Espólio não literário de José Cardoso Pires doado à Torre do Tombo

Do espólio doado fazem parte publicações como "O Cacete" ou o Movimento de Unidade Democrática--Juvenil.

Os familiares de José Cardoso Pires doaram ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), em Lisboa, um espólio não literário do escritor, que inclui cópias de autos da polícia política do Estado Novo e fotografias, entre outros documentos.

O diretor do ANTT, Silvestre Lacerda, em entrevista à agência Lusa, disse que, na sequência de uma exposição ali realizada no ano passado, alusiva aos 20 anos da morte do autor de "Balada das Praia dos Cães", a família entregou os seus dossiês de estudo.

"A família entregou-nos os dossiês de estudo, porque os dossiês e os manuscritos literários estão na Biblioteca Nacional de Portugal", disse Lacerda.

Do espólio doado fazem parte publicações como O Cacete ou oMovimento de Unidade Democrática--Juvenil, o comunicado da morte do estudante universitário de Direito José Ribeiro dos Santos, emitido a 12 de outubro de 1972, que acusa os agentes da PIDE de assassinato.

O espólio inclui ainda cartazes como o da Queima das Fitas, em Coimbra, em maio de 1969, em ambiente de luto académico, como assinala a tarja preta, ou uma carta enviada ao então Presidente da República, defendendo maior liberdade de expressão e contra a apreensão de obras literárias.

A carta, em forma de abaixo-assinado, enviada ao então chefe do Estado, Américo Thomaz, datada de 27 de janeiro de 1967, conta com as assinaturas, entre outros, de intelectuais como João José Cochofel, Carlos Oliveira, Rui Grácio, Raul Rego, José Gomes Ferreira e Augusto Abelaira, além da de José Cardoso Pires (1925-1998).

A documentação doada inclui fotografias, nomeadamente da prisão do então diretor da PIDE, Silva Pais, e vários manuais da escola técnica daquela polícia, que foram oferecidos a Cardoso Pires no âmbito de uma visita de escritores, em maio de 1974, às instalações centrais da PIDE, em Lisboa.

Bilhetes de espetáculos, recortes que ilustram a censura prévia feita à imprensa e a todas as publicações, a cópia do relatório da morte do artista plástico José Dias Coelho (1923-1961), que era funcionário do PCP, na clandestinidade, e foi assassinado numa rua de Lisboa, fazem parte do conjunto entregue.

Entre outros documentos, contam-se também partes do processo judicial que levou à deportação de Mário Soares (1924-2017) para a ilha de S. Tomé.

Os dossiês, devidamente catalogados e identificados pelo escritor, reúnem documentação que Cardoso Pires poderia vir a utilizar num trabalho literário ou jornalístico, alvitrou Silvestre Lacerda.

"Trata-se de documentação que ele estava a recolher para, eventualmente, a sua atividade criativa ou jornalística", disse Silvestre Lacerda, considerando que o escritor "estaria a preparar um trabalho grande sobre a PIDE".

Entre a documentação, recebida em junho passado, o diretor do ANTT destacou um "conjunto de recortes, um dossiê de imprensa, que claramente evidencia que estava a preparar um trabalho mais alargado sobre a polícia política".

A documentação entregue pela família de Cardoso Pires inclui um dossiê sobre a Frente de Ação Popular (FAP), que foi fundada, em 1964, por Francisco Martins Rodrigues (1927-2008), em Paris, e que inclui nomes como Rui d'Espinay (1942-2016) e João Pulido Valente (1926-2003).

Além desta doação, no ano passado, o ANTT incorporou no seu espólio, por aquisição, um conjunto de 340 desenhos de cartoonistas e ilustradores portugueses, nomeadamente, Jorge Rosa, José Ruy, José Antunes, J. Godinho, Agostinho (ou Vasco), Carlos F. Mendes, Armando Anjos, Santal, Oliveira Pinto, Manel, J. Gomes, João Vieira, Sampaio (ou Asa), Arlindo Vicente e Mário Oliveira, e inclui ainda 97 desenhos não assinados da década de 1950.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

O Banco de Portugal está preso a uma história que tem de reconhecer para mudar

Tem custado ao Banco de Portugal adaptar-se ao quadro institucional decorrente da criação do euro. A melhor prova disso é a fraca capacidade de intervir no ordenamento do sistema bancário nacional. As necessárias decisões acontecem quase sempre tarde, de forma pouco consistente e com escasso escrutínio público. Como se pode alterar esta situação, dentro dos limites impostos pelas regras da zona euro, em que os bancos centrais nacionais respondem sobretudo ao BCE? A resposta é difícil, mas ajuda compreender e reconhecer melhor o problema.