La Fura dels Baus vai voar dentro da Altice Arena

Espetáculo da companhia catalã sofreu mudanças e, por motivos de segurança, não acontecerá no exterior: 'Voando Indoor' encerra o festival Super Bock Super Rock na noite de sábado

"Que maravilha! Parece mesmo o casco de um barco", exclama Miki Espuma, de cabeça no ar e braços abertos, no meio da plateia da Altice Arena, em Lisboa. A única vez que tinha visitado o espaço tinha sido em maio, quando o pavilhão estava preparado para receber o Festival Eurovisão da Canção. Nunca tinha estado na sala assim vazia, completamente vazia, só ocupada pelos trabalhadores que montam o palco e todas as estruturas para o festival Super Bock Super Rock que começa nesta quinta-feira no Parque das Nações.

Para Miki Espuma, diretor artístico da companhia catalã La Fura dels Baus, a apresentação do espetáculo Voando Indoor, no sábado (dia 21), integrado neste festival, representa uma dupla novidade. Por um lado, porque não estão habituados a trabalhar em festivais de rock - já estiveram no Wilderness Festival, no Reino Unido, e no Cruilla Festival, em Barcelona, mas esta é apenas a terceira vez que enfrentam um público "roqueiro". "Vamos fazer um espetáculo em duas partes. Primeiro de 15 minutos, entre a atuação de dois grupos, e no final faremos quase 30 minutos de espetáculo." Será, aliás, este o espetáculo de encerramento do festival.

Por outro lado, porque, tal como o nome indica, este espetáculo passa-se totalmente no interior da Altice Arena: "Estamos a trabalhar num formato muito diferente do que costumamos fazer porque estamos no interior. Normalmente, a Fura neste tipo de espetáculos de grande formato trabalha na rua, com o céu, a pirotecnia, com uma grande espaço, e desta vez vamos trabalhar só aqui. Mas não podemos dizer 'só', porque a Altice Arena tem 25 metros de altura e capacidade para 30 mil pessoas, portanto para nós é magnífico", ressalva Miki Espuma.

Na verdade, o projeto inicial previa que os Fura apresentassem parte do espetáculo no interior e parte no exterior. "Tirando partido do corredor da água existente, que marca o cenário do Parque das Nações, um Transformer, juntamente com uma comitiva de personagens de fogo, vai passear entre o público em busca da sua amada, Mariola Membrives, que estará à sua espera no telhado", explicava-se no press releasedivulgado em maio pela Música no Coração, promotora do Super Bock Super Rock. Mas, subitamente, na semana passada, todos os planos tiveram de ser alterados.

"Só na semana passada soubemos que não podíamos trabalhar no exterior", explica Miki Espuma. "O solo do lago não é suficientemente forte para aguentar a grua que queríamos usar para o espetáculo, não era seguro. Temos fama de sermos duros, arriscados, loucos, mas nunca fazemos nada se não há garantias absolutas de segurança."

Uma ritual inventado

O espetáculo mudou de nome e em vez de se chamar In-Up// Out-up passou a chamar-se Voando Indoor e, mais importante do que isso, a companhia teve de alterar todo o espetáculo para o apresentar na Altice Arena. À chegada a Lisboa, nesta segunda-feira, Miki Espuma não parecia muito preocupado. Durante a tarde, os membros de La Fura dels Baus estiveram a conhecer os mais de 50 voluntários, alunos da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo do Chapitô, que vão participar no evento e preparavam-se para começar os ensaios. "Procurámos pessoas sem vertigens, corajosos, valentes, jovens", explica o encenador.

Sobre o que vai acontecer ali, Miki Espuma não adianta muitos pormenores. "La Fura dels Baus nunca quer contar uma história clara, seja uma história de amor ou política, com uma narrativa linear. Prefiro falar de rituais. Creio que, desde os anos 1980, a Fura, construiu um tipo de ritual teatral, inventado, novo. Tal como nas igrejas as pessoas ouvem o hossana e toda a gente sabe o que tem de fazer, na Fura inventamos rituais em que ninguém sabe o que vai acontecer mas, por instinto, todo o público sabe o que tem de fazer-se - virar-se, caminhar, olhar para cima, afastar-se. A Fura criou um certo movimento cenográfico, que envolve o público e no final todos participam num ritual, numa missa total." Miki Espuma refere-se aos espetáculos imersivos, interativos e por vezes até polémicos pelo modo como envolviam o público que tornaram conhecido o grupo espanhol que já se apresentou várias vezes em Portugal.

Mariola Membrives vai cantar em português

O que sabemos sobre Voando Indoor? Antes de mais, que "todo o espetáculo se passa no ar". "Aconselho toda a gente a pôr creme no pescoço para não ficar com dores porque vai passar o tempo todo a olhar para cima", brinca o encenador. Depois, que o grupo de alunos do Chapitô vai fazer uma "rede humana", que é uma estratégia já usada pelo grupo em espetáculos anteriores. E, finalmente, que a cantora de flamenco Mariola Membrives vai usar uma saia com oito metros de comprimento, irá levantar voo sobre o público, dentro do Palco Super Bock, e vai inclusivamente cantar em português.

"Vai ser um trabalho de alto risco", garante Miki Espuma. "Tudo se vai passar aqui, no meio do público, não haverá um palco, a Fura trabalha entre os espectadores. Nos anos 1980 e 1990, dizíamos que um espetáculo só era bom quando sentias a respiração dos atores no teu pescoço - isso é básico para os Fura."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.