesmente acordar um dia e começar a inventar histórias sobre abusos. Eu sei que muitas mulheres querem ser famosas. Mas não conheço uma única mulher que queira ser famosa por ter sido abusada. Acreditar nisso é ter um pensamento muito baixo sobre as mulheres".

Uma WomenList influenciada pela vaga do #MeToo

Não haver anúncio de Nobel na sequência dos escândalos revelados à luz do #MeToo e a presença de Chimamanda Ngozi Adchie na Feira do Livro de Frankfurt é algo que envia uma mensagem. Tal como o facto de a HotList da edição deste ano, ser, na verdade, a WomenList. Essa é a opinião de Clémence Hedde, da Aliança Internacional de Editores Independentes, que em conjunto com o Kurt Wolf Stiftung (coletivo de editores independentes alemães) selecionou 37 obras desta lista (a língua portuguesa está representada pelo livro brasileiro Feminismo e Política: Uma Introdução).

"É uma mensagem. Podemos ver que as pessoas estão mais preparadas para ouvir, para ouvir o que as mulheres que lutam pelos seus direitos têm a dizer. Há feministas, académicas, há muito tempo, a falar sobre isto, nos media, mas agora...", diz ao DN a responsável da aliança com sede em Paris, sentada num dos stands do Pavilhão 4 da Messe Frankfurt. Neste espaço, em que a maior parte dos dias são reservados a profissionais do setor e só os últimos dois ao público em geral, estão este ano mais de sete mil expositores - entre os quais 49 portugueses - oriundos de 102 países.

"Na Aliança vimos que havia um tema muito importante para as editoras que era o feminismo e as lutas das mulheres. Então fizemos esta HotList como WomenList. É verdade que com o #Metoo há uma atenção especial do público para esta questão e pensámos que podia ser interessante ver o que os editores independentes de todo o mundo poderiam acrescentar a isso. Temos editoras feministas, mas também temos obras que mostram que o feminismo pode estar em tudo, até nos livros infantis. Queremos mostrar vários tipos de feminismo. O feminismo pode ter várias lutas".

Entre as obras selecionadas para a lista, Hedde destaca um romance, de uma autora camaronesa. "Temos este livro dos Camarões, a autora é Djaïli Amadou Amal, tem o título Munyal: les armes de la patience. Munyal significa Espera. É sobre três mulheres de idades diferentes que vivem numa família polígama. Mostra a violência que é este tipo de situação para as mulheres. O livro mostra que já não querem aceitar esta realidade. É ficção. É um discurso que não é comum numa mulher dos Camarões. É um discurso forte. Nós, leitores europeus, talvez não tenhamos ideia do que é esta realidade. A editora - Proximité - está a correr o risco de publicar este livro nos Camarões. Recentemente, seis editoras da África Ocidental e da África Central decidiram publicar, em conjunto, o livro. Em 2019, estará num coleção, na Guiné, Burkina Faso, toda a região".

Nobel da Literatura a dobrar em 2019?

No dia 5 a Academia Sueca, inativa desde o escândalo Arnault, anunciou a eleições de dois novos membros para substituir os que se demitiram e assim obter quórum: trata-se da poeta iraniana Jila Mossaed e do juiz sueco Eric Runesson.

Na véspera, no site do Nobel, o diretor executivo da Fundação Nobel, Lars Heikensten, condicionara a entrega do Nobel da Literatura, em 2019, a dobrar, à efetiva restauração da credibilidade da Academia Sueca que atribui o galardão.

"É importante para o Prémio Nobel que a Academia Sueca resolva os seus problemas rapidamente. Se o fizerem, de forma a restaurar a confiança, poderão continuar a atribuir o Prémio Nobel da Literatura", escreveu, no site, aquele responsável.

"A eleição de dois novos membros é positiva. Espero que a Academia Sueca consiga restaurar a confiança da instituição e possa continuar o seu trabalho", declarou, em comunicado, o Rei Carlos XVI Gustavo da Suécia. Patrono da instituição, em maio anunciou a alteração aos estatutos, de maneira a que os membros eleitos - de forma vitalícia - passassem a poder a ter o direito a renunciar e a ser substituídos por outras pessoas.

O escândalo rebentou quando, em novembro de 2017, o jornal sueco Dagens Nyheter publicou que pelo menos 18 mulheres acusaram Jean-Claude Arnault de abusos sexuais. Muitas disseram que os abusos por parte do fotógrafo francês, hoje com 72 anos, ocorreram no seu clube cultural - Fórum - ou em propriedades da Academia Sueca em cidades como Paris ou Estocolmo.

Em junho, Arnault foi acusado de violação, em duas ocasiões, da mesma mulher. A queixosa é uma escritora e académica que foi à policia depois de ler o artigo publicado naquele jornal. Na altura afirmou que não se queixou antes porque o francês era uma pessoa poderosa e amigo do seu chefe.

No passado dia 1, a justiça sueca condenou Arnault a dois anos de prisão por violação desta mulher, em dois atos distintos que remontam ao ano de 2011. O francês, através do seu advogado, indicou que vai recorrer da sentença e declarou-se vítima de "uma caça às bruxas".

Quando o escândalo rebentou, a Academia Sueca cortou relações com o artista e a mulher, tendo ordenado uma auditoria. Esta descobriu que a mulher de Arnault, Katarina Frostenson, era coproprietária do clube cultural Fórum e que este recebia apoio financeiro da Academia. Algo que violava as regras estritas de imparcialidade da instituição.

O mesmo relatório revelou que também o dever de confidencialidade sobre o vencedor do Nobel da Literatura foi violada em diversas ocasiões.

Enquanto a Academia Sueca recupera do escândalo e tenta reconstruir a sua imagem, outras iniciativas surgem para anunciar um Nobel da Literatura alternativo este ano. Assim, a Nova Academia - uma academia substituta - anunciará esta sexta-feira o vencedor do Prémio da Literatura da Nova Academia. O resultado deriva de uma votação pública na Internet. E após o anúncio do laureado a academia alternativa extinguir-se-á de forma imediata.

*A jornalista viajou a convite do Goethe Institut

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