"Israel está a ficar um lugar muito obscuro"

Venceu o Urso de Ouro, fechou o IndieLisboa e no último Curtas foi o realizador homenageado. Nadav Lapid, cineasta de Sinónimos, é o cineasta do momento. Um choque a chegar aos cinemas portugueses esta quinta-feira.

Um objeto de cinema para dividir. Sentado na Culturgest, o realizador Nadad Lapid, está muito sorridente. Pergunta se em Portugal os jornalistas também estão divididos com Sinónimos, o filme que encerrou o IndieLisboa e que em Berlim venceu o Urso de Ouro. Nadav sabe que na provocação está o ganho. Neste seu primeiro filme "francês", encena uma história de um complexo israelita: o que é isso de ser patriota numa Israel de hoje?

Yoav é um jovem israelita que chega a Paris para fugir do peso de ser israelita. Quer esquecer o seu país, a sua identidade e a sua língua. Mas quer trazer as suas histórias para esta França. Porém, faltam-lhe as palavras. Palavras da ira que são encontradas através da um dicionário de sinónimos e contextualizadas por intermédio de uma relação a três com um casal de jovens parisienses.

Depois de Kindergarden Kitchen, o cinema de Nadav Lapid ganha a aclamação: "Se esperava o Urso de Ouro, em Berlim? Digamos apenas que tinha a noção que este era um filme ambicioso, que poderia criar reações fortes a quem gostasse. Mas nunca poderia ter ideias pré-concebidas de como a Juliette Binoche [Presidente do Júri] iria reagir". E já se sabe que reagiu com amor. O bom gosto da atriz francesa e dos seus colegas do júri foi guilhotina afiada para uma facção de "haters" que não se deram bem com o lado "performático" do filme e com uma sensualidade fresquíssima.

"Sinónimos não é um filme de choque como os outros, não tem a ver com o conteúdo. Quando filmo um tipo nas ruas de Paris a murmurar sinónimos estou a arriscar - poderia ser monótono. Mas tentei que fosse um momento existencialista". As palavras são de um realizador que não tem medo de ser "persona non grata" no seu país e que vai avisando que o próximo filme será todo filmado em Israel sem dinheiro local, apenas francês.

Nadad Lapid está disposto a ser um cineasta contra-regime. Mas se Sinónimos tem toques de crónica existencialista, tem também fulgor de manifesto filosófico, político e cinéfilo. Cinéfilo, sim, sobretudo quando brinca com códigos de cinema da "nouvelle vague", mas sempre com energia nova.

Tal como a mágoa patriótica da sua personagem Yoav, Nadav não tem palavras meigas para os governantes do seu país: "o governo atual não quer saber de Ursos de Ouro e está-se nas tintas para as opiniões do exterior. Só querem saber dos seus votantes, a maioria. Israel está a ficar um lugar muito obscuro e o que é mais obscuro mesmo é que as pessoas pensam que estão num país normal".

Qual então o grande problema agora em Israel? "Curiosamente, até julgo que o problema está para além da constelação política. É algo bastante mais profundo, tem a ver com a alma coletiva". Talvez por isso, o cineasta confesse que há realmente muitos pontos comuns entre ele e o seu jovem herói, quanto mais não seja porque houve uma altura na sua vida em que comia massa instantânea barata todos os dias e também, quando viveu em Paris, teve uma obsessão complexa com a língua de Moliére.

Mas este jovem israelita que recusa o complexo judeu é seguramente pensado para aludir a uma nova geração de compatriotas de Nadav: "sim, tenho a certeza que Sinónimos torna-se mais relevante para o pessoal mais jovem. Tenho tido reações da geração a seguir à minha fortíssimas! Há muitos jovens que estão alienados com a sua condição israelita, mas, ao mesmo tempo, continuam a ter laços muito fortes. Um jovem israelita no estrangeiro sente-se perdido".

Feliz por estar em Portugal, terra onde tem amigos como os cineastas Miguel Gomes ou João Pedro Rodrigues e onde também vê pontos de contacto com a sua Israel, deixa uma declaração de princípios: "para mim, agora, depois do Urso de Ouro, o que é importante é não ficar institucionalizado e fazer o filme mais imprevisível possível. Supostamente estou corrompido com o Urso de Ouro mas vou surpreender todos".

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