Estamos tramados com esta comédia à #MeToo!

O Espião que me Tramou, de Susanna Fogel, chega aos cinemas portugueses esta semana. Mila Kunis e Kate McKinnon numa comédia de espionagem que tenta ter humor feminino. Tem sim humor parolo

Chegámos a este estado de coisas...Uma comédia de ação que não funciona no combustível do humor e muito menos na adrenalina da ação. O Espião que me Tramou é apenas um pretexto para criar uma sátira de espionagem com protagonistas femininas, literalmente em jeito de veículo a reboque de uma promoção e aproveitamento do contexto de todos os movimentos de cariz feministas como o MeToo. O típico oportunismo rápido e mal amanhado de Hollywood para ir na crista da onda.

Mas, além de nunca nos conseguirmos rir, o discurso de empoderamento feminino aqui é tão débil e oco que choca com a própria tontice do projeto. Claro que é óptimo termos filmes de espiões com super-agentes do sexo feminino, mas quando esses filmes acabam por não ter uma verdadeira perspectiva feminina nem um registo para além das temáticas ligeiras como cumplicidade "entre gajas", o efeito é ao contrário. Mila Kunis e Kate McKinnon não têm material para conjugar os seus carismas e tudo é feito num piloto automático sem verdadeiro perfume feminino. Dá a ideia de que é daqueles filmes pensados por machões executivos de estúdio para ser um projeto de mulheres para um público masculino.

A intriga anda à volta de uma jovem de 30 anos, Audrey (Milla Kunis), que descobre que o seu namorado é um agente secreto envolvido numa missão que envolve os serviços secretos ingleses. Antes dele morrer, Audrey acaba por ficar com uma estatueta que possui informação privilegiada. Ela e a sua melhor amiga, sem perceberem muito bem como, vêem-se em Viena a serem perseguidas pelo MI6 e pelos piores vilões do mundo da espionagem. Sobrevivem de forma rocambolesca e, num abrir e fechar de olhos, a segurança do mundo livre estás nas suas mãos caso não sejam executados por uma letal assassina de leste que as persegue entre Praga, Paris e Berlim. Uma "eurotrip" cheia de perseguições de carros, mortes acidentais e equívocos, cada qual mais inverosímil que o outro.

Com um programa estético e moral onde se apenas salienta a estupidez americana na velha Europa, o filme apenas tem um gague aproveitável, quando Edward Snowden é metido ao barulho. Dá apenas para sorrir, mas de resto todo o convencionalismo do guião acaba por se vertebrar numa monotonia muito cansativa.

Além do mais, a sensibilidade feminina da realizadora Susanna Fogel é "poker face" no caderno de intenções. É culpa do tom da sua direção um certo histerismo que se instala, muitas vezes originado pela parvoíce pegada da brincadeira à Missão Impossível. Aliás, Fogel deveria ter percebido que quando estamos na peugada da sátira nunca resulta o rebordo infantil do estilo de comicidade.

The Spy who Dumped Me é mau cinema de entretenimento, um dos barretes deste verão.

1 estrelas

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