Em Vila Franca nasceu uma Figura: Francisco Palha

Miguel Ortega Cláudio faz a crónica da corrida do Colete Encarnado deste ano, em Vila Franca, marcada pela dureza dos toiros Palha

A corrida do Colete Encarnado 2018 ficou marcada pela dureza dos toiros Palha daqueles que não dão facilidade, pedem contas e com os quais os triunfos tem outra transcendência. Impactante triunfo de Francisco Palha e grande valor do matador Nuno Casquinha.

Os toiros Palha lidados no passado domingo não foram peras doces... Com arrancadas perigosas, muito orientados, os de cavalo pouco ou nada humilharam nos capotes e no momento do ferro derrotavam alto. Os de pé bonitos de tipo, exceção feita ao sexto mais feio, foram todos de mais a menos prometendo boas faenas mas rapidamente se orientavam e repunham num palmo de terreno, muito mirões e difíceis.

Francisco Palha vive, sem dúvida alguma, o seu momento, a sua hora! Depois do enorme triunfo de Coruche, desta vez foi na Palha Blanco. Esta a atingir esta temporada o mais alto dos patamares, a glória, está para "ganhar" a qualquer um, está bem montado e moralizado, vai a qualquer praça para triunfar e não deixar um único espectador indiferente.

Palha está aquilo a que se pode chamar uma verdadeira figura do toureio. A sua atuação a sós foi daquelas que criam um verdadeiro alvoroço nas bancadas, ninguém ficou indiferente ao que se passou durante a sua lide. O público levantou-se, como que impelido por uma mola, a cada ferro. Francisco arriscou, em terrenos de enorme compromisso e quase sem saída possível (uma das vezes sendo mesmo desmontado do cavalo pelo toiro), cravando ferros impressionantes pelo risco corrido, pareciam impossíveis de cravar. Excedeu-se, inspirou-se, esteve brutal. Foi uma lide de afirmação! Nasceu uma Figura do toureio a cavalo meus senhores.

Luís Rouxinol voltou a proporcionar-nos uma lide séria, deliciou os presentes com um toureio de grande proximidade, de brega preciosas e remates poderosos e com maestria na eleição dos terrenos e na cravagem dos ferros, dois deles de frente e a marcar bem todos os tempos da sorte.

Abriu a corrida uma lide a duo na qual Luís Rouxinol e Francisco Palha rubricaram uma boa atuação acima de tudo pela forma como deram a volta a um toiro difícil que tiveram por diante. Estiveram entrosados e agradaram o público presente.

O saber de Pepe Moral e o querer de Nuno Casquinha estiveram ontem em contraste na corrida mista do Colete Encarnado - onde os toureiros a pé estavam em clara vantagem em relação aos cavaleiros, lidando dois toiros cada.

No primeiro toiro, que foi perdendo a investida, a faena foi de "mais a menos" Pepe Moral esteve digno, com imenso ofício e muita entrega. Dá sempre gosto ver um toureiro como este. Quer ser, já mostrou que vai ser, um toureiro de arte. É bonito com o capote e profundo com a muleta. Enquanto durou o toiro podemos ver todo o seu sentimento e toda a sua arte, toda a beleza do seu toureio. Moral é um "estilista" e um toureiro de bom gosto.

O seu segundo toiro permitiu-lhe apenas estar bem. Teve poderio, técnica e pundonor, o que lhe permitiu o Palha... o toiro cedo se parou. Moral sacou-lhe os passes à custa de muita entrega, de lhe pisar os terrenos com valor, sendo por isso justamente aplaudido pelo público.

Nuno Casquinha teve duas boas faenas, demonstrou a sua versatilidade de toureiro completo, toureou com elegantes verónicas, poderoso com as bandarilhas, profundo com a muleta. O seu primeiro toiro, bom exemplar da ganadaria Palha, Casquinha toureou-o com arte e com saber, demonstrando, apesar de pouco tourear, estar placeado e preparado para o que der e vier. Faena esforçada, mas com bons apontamentos, que o público reconheceu e aplaudiu.

O seu segundo parecia que ia ser de triunfo gordo mas ficou só pelo parecer... Após as bandarilhas que compartiu com Pedro Gonçalves, o toiro ainda investiu com raça e codícia em duas séries de muletazos, uma pela direita e outra ao natural. Mas o toiro começou a defender-se, a ficar a meio dos passes e o matador teve de tragar, de colocar a "carne no assador" e sacar-lhe os muletazos com muita garra e entrega. Boa tarde de Nuno Casquinha em Vila Franca.

Pegas difíceis

Os valentes Forcados dos Amadores de Vila Franca não tiveram domingo tarefa nada fácil com os toiros Palha que lhes deram água pela barba.

Rui Godinho citou muito bem e recuou até que pode mas o toiro no primeiro derrote projetando-o, colhendo o forcado com alguma gravidade. A dobrar o forcado magoado saltou à arena Francisco Faria que enfrentou com alma as duras acometidas do toiro, derrotes e mais derrotes. Só à terceira, com as ajudas carregadas, o brioso forcado conseguiu consumar a pega.

Bruno Tavares fez a sua despedida como forcado, saltou para a cara do quarto e à primeira tentativa resolveu a difícil papeleta com coragem e saber.

Para o terceiro saltou à arena Ricardo Canário, um jovem valor que se vem afirmando e voltou a confirmar todo o seu brio. Na primeira tentativa o toiro derrotou ao nível da cabeça volteando o forcado de forma aparatosa. Na segunda tentativa foi de vez e arrancou uma boa pega. Fechou-se que nem uma lapa, aguentou todos os violentos derrotes até mais não poder mas o grupo ajudou e a pega foi concretizada de forma brilhante.

Dirigiu a corrida João Cantinho assessorado pelo veterinário Moreira da Silva.

Síntese da corrida

Toiros: Palha desiguais de tipo e apresentação. De comportamento difícil, com muita mobilidade e a menos. Destaque para o bom terceiro. O maioral foi chamado à praça depois da lide do quinto toiro.

Cavaleiros: Luís Rouxinol (Volta e Volta); Francisco Palha ( Volta e Duas Voltas)

Matadores: Pepe Moral ( Volta e Palmas); Nuno Casquinha (Volta e Volta)

Forcados Amadores: Vila Franca - Francisco Faria (Volta); Bruno Távares (Duas Voltas); Ricardo Canário (Volta com chamada aos médios).

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros.

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