Nada mudou com a fotografia da criança morta na praia da Turquia

É o quarto romance de Philippe Claudel traduzido em Portugal. O Arquipélago do Cão trata da tragédia dos refugiados que fogem do norte de África para a Europa.

A primeira grande imagem do mais recente romance do cineasta e escritor francês Philippe Claudel é a de três corpos que vão dar à praia de uma ilha. Alguns habitantes da ilha apercebem-se mas os interesses económicos fazem com que o autarca, o padre e o médico, arquitetem o seu desaparecimento de modo a não causar entraves a um empreendimento turístico. Outras personagens vão aparecer, a velha, o professor, a menina, enquanto os três corpos são destruídos.

O que Claudel pretende é dar ao leitor um romance sobre uma das questões mais trágicas dos últimos anos, a questão dos refugiados, e obrigá-lo a pensar na dimensão das mortes que ocorrem na travessia do Mediterrâneo e na ausência quase total de solidariedade das populações europeias.

O Arquipélago do Cão mistura vários géneros literários, desde a marcação própria dos atores no teatro à trama em tom policial: "É natural para mim e tem sido sempre assim nos meus romances." Segundo Claudel, o romance tem uma estrutura de thriller, não dispensa um crime, três cadáveres e um inquérito: "O que eu gosto é de perverter o inquérito, que é sempre sobre a natureza humana e o que leva uma pessoa respeitável tornar-se um criminoso ou um indivíduo medíocre."

Para Claudel, um romance é como uma das experiências químicas que fazia quando estava na escola: "Tínhamos uma solução estabilizada, acrescentávamos duas gotas de alguma coisa e entrava em ebulição. Cada vez que escrevo um livro é um pouco como uma experiência química."

Júri do Prémio Goncourt, Philippe Claudel confessa-se um grande leitor do que se está a escrever no seu país. Quanto a autores portugueses, são os suspeitos do costume: Saramago e Lobo Antunes.

Pode-se dizer que os migrantes são um tsunami para os europeus?

Sim, mesmo que seja um tsunami que não provoca uma tomada de consciência suficientemente forte em certos países. O drama das migrações continua desde há alguns anos, após as guerras e o fim dos regimes sírios e líbio ou pelas condições de pobreza extrema de certos países africanos, mas não se pode dizer que os países europeus tenham acolhido com humanidade e boas-vindas os migrantes. Pelo contrário, vivemos uma situação que revela o nosso medo e a vontade de manter os países fechados.

Em França acontece o mesmo?

Sim, o que mostra também como a França envelheceu, que tem a obsessão de preservar o que possui e nenhuma vontade de o partilhar com pessoas de outros lugares. Este tsunami do qual resultam dramas humanos e mortes aos milhares mostra o estado extremamente angustiado e o envelhecimento da Europa.

Acredita que o medo europeu se deve apenas a questões de pobreza ou raça ou existem outras razões?

Creio que podemos enumerar vários motivos, mas a angústia e o medo é a mais generalizada. Estamos num tempo em que o homem ocidental está inquieto e confronta-se com o modelo em que tem vivido desde há séculos à beira do precipício. O que fazia da Europa o centro do mundo e um continente que ditava as regras no mundo inteiro desapareceu, enquanto isso vemos outras forças, na Ásia, nos Estados Unidos e na América do Sul, que alteram o paradigma. Creio que o homem ocidental e europeu ressente-se das mudanças e tem medo de nada ser, daí que em vez de ver os fenómenos mundiais de migração demográfica cada vez maiores como uma forma de recompor o mundo faz o contrário e fica na sua ilha. Por essa razão fiz esta metáfora no livro, situá-lo uma ilha em que a população está só e a partilhar a sua pequena riqueza, recusando que outros venham ter com eles.

Onde está localizada esta ilha?

A ilha do arquipélago do Cão é uma parábola da França e da Europa. O que me interessa na escrita é afastar de certas realidades para dar a ler ao leitor uma fábula, um mito moderno com uma geografia imaginária. Que, no entanto, pode fazer lembrar os fenómenos que conhecemos.

Por que faz da questão da imigração um cenário que atravessa o livro?

Não queria fazer um romance sobre a migração mas sobre nós, as pessoas que são confrontadas com o problema. O que utilizo é uma comunidade simbólica de pessoas que estão bem distantes desse problema e, de repente, o mundo bate-lhes à porta com três mortos. É uma forma de dizer que ninguém está longe destas situações, que não há um muro que proteja. Como a estupidez que querem fazer nos EUA! Vivemos num planeta em que tudo está perto, desde a informação aos fluxos económicos e os impactos climáticos.

