ESTREIAS: o realismo de Mike Leigh está de volta às salas portuguesas

Mike Leigh está em destaque através da retrospectiva que o LEFFEST lhe dedica e também da reposição do filme que, em 1996, lhe valeu uma Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A 12ª edição do LEFFEST (16-25 Nov.) traz consigo uma retrospetiva de Mike Leigh, um dos mais importantes herdeiros do realismo britânico, com ecos no mercado da exibição. Isto porque um dos seus melhores filmes, Segredos e Mentiras (Palma de Ouro de Cannes em 1996), vai ser reposto nas salas escuras - um desencantado retrato das relações familiares apoiado, como sempre, numa sofisticada direção de atores (Brenda Blethyn foi também premiada em Cannes).

Nas estreias, Utoya, 22 de Julho, produção norueguesa com assinatura de Erik Poppe, evoca o massacre de 2011 perpetrado por Anders Breivik na ilha de Utoya. Esta é também a semana em que a Netflix propõe mais uma novidade 100% cinematográfica: chama-se A Balada de Buster Scruggs, uma antologia de seis histórias do velho Oeste em cujo elenco encontramos, entre outros, Liam Neeson, James Franco e Tom Waits.

VIÚVAS - É um dos grandes acontecimentos dos últimos meses e não será arriscado supor que o novo filme do inglês Steve McQueen ("oscarizado" em 2014 com 12 Anos Escravo) irá surgir com especial evidência na temporada de prémios que se avizinha. Desde logo, porque se distingue por um elenco invulgarmente talentoso em que encontramos os nomes de Viola Davis, Michelle Rodriguez e Liam Neeson, sem esquecer o veteraníssimo Robert Duvall; mas também porque na sua base está um brilhante trabalho de argumento, inspirado numa série televisiva da década de 80, com assinatura do próprio McQueen e Gillian Flynn (a escritora de Parte Incerta que, em 2014, deu origem ao filme homónimo de David Fincher). Viúvas é um "thriller" no feminino, espantoso pela complexidade da ação física e psicológica, mas sobretudo pela capacidade de colocar em cena uma bizarra teia de relações humanas assombrada pelas convulsões (não muito transparentes...) da cena política de Chicago.

HISTÓRIAS DE UMA VIDA - Longe de ser um grande filme, esta nova realização do francês Jean Becker (autor de Conversas com o Meu Jardineiro) aposta num registo histórico que vale a pena destacar. Trata-se de revisitar memórias da Primeira Guerra Mundial (1914-18) a partir da experiência de um oficial, interpretando pelo sempre subtil François Cluzet, que investiga um caso de traição à pátria. Infelizmente, as relações presente/passado são tratadas através de uma narrativa esquemática, marcada por uma montagem banalmente académica. Seja como for, tal como já aconteceu com o segundo conflito mundial (1939-45), parece haver uma curiosa disponibilidade para recuperar os sinais da Grande Guerra, essa guerra que foi travada "para acabar com todas as guerras"...

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