Uma cantora punk à beira de um ataque de nervos

Elisabeth Moss distingue-se na interpretação de uma cantora punk em acelerada decomposição física e emocional: Her Smell - A Música nas Veias é uma das mais belas proezas da recente produção independente americana.

Não há dúvida que a americana Elisabeth Moss é uma atriz que arrisca e sabe arriscar. Conhecida, sobretudo, através de duas séries televisivas (Mad Men e A História de uma Serva), vai pontuando a sua atividade com projetos de cinema mais ou menos independentes, procurando personagens diferentes, imprevisíveis e fascinantes. Assim acontece em Her Smell, lançado com o subtítulo português A Música nas Veias, projeto que abraçou, por certo, com especial empenho, já que o seu nome surge na ficha técnica também com as funções de produtora.

Dir-se-ia que Her Smelltinha tudo para correr mal. Porquê? Porque este retrato de uma cantora de uma banda punk, em meados da década de 90, poderia facilmente ceder ao cliché dramático da vida artística assombrada pela decomposição familiar e pelo consumo de drogas...

Claro que tudo isso está no filme, aliás com uma contundência (muito física) que vai contaminando todas as situações, não poucas vezes atravessadas por uma perturbante violência emocional. Becky, a personagem interpretada por Moss, vive, de facto, todos os momentos da sua existência à beira de um ataque de nervos - e desta vez a expressão não tem nada de irónico.

Acontece que a realização de Alex Ross Perry, também responsável pelo argumento original, se interessa, de facto, pelas personagens. Aliás, a sua estratégia narrativa é, também ela, arriscada, emprestando a Her Smell uma invulgar respiração emocional.

O filme está dividido em cinco capítulos, separados por breves extratos de vídeos caseiros. Nas imagens desses vídeos encontramos sinais de uma felicidade algo burlesca que tudo o resto vais desmentir. Cada um dos capítulos é encenado em continuidade (por exemplo, nos bastidores de um concerto ou num estúdio de gravação) através de uma invulgar gestão do tempo: as ações prolongam-se de forma inusitada e, em última instância, Becky revela-se como alguém que perdeu o controlo sobre as durações (profissionais e afetivas) de toda a sua vida.

Num mundo ideal (?), daqui a meia dúzia de meses, a performance de Elisabeth surgiria, por certo, na lista das grandes candidatas a uma nomeação para um Óscar... Mas não tenhamos ilusões. Her Smell foi um enorme falhanço comercial nas salas dos EUA e as contas do "box office" raramente são estranhas aos alinhamentos da chamada temporada de prémios.

Enfim, o filme não será "melhor" nem "pior" por ter (ou não ter) prémios. Seria apenas triste que os espectadores potenciais, por certo marcados pelo ruído das campanhas em torno de super-heróis & afins, nem sequer tomassem conhecimento da presença de Her Smell nas salas escuras. Apesar da sua pequenez de produção e das suas fraquezas promocionais, estamos perante um dos melhores filmes desta temporada de verão.

* * * * Muito bom

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