Cultura

"Soube há três meses que ia ganhar mas não podia revelar senão era desclassificado"

José Cid, 77 anos, recebe o Grammy Latino de excelência musical no dia 13 de novembro, em Las Vegas.

Um Grammy pela carreira e contribuição para o pop/rock português não impede José Cid de continuar a atuar em festas pelo país, que diz ser uma homenagem que os portugueses lhe fazem, este o melhor prémio. Sente que é, também, uma distinção à música portuguesa, que acredita não ser mais valorizada porque Portugal é pequeno. Com artistas melhores que o Roberto Carlos e o Júlio Iglesias, a sorte destes é que não nasceram na Trafaria ou em Penafiel. E os músicos não são futebolistas,

O que é que significa um Grammy na sua carreira?

Estou muito contente, são muitos anos de trabalho e que premeiam uma carreira como outros prémios que já recebi. Tenho recebido grandes prémios, o Pouzal Domingues, o de consagração da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) e o primeiro atribuído a um músico, o ano passado recebi o Globo dos Globos Ouro. Recebi outros prémios muito importantes, mas, sinceramente, o prémio melhor é a homenagem pública nacional do público português. Só em agosto vou fazer 20 concertos, com 10 mil, 20 mil, 30 mil, 40 mil concertos, que duram duas horas e meia e ninguém arreda pé.

Mas a sua carreira já conheceu períodos mais calmos.

Sempre continuei a fazer a minha música, gravei um álbum com poesia de Camões, um jazzistico, outro com a poesia de Lorca. Continuei a fazer o que gostava e bem feito, mas a partir de 2014 é a loucura. Faço sete campos Pequenos cheios, gravo um DVD incrível que ainda hoje funciona e, a partir daí, as coisas dispararam. As pessoas também sabem que sou um cantor ao vivo, que tenho uma grande entrega, com músicas muito bem tocadas e bem cantadas, que a minha voz está cá toda.

E isso envaidece-o, é uma pessoa vaidosa?

Vaidoso não, não sou nada vaidoso, mas sei muito bem o que posso fazer em termos vocais e o que posso cantar, sou um musicólogo, não brinco. A verdade é que não me acho vaidoso.

Faz afirmações que podem ser entendidas como vaidade.

Se quiser chame-me vaidoso, mas não me pode chamar mentiroso. As pessoas devem gostar de si próprias.

E, agora, está a viver um momento especial.

É o corolário de um trabalho, especial, mas, para mim, este prémio é uma panaceia. Faz bem ao meu ego, claro que sim, mas, sendo este prémio para distinguir o pop/rock português, que nunca teve hipóteses lá fora, é um reconhecimento de um grupo de mais dez cantores da minha geração e de mais dez das novas gerações. Músicos que têm uma qualidade enorme, grandes palavras, grandes temas, há muita criatividade em Portugal, só que somos um país pequenino. Enquanto os espanhóis têm um mercado de 400 milhões de pessoas, nós temos só cinco milhões porque os outros cinco consomem outro tipo de música, e os brasileiros é igual. Não temos conseguido passar a fronteira.

O que os brasileiros e os espanhóis conseguiram, nomeadamente em Portugal.

Os brasileiros fecharam-nos completamente a porta, tenho uma obra muito superior ao Roberto Carlos, mais do que o dobro, no entanto, não tenho direito a nada. E, como eu, outros portugueses como o Paulo de Carvalho, o Luís Represas, o Jorge Palma. E a mesma coisa acontece com o Júlio Iglesias. Se o Júlio Iglesias tivesse nascido em Penafiel, estava tramado; se o Roberto Carlos nasce na Trafaria não existia. Cantar honestamente em português, na língua de Camões, é para um nicho de mercado muito pequeno, agora a qualidade está cá. Se fossemos futebolistas, emigrávamos e éramos os melhores, assim não temos hipótese.

Teve conhecimento antecipado que fazia parte de uma short list de possíveis vencedores?

