José Padilha: "Quero ver Moro investigar Bolsonaro"

Em entrevista ao DN às vésperas de estrear a segunda temporada de O Mecanismo - sexta-feira no Netflix -, o autor da série, José Padilha, afirma-se desiludido por ver o juiz da Lava-Jato no governo de um presidente ligado às milícias.

Na primeira temporada de O Mecanismo, a personagem do juiz Paulo Rigo, assumidamente inspirada em Sergio Moro, o magistrado que liderou a Lava-Jato, a operação contra a corrupção no Brasil que serve de pano de fundo à série, está do lado dos heróis. Pois hoje em dia o próprio autor da série, José Padilha, já não tem a certeza de que o agora ex-juiz e ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro encaixe no papel.

Em entrevista por e-mail ao DN, a propósito da estreia nesta sexta-feira, dia 10, no Netflix, da segunda temporada de O Mecanismo, Padilha diz que o roteiro foi escrito "antes de Moro entrar no ministério, de modo que o facto de ele ter cometido o erro crasso de se associar a Bolsonaro não influenciou a série".

É essa, aliás, a única crítica que Ivan Finotti, jornalista do jornal Folha de S. Paulo que teve acesso aos três primeiros episódios, faz a O Mecanismo 2: "A culpa não é de José Padilha mas do Brasil. Aqui, as mudanças políticas têm acontecido tão rapidamente que a sua série parece estar narrando escândalos do século passado."

Para justificar a crítica, o repórter nota que o enredo ainda fala em "ameaça de impeachment à presidente do Brasil". Destaca, por outro lado, o impacto do genérico: ao som do refrão do samba de Ary do Cavaco e de Bebeto Di São João "se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão", desfilam imagens, reais, de protagonistas da cena política brasileira como Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Michel Temer, José Dirceu, Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou Antonio Palocci.

Autor de Ônibus 174, premiado documentário de estreia, em 2002, de Tropa de Elite, de Tropa de Elite - O Inimigo agora É Outro, recorde de bilheteira no Brasil, das produções norte-americanas Robocop e Narcos, Padilha pode não ter a capacidade de acompanhar a frenética realidade brasileira em O Mecanismo. Mas como observador político está atualizadíssimo. E afiadíssimo.

Em artigo recente (publicado no jornal Folha de S. Paulo a 16 de abril), disse ter deixado de acreditar em Sergio Moro porque o pacote anticrime do ministro da Justiça de Jair Bolsonaro é brando ou omisso em relação ao combate às milícias [grupos paramilitares que cobram por serviços em troca de garantir a segurança das populações no Brasil, em especial no Rio de Janeiro]. Teme que o governo pactue com a ação delas?

O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, venceu em mais de 90% das urnas na comunidade de Rio das Pedras, um reduto onde apenas políticos ligados a milicianos conseguem fazer campanha. Além disso, Flávio pôs no seu gabinete uma série de pessoas ligadas a agentes da polícia militar que têm, claramente, conexões com milícias. Um desses funcionários [Fabrício Queiroz, amigo de longa data da família Bolsonaro] movimentou recursos incompatíveis com os seus rendimentos e fez um depósito na conta da primeira-dama... O governo claramente compactua com as milícias cariocas.

E onde entra Moro?

Acho que o ministro Sergio Moro embarcou numa canoa furada. Ou ele não sabia quem era o presidente - o presidente para quem aceitou trabalhar - ou concorda com as teses retrógradas e o passado suspeito da família Bolsonaro. Nos dois casos, a decisão de Moro de entrar nesse governo incinerou a reputação que tinha adquirido durante boa parte da Operação Lava-Jato.

Simpatizantes de esquerda exigiram uma mudança de rumo na segunda temporada de O Mecanismo, dada a sua nova perceção do papel de Moro. Acha concebível isso? Ou vê mero aproveitamento político do seu artigo?

A segunda temporada de O Mecanismo foi escrita antes de Moro entrar no ministério, de modo que o facto de Moro ter cometido o erro crasso de se associar a Bolsonaro não influenciou a série. Mas influenciou, certamente, o destino do país e da própria Operação Lava-Jato. Ao associar-se a um presidente cujo filho está envolvido com milicianos e operações financeiras no mínimo esquisitas, Moro colocou-se numa "sinuca de bico" [expressão brasileira para beco sem saída].

O que lhe resta fazer?

Só vejo uma forma de Moro continuar no governo sem destruir totalmente a sua reputação: precisa rever o seu pacote anticrime no que tange à violência policial e à explosão da população carcerária, precisa exigir que Bolsonaro apoie claramente a criminalização do caixa dois [saco azul], que deixe o Conselho de Controle de Atividades Financeiras sob a tutela do Ministério da Justiça e que aprove uma mudança constitucional que sacramente a prisão logo após condenação em segunda instância. E precisa, ainda, posicionar-se contra as milícias. Nos Estados Unidos a máfia é investigada pelo FBI. Quero ver Moro pleitear que a polícia federal investigue as milícias no Brasil, e quero ver Moro investigar [Fabrício] Queiroz e Bolsonaro. Se, ao tentar fazer tudo isso, Moro for demitido, pelo menos terá preservado parte da sua biografia.

Noutra entrevista, afirmara que em vez de votar no capitão Nascimento [polícia herói dos filmes Tropa de Elite] os brasileiros talvez tenham votado no Rocha [chefe da milícia, logo vilão, no Tropa de Elite 2]. E isso foi antes de serem revelados os suspeitos de matar Marielle Franco e as suas relações à família presidencial. Estes dados recentes acentuaram a sua ideia de que Bolsonaro está mais para Rocha do que para capitão Nascimento?

Sim, acentuaram.

Considera que a personagem capitão Nascimento, de alguma forma, teve influência política no Brasil?

Filmes não têm toda essa influência.

Mas o personagem, de algum modo, antecipou essa onda de políticos redentores e salvadores da pátria, na forma de delegados de polícia e de militares, mesmo sem ter sido essa a sua intenção ou mesmo que esses políticos não tenham nada em comum, no fundo, com a personagem?

O Tropa de Elite foi lançado no primeiro mandato de Lula e o PT ficou por mais três mandatos no governo depois disso. Na verdade, Bolsonaro só se elegeu porque a esquerda brasileira se recusou a aceitar o óbvio: que a roubalheira capitaneada por Lula e pelo PT, inegável diante dos factos apurados pela Operação Lava-Jato, tornava os candidatos do PT à presidência inviáveis. Se a esquerda tivesse apoiado Ciro Gomes, um candidato que não estava implicado na Lava-Jato, Bolsonaro provavelmente não teria sido eleito.

Filmou com sucesso Robocop, remake do original de 1987, e a série Narcos nos EUA, onde vive: que diferenças básicas vê entre a produção no país e no Brasil?

No Brasil há mais liberdade autoral, mas poucos recursos. Nos EUA há mais recursos, mas menos liberdade autoral.

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