O Robin dos Bosques da medicina portuguesa

Eis um feliz documentário, realizado por uma francesa, a olhar o fenómeno da devoção religiosa em torno do célebre médico português do século XIX. Em estreia.

Em frente à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, no Campo Mártires da Pátria, há uma estátua envolta de ex-votos e flores, frequentemente visitada por crentes que se benzem, ajoelham, murmuram orações ou acendem velas para fazer pedidos. Nessa imagem de pedra está representado José Tomás de Sousa Martins (1843-1897), o ilustre médico português que pela sua ação humanista, e reconhecimento dos seus pares, se tornou uma personalidade de culto religioso popular.

É dessa figura, a inspirar veneração em plena paisagem urbana, que parte o documentário Sousa Martins, da francesa Justine Lemahieu, uma estrangeira que se sente atraída pelo fenómeno quotidiano, descoberto há dez anos, quando chegou ao bairro lisboeta. Mas para responder à pergunta elementar "Quem és tu, Sousa Martins?", a realizadora não se limitou a compilar detalhes biográficos do médico, no mais comum e didático escrutínio histórico - isso seria, muito provavelmente, um exercício redutor. Na verdade, o retrato deste protagonista chega-nos através de um percurso que explora algo mais essencial, a saber, os aspetos de uma filosofia religiosa não enquadrada pela Igreja, que vai até terras de Espanha, e segue pelas margens do Tejo com destino a Alhandra, onde nasceu e está sepultado Sousa Martins.

Ao sair do perímetro do monumento, Lemahieu dá pavio à curiosidade pessoal e procura respostas tanto junto de especialistas, que fazem o elogio fundamentado ao profissional e ao homem, como das pessoas devotas - desde o mais comum cidadão ao curandeiro. E nesta sugestiva e recheada viagem, que se deixa contagiar até certo ponto pelo enigma espiritual, não escapa nada à câmara da realizadora: as inscrições nas lápides, a memorabilia exaustiva, o fervor dos crentes, a (por vezes extravagante) vertente comercial do culto e, acima de tudo, esta peculiar contaminação entre os caminhos da fé e o domínio da ciência. Como imaginar que um médico ateu, que se suicidou aos 54 anos, seria convertido num santo?

Há quem diga que a própria morte prematura, na sequência de um estado avançado de tuberculose, lhe aumentou ainda mais a aura. Mas basta que ele tenha sido o "Robin dos Bosques" da medicina portuguesa - tendo trabalhado sobretudo no serviço de urgência e na enfermaria, em prol dos mais desfavorecidos - para se perceber um pouco a origem desta devoção popular que foi crescendo ao longo do tempo, permitindo comparações com a devoção por Nossa Senhora de Fátima... Não é por acaso que vários dos crentes deste médico são também da Virgem Maria. Fé e cura andam aqui de mãos dadas.

Na sua aturada pesquisa antropológica, o olhar de Lemahieu é sereno e respeitador, intimista (num tom epistolar) e sóbrio. Forja um discreto diálogo com a memória de Sousa Martins, ao mesmo tempo que sonda as emoções populares, com genuína atenção às palavras daqueles que vivem intensamente uma fé pagã. E nessa leitura delicada de uma certa realidade portuguesa, o documentário reveste-se de uma maturidade mais do que apreciável, contornando os clichés televisivos que muitas vezes assombram esta natureza de trabalhos.

*** Bom