Soube há três meses que ia ganhar mas não podia revelar senão era desclassificado. O comité da música latina esmiúça tudo, é um comité de antigos músicos que escolhem e, depois, ligam diretamente para nós. É engraçado que este prémio é muito pressionado pelas multinacionais, também em Portugal como a Sony, a Universal, a Valentim de Carvalho, para porem os artistas deles a receber grammys. Eu tenho um label Acid Recorders, que edita dois discos por ano, sou um pobrezinho indefeso, para ser escolhido é porque perceberam, através dos meus discos, vídeos, da minha obra, que se justificava este prémio, estou muito contente. Sinto-me o representante dos meus colegas e da música portuguesa em geral.

Ligaram-lhe muitos?

Muita gente me ligou, muitos colegas e amigos, incluindo o Carlos de Carmo, que também recebeu este prémio. Gostamos muito uns dos outros, somos muito ligados e, sobretudo, gostamos da boa música. Sou muito solidário com a música portuguesa, onde há pessoas muito talentosas, gente de uma enorme qualidade, Não estou a falar dos meninos ou meninas emergentes, que só pensam em vedetas, não pensam na poesia ou em qualidade.

Os talentosos têm o reconhecimento merecido?

O grande problema é que a rádio em Portugal passa má música estrangeira e a música portuguesa que passam é sofrível, em detrimento da boa música. Há programas de televisão que só dão meninos e meninas a cantar semi-vestidos, com uns a dançar igualmente, em que país vivemos? Era preciso substituir isso tudo por coisas positivas, úteis para a sociedade portuguesa.

Alguma vez sonhou em receber um Grammy?

A partir do momento em que o Carlos de Carmo ganhou este prémio, as pessoas que têm obra na música portuguesa são merecedoras. É um prémio ao mais alto nível, o Carlos do Carmo é uma pessoa completamente coerente e politicamente correto, no meu caso, ganhou uma pessoa completamente incoerente e politicamente incorreto, sou um artista, um poeta.

Um artista tem que ser incoerente?

Têm que continuar a caminhar, a andar, fazer o mundo andar, dizem que o sonho não vence, mas é preciso acreditar no sonho.

De que forma é que uma distinção internacional pode alterar a sua carreira?

Nenhuma, para já, tenho de cumprir os contratos e calendário, ainda tenho oito concertos para fazer, vou a Fronteira, no Alentejo, depois venho cantar ao Ribatejo, Penafiel, Porto Covo, eu sei lá.

Como é que se prepara para cumprir essa agenda?

Sinto-me cheio de força, não tenho problema nenhum, e a voz contínua impecável. Nunca fumei, nunca me droguei, não consumo coisas geladas, durmo a sesta, a minha mulher fez-me uma alimentação à base de vegetais, o que é ótimo.

Que idade tem?

Não sei, sei que comecei a fugir de casa e do colégio em 1957, para fazer música. No Bilhete de Identidade tenho 77 anos, Tenho boas cordas vocais, faço cuidado com a alimentação, mas agora [sábado ao jantar] vou à Cúria comer uma tagliatelle de marisco.

Vive na região, em Mogafores, Anadia, aí não é mais leitão?

É, mas estou farto de leitão, a massa é mais gulosa para mim.

Um Grammy não justifica um aumento de cachê?

Não me parece, somos cinco músicos, além dos técnicos, há uma equipa que me acompanha, tenho que garantir a continuidade do trabalho.

É um músico caro?

Levo metade do Rui Veloso e pago os meus impostos. Mas vou dizer-lhe uma coisa: sempre que dou um espetáculo numa vila ou numa cidade, ofereço um concerto grátis em solidariedade para com os bombeiros, faço isso entre outubro e março, depois começo a minha agenda. O ano passado contabilizei 27 concertos.

O que é que vem aí?

Vou lançar um álbum comemorativo deste Grammy e que se chama "Fados, fandangos, malhões e uma valsa", é um álbum de música popular.

Já surgiu depois de ter conhecimento do prémio?

Não, por coincidência tinha um álbum preparado, como tenho pronto um álbum de rock sinfónico, mas isso é para mais tarde. Vai sair já o primeiro single, que é um dueto com a Marisa Lins,"No meu fado há sempre um blue". Em outubro sai o álbum.

Vai levar uma grande comitiva para receber o prémio no Waldorf Astoria Las Vegas, dia 13 de novembro?

Não, para já, de certeza, só o Tozé Brito.