Lisboa e Bagdade "não eram assim tão diferentes"

Hashim Samarchi, hoje com 81 anos, regressou por estes dias à cidade onde com 30 anos veio estudar através de uma bolsa da Fundação Gulbenkian, que então mantinha forte presença no Iraque.

Chegam pai e filha ao Museu Gulbenkian na manhã de sexta-feira. Ele é Hashir Samarchi, artista iraquiano de 81 anos que, acompanhado pela filha Dina, veio a Portugal para a inauguração da exposição que conta uma parte da sua vida: Arte e Arquitetura entre Lisboa e Bagdade.

Samachir foi um dos cerca de 600 bolseiros da Fundação Gulbenkian durante o período de atividade filantrópica da instituição no Iraque, entre os anos 1957 e 1973, na sequência da exploração petrolífera da Gulbenkian no país.

O artista chegou a Lisboa em 1967 para uma estada de 15 meses, "tinha 30, 31 anos", já tinha bigode, embora então preto, e vinha acompanhado de outros dois artistas iraquianos: Rafa Nasiri e Salim al-Dabbagh.

Lisboa e Bagdade naquele tempo? "Não eram assim tão diferentes", responde. "Lisboa era uma cidade muito simpática, que progrediu. Bagdade agora está destruída. Naquela altura havia mais parecenças, até na forma como as pessoas se vestiam, como queriam abrir os olhos para o mundo, ter novas ideias. Infelizmente Bagdade ruiu, como as liberdades individuais, sobretudo para as mulheres. Agora têm de se cobrir todas. Para quê?"

Hashir Samarchi e os seus dois conterrâneos viviam numa casa no Bairro Alto e iam a pé até à GRAVURA - Cooperativa de Gravadores Portugueses, onde faziam a sua formação com Alice Jorge e João Hogan. Um dia saiu para ir tomar café e tirou um cigarro. "Encontrei o isqueiro e continuei a andar. Alguém me chama e pergunta: 'Tem licença para o seu isqueiro?' Eu disse: 'Não. Para quê?' 'Então por favor venha comigo à polícia.' Eu pedi-lhe para ir comigo à GRAVURA para alguém poder traduzir para português. Ele foi e perguntou por mim. Explicaram-lhe quem era e que era estrangeiro. Então ele levou o isqueiro e deixou-me."

Samarchi conta a história a rir-se, indo assim ao encontro de uma das características (e leis) mais lembradas do período do Estado Novo, que dessa forma protegia a indústria fosforeira nacional.

Quando chegou a Lisboa, o artista já tinha acabado o seu curso de Belas Artes e ensinara artes numa escola de Mossul durante quatro anos. Quando da revolução de 1958 deixou Mossul e partiu para Bagdade, onde estudaria na Academia de Belas Artes mas, acusado de ser comunista, ainda passou um ano na prisão antes que tal acontecesse. Depois de terminar a Academia em 1966, como não encontrou trabalho, foi dar aulas para a Arábia Saudita. Um ano depois, a Sociedade de Artistas Iraquianos elege-o como bolseiro da Gulbenkian.

Em Lisboa produziu muito, fez amizades, em que se contam o artista Fernando Calhau, e tornou-se o pioneiro naop art no mundo da arte iraquiano. Aproximamo-nos nas obras que o comprovam, parte do núcleo de arte iraquiana que a Fundação Gulbenkian adquiriu no país, com as suas linhas e cores que se transformam. "Que cor vê aqui?" pergunta perante um verde que surge onde o azul e o amarelo se fundem múltiplas vezes.

Quando regressou ao Iraque deu aulas, e depois foi convidado para ir trabalhar para o Ministério da Cultura como diretor de design. Durante alguns meses ainda dirigiu o Centro de Arte Moderna de Bagdade, totalmente construído e oferecido pela Fundação Gulbenkian, agora chamado Gulbenkian Hall. Em 1981 rumou a Londres, onde ainda hoje vive.

Não vai ao Iraque desde 1999, um ano depois da guerra Irão-Iraque terminar. Perguntamos-lhe se a sua família de Mossul está segura, depois das investidas e ocupação do Estado Islâmico. Samarchi e a filha respondem que sim, que todos saíram do território logo quando o EI chegou. Quanto ao contacto, Dina conta que é difícil. "Quando ligamos para casa conseguimos ouvir as pessoas que nos escutam. Se dizemos algo engraçado, ouvimo-los a rir."

Agora Hashir Samarchi não pinta. "A minha saúde já não está assim tão bem", acrescenta. Recorda que há mais de dez anos passou cerca de um ano em Abu Dhabi como designer para a mesquita Sheikh Zayed, a maior do país, cuja construção terminou em 2007. "Comecei a aprender a usar o computador e a fazer ilustração no computador. Agora esqueci tudo." Ri-se novamente. "Acontece-me também com o telemóvel."

Já viu a Lisboa que o recebeu nos anos 1960 (e onde voltou brevemente em 1982) e a exposição que conta uma história que também é sua. Agora, o artista regressa a Londres.

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