Lalo Schifrin. O argentino que soube escapar ao tango

Anda há mais de 60 anos a espalhar talento por bandas sonoras de filmes e séries de TV. Também voou alto no jazz. Agora, com 86 anos de vida, vai receber um Óscar de carreira, depois de seis nomeações que "morreram na praia"

O tempo e uma qualquer necessidade de "identificação rápida" tornaram-se sinónimos de enormes injustiças. Quando queremos designar o versátil Henry Mancini, lá nos apressamos a referir o tema musical (dos filmes e dos desenhos animados) da Pantera Cor de Rosa. Quando o mesmo objectivo se transfere para o genial Bernard Herrmann, tantas vezes parceiro de Alfred Hitchcock, a primeira memória que ressalta é a da aterradora música que serve para temperar a sequência da morte de Janet Leigh, assassinada enquanto toma um chuveiro. Com Lalo Schifrin, nascido em Buenos Aires há 86 anos, agora designado para receber um Óscar de carreira, o processo não difere, na essência: continua a ser o tipo que escreveu o inconfundível tema do genérico da série Missão Impossível, estreada na televisão norte-americana há mais de meio século (17 de Setembro de 1966), e que Tom Cruise sabiamente não dispensou na saga de filmes da "era moderna"e que, aparentemente, se conclui com o capítulo por cá estreado há pouco mais de um mês.

Mais uma vez, esta aproximação a Boris Claudio (Lalo) Schifrin não poderia ser mais redutora, se pensarmos num percurso que, só no cinema, nos remete para uma estreia em 1957, ao serviço do filme Venga A Bailar El Rock, rodado e estreado na sua Argentina natal. Filho de um distinto músico da área erudita, cuja admissão como primeiro violino na orquestra filarmónica de Buenos Aires resultou de um exame em que os jurados foram nada menos do que Heitor Villa-Lobos, Arturo Toscanini e Victor de Sabata, Lalo começou a tocar piano aos 5 anos. O seu primeiro professor foi Enrique Barenboim, pai do famoso maestro Daniel Barenboim, A vida do jovem, que entretanto aprendeu composição e se apaixonou assolapadamente pelo jazz, mudou radicalmente em 1952, quando foi aceite a sua candidatura ao Conservatório de Paris, à época dirigido por Olivier Messiaen. Além das escalas académicas, Schifrin integrou-se entusiasmada e voluntariamente na cena musical nocturna parisiense, dominada pelos caveaux onde o jazz era a palavra de ordem. Entre os seus espectadores mais assíduos contava-se um escritor em ascensão - Julio Cortázar.

De regresso a Buenos Aires, Lalo fundou uma big band de jazz, já de olhos postos na possibilidade de se atirar à música para cinema. Mais uma vez, as circunstâncias concorreram para o bem geral: integrado numa missão artística (e de propaganda política, motivada pela Guerra Fria e pela necessidade de cativar simpatizantes para a "causa" do Tio Sam), chegou à Argentina o mítico trompetista Dizzy Gillespie, cuja banda integrava - como quarto trompetista - um jovem chamado Quincy Jones. Gillespie assisiu a um espectáculo de Schiffrin, em que também participou o sublime Astor Piazzolla, quis saber quem tinha escrito a música e os arranjos e, de imediato, convidou-o a seguir para os Estados Unidos. Trabalharam juntos durante anos e, nesse período, surgiu o disco Gillespiana (1960), tocado pelo americano e escrito pelo argentino. Numa tournée pela Europa, Lalo foi abordado pelo agente de Jimmy Smith, organista de jazz, que quis confirmar a autoria da suite incluída no referido álbum. Ficou marcado um almoço de ambos, quando regressassem à América. E, com Nova Iorque em fundo, Schifrin, que já trabalhava também como arranjador para o maestro Xavier Cugat, ganhou a promessa de ser apresentado ao director musical da Metro Goldwyn-Mayer.

A longa estrada dos filmes

O primeiro trabalho de Schifrin no cinema norte-americano serviu, fundamentalmente, como cartão de visita - em Safari no Inferno (1964), de Ivan Tors, que o compositor esclarece "que não era um grande filme nem teve êxito algum". O salto, que lhe valeu passar a figurar no índice de disponibilidades interessantes, foi dado logo a seguir, porque o realizador francês René Clement precisava de alguém que falasse francês, e Lalo tinha vivido em Paris... Escreveu a música para A Jaula do Amor, com Jane Fonda e Alain Delon.

Nos vinte anos seguintes, bem pode dizer-se que as mãos de Lalo Schiffrin não tiveram descanso - além de documentários, filmes para a TV e séries, ele trabalhou de perto com muitos realizadores "em alta", casos de Norman Jewison (no abrasivo O Aventureiro de Cincinatti, com Paul Newman), Don Siegel, Peter Yates, John Boorman, Martin Ritt, Sidney J. Furie, Richard Lester, J. Lee Thompson e Mark Lester, bem como clássicos como Billy Wilder, John Sturges e até Clint Eastwood, entre muitos outros. Foi testemunha ocular de estreias e despedidas: na primeira categoria, esteve ao lado de George Lucas na primeira longa-metragem por este realizada, THX 1138; na segunda, assinou a música do último filme com Bruce Lee, O Dragão Ataca, por pedido expresso do actor, que confessou ter-se treinado ao som de Missão Impossível. Na sequência deste filme, o próprio músico confessa ter-se apaixonado pelas artes marciais e chegado a cinurão negro de karate. Foi nomeado para seis Óscares, entre 1968 e 1983: quatro por partitura original - O Presidiário, A Viagem dos Malditos e Amityville: A Mansão do Diabo, todos dirigidos por Stuart Rosenberg, e ainda A Raposa, de Mark Rydell -, um para melhor canção, em parceria com Will Jennings, no filme Um Amor em Competição, de Joel Oliansky, e outro pot banda sonora adaptada, na sequela de A Golpada.

Dos trabalhos mais recentes, Schiffrin gosta de salientar aquele que cumpriu para o filme Tango, do realizador espanhol Carlos Saura. Afinal,isso permitiu-lhe mergulhar num género a que escapou durante quase toda a vida... excepto como ouvinte devoto. Impedido de dirigir orquestras, por causa da idade, continua a compor e a escrever na sua casa de Los Angeles, a mesma que um dia pertenceu a Groucho Marx. Continua a apostar na ideia de que "não há nada mais aborrecido do que descansar". Muito em breve, vai receber o Óscar que sempre lhe escapou. Dificilmente haverá prémio mais justo. Ora, com Steve McQueen e Paul Newman (dois dos actores a quem mais brindou com a sua música) já desaparecidos, quase apetece apostar que o prémio acabará por chegar-lhe das mãos de Clint Eastwood, outro dos seus protegidos. Pena é que a sua música, sobretudo instrumental, continue tão longe das rádios, cada vez mais encostadas ao efémero.

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