J.D. Salinger: o escritor que se escondia dos leitores e do mundo

Ficou na história com apenas um romance. Foi um dos soldados norte-americanos no Dia D, tornou-se amigo de Hemingway e quase só saía de casa por obrigação. J.D. Salinger nunca quis contar a sua vida - mas aí está mais um livro a fazê-lo.

Denis Demonpion, jornalista francês de 64 anos, com currículo acumulado no jornal Libération e nas revistas Paris Match, Le Point e Le Nouvel Observateur, assume sem complexos o desafio por livros "delicados", como Tapie-Sarkozy:Les Clefs du Scandale ou Le Dernier Tabou: Révélations sur la Santé des Presidents (ambos escritos em parceria com Laurent Léger), e por biografias não autorizadas, casos de Cécilia, la Face Cachéede l'Ex-Première Dame (também partilhado com Léger e abordando os passos menos expostos de Cécilia Ciganer, a segunda mulher de Nicolas Sarkozy, de quem este se terá separado em definitivo entre a primeira e a segunda volta das eleições presidenciais que o levaram ao Eliseu) e, sobretudo, de Houellebecq non Autorisé, obviamente publicado à revelia do "visado", um dos mais populares e controversos escritores franceses contemporâneos.

Mas porque surge aqui o "intermediário" antes do "protagonista"? Por uma razão simples: no caso de Jerome David - J.D. para quase toda a gente - Salinger (1919-2010), Demonpion visitou por duas vezes a casa do escritor norte-americano, no refúgio de Cornish, New Hampshire. Em vão: não foi recebido e não chegou à fala com o homem que fugia de todas as mundanidades e de quase todos os contactos sociais. Quando Salinger morreu, este seu primeiro biógrafo de outra língua trabalhava há dois anos no livro de que aqui se trata - precisou de mais oito para completar a tarefa e para o publicar.

Sejamos claros: J.D. fazia questão de se manter inacessível, um "alvo móvel" que, mesmo vivendo nos arredores de uma cidade discretíssima como Cornish, só deixava a casa e a propriedade circundante - onde praticou o seu autodidatismo agrícola - por razões de força maior.

Ficou célebre a sua fúria de homem alto, magro e impaciente, quando um paparazzo o fotografou à saída da estação de correios local. Tornou-se lendária a sua total indisponibilidade para entrevistas, com algumas, escassas exceções, sobretudo se a interlocutora fosse uma mulher bonita. Talvez isso ajude a explicar, podendo hoje registar-se uma dezena de biografias do autor, o motivo de quase todas elas terem data posterior à da morte do biografado.

Enviado à Europa pelo pai, que sonhava vir a contar com a ajuda de Jerome no negócio familiar, de carnes, apaixonou-se por Viena, acabando por deixar a Áustria poucos dias antes da chegada em força dos nazis

Há uma ressalva, também mítica: aquela que foi assinada por Ian Hamilton, num processo em que os advogados do escritor conseguiram levar até ao Supremo Tribunal norte-americano a tentativa de travar a edição, que acabou por concretizar-se mas só com o cumprimento da obrigatoriedade da mudança de título - chama-se In Search of [À Procura de] J.D. Salinger...

O maior golpe, para o recato obstinado do escritor, foi mesmo o perpetrado pela filha, Margaret, que traçou um retrato nada abonatório do pai em Dream Catcher [à letra: Caçador de Sonhos], levando a que até o irmão mais novo, Matthew, viesse a público esclarecer que as suas recordações de infância e juventude eram completamente diferentes e pondo a hipótese de estar envolvida uma desforra da irmã por não ter conseguido que J.D. se dignasse estar presente quando ela atravessou o trabalho de parto...

Da guerra para o isolamento

Demonpion é minucioso na reconstituição da porção da vida do homem que escreveu The Catcher in the Rye (entre nós, o livro já recebeu dois títulos diferentes, Uma Agulha num Palheiro e À Espera no Centeio), precisamente aquela que foi mais partilhada e testemunhada por terceiros.

Ficamos a saber que Salinger foi sempre um aluno mediano, inteligente mas pouco empenhado, exceto na disciplina que o apaixonava - a que dizia respeito à sua língua, tal como acontece com Holden Caulfield, o protagonista e narrador do seu único romance. Enviado à Europa pelo pai, que sonhava vir a contar com a ajuda de Jerome no negócio familiar, de carnes, apaixonou-se por Viena, acabando por deixar a Áustria poucos dias antes da chegada em força dos nazis.

Manteve um recatado romance com Oona O"Neill, filha do dramaturgo Eugene O"Neill, seis anos mais nova, até esta trocar Manhattan por Hollywood, Califórnia. E por trocá-lo a ele a favor de Charles Chaplin, 36 anos mais velho

No entanto, de regresso aos Estados Unidos e a Nova Iorque, onde nasceu, Salinger já tinha o destino definido: inspirado por Dostoiévski e Faulkner, mas sobretudo por Tolstói e Scott Fitzgerald, queria escrever. Inscreveu-se num curso de escrita, ministrado por Whit Burnett, editor da revista literária Story, que haveria de tornar-se a primeira pessoa a editá-lo.

