Jovem que acusa Asia Argento de abuso quebra silêncio

Jimmy Bennett disse ao New York Times que tinha medo e vergonha de falar publicamente sobre o caso

O ator que acusou a atriz e realizadora italiana de ter abusado sexualmente dele num encontro num quarto de hotel na Califórnia, em 2013 - numa altura em que Bennett tinha 17 anos e Argento 37 -, falou pela primeira vez sobre o caso nesta quarta-feira, em declarações ao jornal New York Times, o mesmo jornal que revelou a história.

Bennett disse que só agora aborda publicamente o caso, porque "tinha vergonha e estava com medo das reações". Num depoimento enviado ao jornal, o ator lembrou que "era menor quando o caso sucedeu" e, a propósito das notícias de que tentou chegar a um acordo financeiro com a atriz, disse que procurou "justiça de uma forma que fizesse sentido na altura, porque não estava preparado para lidar com as consequências de a história se tornar pública".

"Naquela altura, acreditei que haveria ainda o estigma de ter vivido aquela situação enquanto homem. Achei que as pessoas não iriam compreender aquilo que aconteceu na versão de um adolescente", acrescentou Jimmy Bennett.

Recorde-se que Asia Argento,de 42 anos, foi uma das primeiras mulheres a dar voz ao movimento #MeToo, tendo revelado que foi violada pelo produtor Harvey Weinstein. De acordo com o que o New York Times divulgou esta semana, a atriz terá pago 380 mil dólares ao jovem ator pelo seu silêncio sobre o encontro sexual. Argento alega que foi o seu namorado de então, o falecido chefe Anthony Bourdain, a efetuar o pagamento para evitar "má imprensa".

Jimmy Bennett, atualmente com 22 anos, disse ainda ao jornal que o papel de Argento no movimento #MeToo o fez recordar o trauma do episódio com a atriz. "O meu trauma ganhou força quando a vi surgir, também ela, como uma vítima".

Bennett e Argento conheceram-se pela primeira vez quando o jovem ator, então com apenas 7 anos, interpretou Jeremiah, filho de Argento no filme Maldito Coração.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)