Lobo Antunes diz-se "um cidadão comum" e "grato" pelas distinções que recebe

O autor insistiu que vive "no mundo de toda a gente" e acrescentou: "Às vezes parece-me que quem está num mundo só deles são os políticos, não sou eu".

Em vésperas de receber o Prémio Bottari Lattes Grinzane e de inaugurar uma cátedra com o seu nome na Universidade de Milão, o escritor António Lobo Antunes disse que se considera um "cidadão comum sem qualquer importância", "grato" por estas distinções.

Lobo Antunes, de 76 anos, que publicou recentemente um novo romance, A última porta antes da noite, referiu-se ao Prémio Grinzane, cujo júri é constituído por intelectuais, professores universitários, jornalistas culturais e escritores, como "uma generosidade" e "uma prova de consideração pela nossa língua".

A "jornada italiana" começa na sexta-feira ao meio da manhã, em Monchiero, nos arredores de Turim, na região italiana do Piemonte, com uma conferência de imprensa, apresentando o escritor, à tarde, no Teatro Social de Alba, a sua "Lectio Magistralis" ("Lição Magistral", em tradução livre).

No sábado à tarde, no castelo Grinzane Cavour, que faz parte da lista do Património Mundial da UNESCO, António Lobo Antunes recebe o galardão.

Relativamente aos prémios, Lobo Antunes afirmou que "as pessoas têm sido muito generosas" consigo, em diferentes países. "É evidente que tenho de estar grato, mas tomo isto mais como uma prova de consideração pela nossa língua e pelo nosso país, e isso é que interessa", sentenciou.

A cerimónia de entrega do galardão e a inauguração da cátedra António Lobo Antunes, no Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras da Università degli Studi di Milano, faz parte do seu ofício de escritor, disse o autor de "Auto dos Danados".

"Vou ter que falar e ver pessoas, não é uma coisa que me agrade especialmente, mas faz parte do ofício e é bom que o nome de Portugal seja falado". Quanto à literatura, "é só trabalho, não há segredo nenhum, não há mistério, é só trabalho", afiançou.

"Escrever é trabalho. Podia ter outra profissão qualquer, tenho esta, portanto tenho que fazer um bom trabalho, da mesma maneira de que, quando era médico, tinha de tratar bem os meus doentes, era o meu trabalho", disse, para acrescentar relativamente aos seus livros: "As pessoas não têm o direito de receber um mau produto", e daí trabalhar neles até os considerar bons, contou.

"Escrever não é uma brincadeira", asseverou, garantindo que faz o melhor que pode.

Quanto ao convite para participar como "convidado de honra" na Feira de Guadalajara, que decorre de 24 de novembro a 02 de dezembro, naquela cidade mexicana, Lobo Antunes considerou o convite "muito generoso".

"Vamos ver como corre a feira. É a segunda maior do mundo", disse o escritor que já por duas vezes esteve em Guadalajara, e justificou a honraria, por ter ganhado, há dez anos, o Prémio Juan Rulfo, pelo romance "Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água".

Lobo Antunes insistiu que é "um cidadão normal", que não tem mais importância do que isso, mas acha "simpático" a atenção que lhe é dada. "Nunca pensei nisso, mas acho simpático que se preocupem comigo, talvez um dia me arranjem uma estátua equestre", disse.

Questionado se gostaria de se ver representado numa estátua equestre, respondeu: "Não tenho nada contra, se fosse a cavalo de um político que não gosto, não me importava", e prosseguiu: "Depende de quem a gente monta, o meu prazer de estar em cima, depende de quem eu estiver a montar", e recomendou que, "antes [de se montar], deve-se olhar para o animal".

O autor insistiu que vive "no mundo de toda a gente" e acrescentou: "Às vezes parece-me que quem está num mundo só deles são os políticos, não sou eu".

Referindo-se a políticos, o escritor afirmou gostar do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a convite do qual participou, em fevereiro último, na iniciativa "Escritores no Palácio de Belém". "Tenho uma boa relação com o Presidente [da República], gosto dele, penso que ele gosta de mim, ainda há pessoas que me são simpáticas", disse.

Lobo Antunes reconhece, porém, que se isola, principalmente quando está a trabalhar, a escrever os seus livros, não lhe sobrando tempo para mais nada.

"Quando estou a trabalhar tenho muito pouco tempo, começo a trabalhar às sete da manhã até à uma [da tarde], depois das duas até às oito da noite, por isso não tenho muito tempo para saber. Mas também a sensação que eu tenho é que a vida em Portugal é tão previsível, que não vale a pena... Não compro jornais, não leio jornais, raramente vejo noticiários na televisão. Não tenho tempo, tenho que fazer as coisas, vou sabendo assim... Sei que houve uma remodelação governamental".

Sobre o novo livro, A última porta antes da noite, é dedicado ao seu amigo George Steiner, crítico literário e professor nas universidades de Cambridge e Genebra, o autor de "Errata", "Antígonas" e "As artes do sentido", que lhe falou nesta frase, que é da personagem "Judite", da ópera "O castelo do Barba Azul", de Béla Bartók, (que também dá título a um livro do pensador - "No castelo do Barba Azul - Algumas notas para a redefinição da cultura").

No final da ópera, a personagem "pede que lhe abram 'a última porta antes da noite'", explicou Lobo Antunes. "Uma frase que não foi criada para este livro, já existe há muito tempo, e foi uma frase que sempre me tocou, e em certo sentido é uma homenagem a um amigo [George Steiner]", de quem gosta, que respeita e admira.

A amizade é "uma coisa sagrada", disse Lobo Antunes à Lusa. E recordou o seu avô, que lhe dizia que "um homem pode não ter dinheiro, não ter mulheres, não ter trabalho, mas se tiver amigos nunca fica sozinho".

Autor de mais de 30 romances, além de cinco livros de crónicas e de um volume de cartas, António Lobo Antunes afirmou: "Não estou à procura de nada. A gente não procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão", disse o escritor, referindo em seguida: "Já tive alturas em que não tive futuro, com doenças, com guerras, com isto e aquilo. E não é agradável".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)