Keanu Reeves em piloto automático

A temporada de Verão tem sempre alguns Atores "forçados" a repetir fórmulas mais ou menos rotinadas: Keanu Reeves volta a cair nessa armadilha...

A temporada cinematográfica de Verão pode ser muito castigadora para os atores mais ou menos populares. Dir-se-ia que a (falta de) lógica do mercado obriga cada um deles a confirmar o seu estatuto e a sua imagem de marca. E quando são associados a "filmes de ação", importa repetir histórias, cenas e fórmulas...

Convenhamos que há quem consiga enfrentar tal desafio com um misto de classe e elegância. Observe-se o caso de Tom Cruise, com o seu Missão Impossível: Fallout: um genuíno espetáculo, celebrando os poderes clássicos das imagens (e dos sons), e também um dos melhores desta série, a par do primeiro Missão Impossível, realizado por Brian De Palma em 1996.

Mas quando deparamos com Keanu Reeves e a sua mais recente proeza, de título Sibéria (estreia esta semana), o desastre tem qualquer coisa de patético. Desde logo, pela retórica do seu argumento (?): a história do negociante de diamantes (Reeves) que viaja até à Sibéria para tentar encontrar o sócio desaparecido, aí encontrando um grande amor, move-se com a agilidade de um elefante numa loja de cristais... Depois, a realização de Matthew Ross é um trabalho de tal modo desinspirado que faz parecer a mais banal série televisiva policial uma proeza de vulto.

Enfim, não se esperava que Reeves se mostrasse um descendente das subtilezas do Actors Studio. Afinal de contas, o seu brilhante "Neo", na trilogia Matrix, enraíza-se na hábil criação de uma "persona" algures entre a frieza de uma figura totémica e a sedução de uma personagem quase de desenho animado. Aqui, limita-se a assinar o ponto com a indiferença criativa de quem, em boa verdade, nem sequer tem uma personagem minimamente consistente para defender - Keanu Reeves em piloto automático é, afinal, o pior que Keanu Reeves tem para dar.

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