Estas tragédias de migrantes a que assistimos está quase esquecida, como se tivesse sido apagada dos noticiários. Concorda?

Estamos a viver um momento em que a imprensa é obrigada a encontrar constantemente temas novos, sendo que logo que o assunto se esgota e perde o interesse salta-se para outra coisa. Há uma busca constante pelo espetacular e isso é muito claro em França, onde os migrantes ocuparam os noticiários durante um mês até surgirem os Coletes Amarelos e serem esquecidos - mesmo que estes protestos interessem apenas a uma pequena parte da população. O drama é toda a informação sobre os migrantes não servir para a evolução das mentalidades.

Que uso dar à imensa quantidade de imagens e artigos sobre o drama dos migrantes?

Já nos habituámos a assistir ao drama, a ver imagens terríveis ou saber que morreram 800 pessoas num barco de uma vez só. Há uma fotografia célebre em todo o mundo, a da criança morta na praia da Turquia. O que mudou essa imagem? Nada mudou com a fotografia da criança morta na praia da Turquia. Criou na altura uma emoção mundial mas o Conselho de Segurança das Nações Unidas e os governos não se reuniram para dar o fim a estes acontecimentos. Devíamos trabalhar para que isto não se repita e que seja uma emoção que desapareceu a troco de outra emoção.

Escreve este livro como uma peça de teatro. Porquê esse registo?

Gosto que os meus textos sejam representativos dos meus gostos literários e da minhas influências, por isso este livro é construído como uma tragédia grega e ao mesmo tempo como um thriller, ou seja, há elementos diferentes que se combinam pois é também uma farsa e uma comédia humana grotesca com figuras extremas e caricaturadas. Tudo isto resulta do que gosto de ler. O que interessa na tragédia? Quando há uma unidade de tempo e de ação - um lugar e uma ilha de onde não se pode sair durante um breve espaço de tempo -, a pergunta o que se faz é como fazer desaparecer os corpos. O problema é quando tudo parece normal e surge um elemento perturbador, como o comissário.

Não dá nome aos seus personagens porquê?

Sou incapaz de escrever um romance sob o modelo clássico como Balzac fazia. Quando ele inventa o romance realista, isso correspondia ao projeto daquela sociedade, no entanto escrever como ele atualmente - que muitos ainda imitam - seria como estar vestido com as roupas do século XIX. O que me interessa é contar uma história e questionar a natureza atual do romance, renovar e transformar um pouco o género em função da complexidade do mundo. A velha, o comissário, o professor ou o autarca representam uma função e quero mostrar como essas diferentes profissões se colocam perante este mundo.

Pode dizer-se que é um romance filosófico?

Isso seria um pouco pretensioso da minha parte. Não sou filósofo, nem é um romance que crie um sistema filosófico, mas concordo que existe um apelo à tradição do conto filosófico, como Voltaire em Cândido, que era muito romanesco e com aventuras ao mesmo tempo que evocava as grandes questões de consciência humana e do pensamento. Mas há um outro aspeto que me interessa bastante: eu não julgo, levanto perguntas morais. Portanto, aceitaria esse rótulo.

De vez em quando altera o curso dos acontecimentos de forma inesperada. Um truque literário?

Gosto de o fazer, porque todas as personagens achavam que após os acontecimentos do início do livro a vida ia continuar. O facto de surgir uma nova personagem altera tudo, mesmo que o comissário tenha pouca existência e a dado momento até desapareça. A sua missão é recordar as pessoas. Podemos ver como um truque literário, tendo em conta que relança o suspense e pretende ir ao fundo da consciência.

Faz um plano antes de iniciar o livro?

Não e cada romance é diferente. Neste sabia o que queria fazer assim: tratar da situação dos migrantes. O que deu início a tudo foi uma imagem de três corpos que dão à praia e não me saía da cabeça. Era o princípio de um livro! A partir daí, o romance começou a desenvolver-se.

Pode dizer-se que a literatura francesa está adormecida?

Não tenho essa opinião. Sou um grande leitor e nos últimos oito anos, porque estou na Academia Goncourt, passo a ano a ler romance francês. Acho que a nossa literatura deixou de ter o cunho parisiense, auto-ficcional e sobre pequenos dramas íntimos, agora a tendência é falar de novo do mundo, das experiências e acredita-se na imaginação. E na categoria dos primeiros romances tenho lido livros de jovens muito bons.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.