ESTREIAS: Cinema evoca Marie Colvin, figura lendária do jornalismo

Rosamund Pike interpreta a jornalista Marie Colvin em Uma Guerra Pessoal, uma das estreias em destaque numa semana em que chega também às salas escuras a Palma de Ouro de Cannes.

Ao longo das décadas, a atividade dos jornalistas tem servido de tema a muitos filmes que, entre o realismo e a parábola, tentam dar conta das singularidades (por vezes, dos perigos) desse trabalho de procurar, elaborar e transmitir notícias. Esta semana, surge nas salas portuguesas um filme que evoca uma figura lendária do jornalismo e, muito em particular, da reportagem de guerra: Marie Colvin (1956-2012), americana que se distinguiu em Inglaterra, como repórter de The Sunday Times, tendo falecido durante uma das suas missões, em Homs, na Síria.

UMA GUERRA PESSOAL - O título correto seria Uma Guerra Privada, respeitando o original A Private War. Tem a ver, aliás, com o título do artigo de Marie Brenner, "Marie Colvin"s Private War", publicado na revista Vanity Fair, em Agosto de 2012, cerca de seis meses depois da morte de Colvin (artigo que serviu de base ao argumento do filme).

É pena que a realização de Matthew Heineman não tenha ideias muito claras sobre os modos de articulação entre o retrato íntimo (privado, justamente) e o fresco histórico (as várias zonas de combate que Colvin visitou ao longo da sua vida profissional). Seja como for, registe-se a preocupação de dar a ver o labor jornalístico para além dos clichés de um "heroísmo" pueril e, sobretudo, a intensa composição da personagem de Colvin por Rosamund Pike.

SHOPLIFTERS - UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES - Desta vez, não nos podemos queixar de grandes atrasos em relação à programação do Festival de Cannes: aí está o filme que, no passado mês de Maio, ganhou a Palma de Ouro, confirmando Hirokazu Koreeda como o mais internacional dos cineastas japoneses. Shoplifters faz o retrato, delicado e comovente, de uma família marginal que vive de pequenos roubos...

SUSPIRIA - Não seria fácil encontrar uma boa solução para revisitar a herança de Suspiria, de Dario Argento, referência de culto de um certo cinema de terror com data de 1977. Pois bem, Luca Guadagnino, o brilhante autor de Chama-me pelo Teu Nome (2017), mostra-se à altura da tarefa, fazendo um filme que tem tanto de celebração circense como de fábula cruel sobre os caminhos do Mal. Com Dakota Johnson no papel central, sóbria e subtil, bem longe das tristes vulgaridades de 50 Sombras de Grey.

GRINCH - Cinema de Natal ou para o Natal? É verdade: faz parte da tradição ou, pelo menos, das regras do mercado começarem a aparecer, por esta altura, as propostas "natalícias". Convenhamos que esta adaptação em desenhos animados do clássico de Dr. Seuss está longe de ser empolgante, de tal modo se instala num registo em que o sabor da história original se dilui na "obrigação" de fabricar uma sucessão de pequenas proezas visuais. Seja como for, registe-se a sofisticada competência técnica, a confirmar que os estúdios Illumination (dos geniais Mínimos) estão na linha da frente da animação cinematográfica.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?