Manteve um recatado romance com Oona O'Neill, filha do dramaturgo Eugene O'Neill, seis anos mais nova, até esta trocar Manhattan por Hollywood, Califórnia. E por trocá-lo a ele a favor de Charles Chaplin, 36 anos mais velho. O desprezo anunciado de J.D. por Hollywood (apesar de se descobrir que tinha em casa uma enorme coleção de cópias de filmes em 16 mm) pode ter nascido aí, acabando por impedir que os direitos de The Catcher in the Rye alguma vez chegassem às mãos de uma produtora da sétima arte. Um dos grandes realizadores de Hollywood, Elia Kazan (Há Lodo no Cais, A Leste do Paraíso, Esplendor na Relva) chegou a apresentar-se em sua casa mas, assim que se apresentou, viu a porta fechar-se-lhe na cara...

Participou no dia D, sendo um dos homens que desembarcou em Utah Beach. Daí acabou por seguir o movimento das tropas até à Alemanha e até ao momento da rendição dos sobreviventes do exército de Hitler

Salinger, que frequentou na adolescência uma academia militar, viu os Estados Unidos entrarem na II Guerra Mundial, depois do ataque japonês a Pearl Harbour. Por essa altura, o seu nome começava a marcar pontos, com contos publicados em suplementos literários de jornais, bem como na Vanity Fair, na GQ e na prestigiada The New Yorker. Tal não o impediu de sentir o apelo da pátria, acabando - em função de alguns problemas físicos - por ter de recorrer a conhecimentos para conseguir alistar-se.

Deu formação e acabou por ser encaixado nos serviços de informação. Mobilizado para Inglaterra, assistiu à morte de centenas de recrutas durante os ensaios para o desembarque na Normandia. Participou no Dia D, sendo um dos homens que desembarcaram em Utah Beach. Daí acabou por seguir o movimento das tropas até à Alemanha e até ao momento da rendição dos sobreviventes do exército de Hitler. Esteve internado com uma depressão (hoje, chamar-se-ia "stress pós-traumático"), até ao regresso à vida civil.

Quando voltou à sua terra, estava casado com Sylvia Welter, uma alemã. O matrimónio resistiria pouco tempo. Cada vez mais interessado no budismo e nas religiões orientais, tinha iniciado uma amizade com Ernest Hemingway, durante o conflito na Europa, mas não há notícia de contactos posteriores. Do segundo casamento, com Claire Douglas, uma estudante, nasceram os seus dois filhos.

Até hoje, especula-se sobre as dezenas de manuscritos inéditos que poderá ter deixado no bunker que montou num anexo à casa de Cornish, para se isolar - milagrosamente, foi a única parte da mansão que sobreviveu a um incêndio

Por esta altura, Salinger era já o autor consagrado de The Catcher in the Rye, êxito fulgurante no seu país, romance obrigatório em muitos currículos académicos, com vendas hoje estimadas acima da fasquia dos 35 milhões de exemplares. Originalmente publicado por capítulos na The New Yorker, em 1945-46, transformou-se em livro em 1951. Antes e depois, Salinger - que, ocasionalmente, chegou a assinar crítica literária - ficou-se sempre pelos contos. E de 1965 até à morte, em 2010, não editou uma linha, mais ocupado na defesa da sua privacidade e em complicar a vida aos editores.

Quando Claire se cansou da vida de reclusão quase monástica em Cornish, Salinger manteve uma ligação com a escritora Joyce Maynard, que não seria nada simpática quando recordou o caso, apontado um homem cheio de manias, de rituais e de preconceitos. J.D. ainda casou uma terceira vez, com Colleen O'Neill, que com ele se manteve até ao fim, numa fase em que o escritor já estava completamente surdo e em que a sua mobilidade se degradara muito, depois de ter partido uma anca. Até hoje, especula-se sobre as dezenas de manuscritos inéditos que poderá ter deixado no bunker que montou num anexo à casa de Cornish, para se isolar - milagrosamente, foi a única parte da mansão que sobreviveu a um incêndio. Mas, por agora, nem a viúva, Colleen, nem o filho, Matthew, deram notícias sobre o assunto.

Com pormenores e com uma pesquisa exaustiva, é tudo isto que Demonpion nos conta sobre J.D. Salinger, a quem a maioria das pessoas e quase tudo o que se passava no mundo parece ter deixado de interessar. Apesar do título, Salinger Intime, não há devassa, mas investigação. De resto, esta biografia ganhou o prémio Goncourt da especialidade. E isso não é para todos.

Salinger Intime

Denis Demonpion

Ed. Robert Laffont

400 páginas

PVP: 21€ (www.amazon.fr)

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