Johnny Hooker: "Ser LGBT no Brasil é assustador. O povo brasileiro é violento e ultraconservador"

O brasileiro John Donovan fez-se Johnny Hooker, músico e ativista LGBT que atua nesta sexta-feira no MusicBox, de onde segue para o Porto e para o festival Milhões de Festa, em Barcelos

Quem é Johnny Hooker, para quem David Bowie ou Caetano Veloso são referências taco a taco com a sua mãe (a artista Liz Donovan) ou a sua avó sertaneja? Quem é esta figura excêntrica no palco, vinda do Recife, ativista LGBT, que com a sua música desafia qualquer corpo à dança? Quem é ele que diz surgir "feito e forte feito um touro"?

É por essa expressão que começamos quando falamos ao telefone a propósito da sua vinda a Portugal, para atuar esta sexta-feira à noite no MusicBox, em Lisboa, já esgotado, mas onde regressa na terça-feira, depois de ter passado pela Casa das Artes no Porto no sábado, e pelo festival Milhões de Festa, em Barcelos, no dia seguinte.

"Feito e forte como um touro" é, aliás, a frase que surge por baixo do seu nome, no Whatsapp, aplicação que usamos para a entrevista. É também um verso da canção Touro, que abre o último disco de Hooker, Coração.

"É uma frase que a minha avó sempre falou para mim. Ela é do Sertão, nasceu numa cidade chamada Acari. Durante o processo de composição e gravação de Coração, eu enfrentei uma depressão grave, foi um momento bem obscuro da minha vida, e no momento mais escuro veio ela falando isso para mim: 'Firme e forte feito um touro, meu filho.' Então achei que era uma maneira bonita de abrir o disco com as palmas que tem na música, uma pulsação bem combativa. E começava o disco reafirmando o valor da vida, mesmo perante a tragédia. Minha tragédia pessoal e a tragédia do país que começa a entrar numa crise muito grande institucional, política e, porque não?, moral."

Já iremos ao Brasil, onde o Museu Nacional do Rio de Janeiro ardera no domingo, dois dias antes desta entrevista. Quanto ao nome, Johnny Hooker, o músico brasileiro chamado John Donovan conta que vem dos tempos de adolescência, fase punk e já com uma banda e visual "andrógeno", recorda. Na altura namorava com "uma garota super moderna, libertária" e que, como ele, admirava Bowie.

"Tem uma música do Bowie que se chama Moonage Daydream, e nos primeiros versos ele fala: I'll be a rock 'n' rollin' bitch for you. Eu lembro de a gente cantar essa letra se olhando nos olhos um do outro. Tive a compreensão de que o meu nome estava ali em algum lugar. Como a gente gostava também dos artistas punk, e todos eles tinham sobrenomes punks, fui no dicionário para ver os sinónimos. Johnny Bitch não ficava muito bem. Mas aí achei Hooker e achei que combinava com o que eu queria fazer, uma coisa meio punk, meio dúbia sexualmente", recorda.

"Amar nestes tempos é um ato político"

Coração é o sucessor do álbum Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!. Quando lhe perguntamos pela transição que está em causa entre um e outro, responde com uma "definição incrível" que lhe deram duas fãs que um dia encontrou na rua. "'O primeiro é para cortar os pulsos e o segundo é para costurar.' É justamente isso. O primeiro é essa coisa muito romântica, de entrega, dos amores que deram errado. O segundo é para combater tudo o que era tóxico. Tudo o que era nocivo nessas relações. Tem Flutua [canção com Liniker e os Caramelows] que, ao contrário das músicas do primeiro [disco], fala sobre a vitória do amor. Queria também falar sobre quando ele vence."

Falemos então do Brasil, já que para Hooker "amar nestes tempos - em qualquer tempo, mas principalmente neste - é um ato político, é um ato de transformação" e, por isso, "o momento político do país está sempre como subtexto das relações afetivas". Não é por acaso que o músico repetidamente chama a atenção para os números de cidadãos LGBT assassinados no seu país, onde em maio contavam-se 126 pessoas mortas, segundo um estudo realizado pelo Grupo Gay Bahia.

"O genocídio em relação às minorias é quase uma política de Estado. Ser LGBT no Brasil é assustador. O povo brasileiro é violento, autoritário e ultra conservador, apesar da imagem que a gente vende de liberdade, de Carnaval, de sol, de praia, gente pelada. Mas não tem nada disso. É um país extremamente racista, é o quinto país do mundo em feminicídios. É um país que tem um projeto de extermínio da juventude negra nas periferias. É bem assustador. Principalmente porque a gente agora nessas eleições está com a ameaça da vitória da extrema-direita."

Em relação ao incêndio que destruiu o palácio de D. João VI, Museu Nacional, Hooker diz-se "completamente arrasado" e liga-o à "falta de valorização da cultura" no país. "Há pessoas que demonizam leis de incentivo. Esses mesmos obscurantistas conservadores que usam a religião como a bandeira moral deles atacam as leis de incentivo à cultura, atacam os artistas, atacam as exposições de arte, convencem os seguidores deles que arte é nocivo, é perigoso", argumenta.

"António Variações tem uma obra maravilhosa"

Voltamos à música. Quando lhe perguntamos se lhe perguntamos se acha que a sua música está a dar voz a alguém, responde: "Sinto que o meu público é muito jovem. Junto com isso vem uma responsabilidade social muito grande de estar comunicando uma visão de mundo ou de falar sobre o amor para pessoas que são muito jovens. Acho muito bonito quando as pessoas se dizem representadas pela minha música ou pela minha postura no palco. Eu não venho sozinho. Há uma geração de artistas LGBT que estão aí discutindo essas coisas que precisamos de discutir urgentemente."

Sobre Portugal, onde hoje se prepara para subir ao palco do MusicBox, diz ser "muito fã de António Variações, que tem uma obra maravilhosa", e põe o autor de Canção do Engate na sua lista de artistas LGBT. De resto, diz que já lhe recomendaram ouvir Conan Osiris e tirar uma noite para ir ao Fado Bicha.

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