E nasceu um toureiro!

Miguel Ortega Cláudio faz a crónica da corrida de São Pedro, em Évora, na última sexta-feira, numa noite de grandes figuras

A praça encheu - cheia, mesmo, como sempre no São Pedro em Évora. O ambiente era bom, mas a tourada da passada sexta-feira, dia 29 de Junho, foi uma total e completa deceção. Não faz sentido que a primeira figura mundial do rejoneio venha a Évora, justifique, de facto, a tremenda força de bilheteira que tem, encha a praça e depois... tenha faltado o principal, ou seja, o toiro. Parece que pelo Alentejo não há ganadarias de grande prestígio ou as que há não sirvam para alguns rejoneadores triunfarem.

Quiseram os Amadores de Évora homenagear os fundadores do Grupo, que foram à arena - 55 anos depois. Um grande OLÉ para João Bonneville Franco, João Berthelot Cortes, Dom Estevam de Lancastre, Manuel Peralta, Francisco José Abreu, Evaristo Cutileiro, José do Rosário Maltez e Luís Rui Cabral.

Os Toiros de sexta-feira não eram nhoc-nhoc, mas alguns estavam pouco dignos de apresentação, caso do segundo e quarto. Quanto ao comportamento, porque a bravura é e será outra coisa, foram quase todos desprovidos da mesma... Parece que por cá, Évora, não há várias ganadarias bravas e até parece que não têm triunfado com força em Portugal e Espanha. Assim, a modo de exemplo, em 2016, a de Murteira Grave foi considerada a mais brava do Campo Pequeno. Em 2017, a de Passanha, para não ir mais longe. Mas já diz o refrão "Del toro manso me libre Dios que del bravo me libro yo".

Pode um Toureiro emotivo, como Rui Fernandes, brilhar com oponentes assim? Claro que não. Esteve ali, mais nada... O público respeitou o cavaleiro, mas meus caros: Évora quer e exige toiro. A lide não rompeu e pouco se passou.

O primeiro toiro foi dos de melhor apresentação da corrida, mas de comportamento idêntico aos outros. Rui fez os possíveis para agradar ao ainda frio público de Évora, que viu a sua lide com agrado mas sem entusiasmo. No segundo toiro sem trapio, de vergonhosa apresentação, mansote e difícil, andou mais entoado nos curtos mas sem chegar a romper de verdade.

Diego Ventura, no seu primeiro toiro, manso, reservado e "bruto", esteve ali sem estar. Pouco se deu por ele, porque não se podia dar com "toiros destes"... Deu um ar da sua graça num excelente curto, o quarto, mas no seguinte, o Canas mostrou o que era... e a lide acabou ali.

No quinto da noite, o de maior trapio da corrida, a coisa prometeu: um bonito recorte nos compridos e nos dois primeiros curtos, mas nos seguintes a coisa acabou por não romper. Como figura que é, e por perceber que a noite se lhe escapava das mãos, recorreu a três palmos em sorte de violino para aquecer o já gelado público do São Pedro. Santo do tempo e que no seu dia derramou umas pingas sobre a cidade museu...

António Prates surpreendeu tudo e todos pela grandiosidade e simplicidade com que toureou o terceiro da noite. Dir-se-ia que nasceu um toureiro naquela sexta-feira. Fez tudo bem feito, andou confiante, senhor de si, toureiro dos pés à cabeça. Muito bem, mesmo. Talvez a melhor atuação da noite.

No que fechou praça andou correto nos compridos, melhorou significativamente na ferragem curta, evidenciando boas maneiras, sentido de lide e alguma irreverência mesmo. Não se pode exigir a um jovem que está a iniciar-se e que se apresenta ante duas figuras do toureio de melhor maneira.

A noite era do Grupo de Évora e eles, como é tradição, uma das poucas que se vão mantendo pela capital do Alto Alentejo, pegavam os seis toiros da corrida.

Com a técnica, o poderio, a arte e o saber que são apanágio de uma carreira, de glória, João Madeira esteve um verdadeiro monumento frente ao primeiro da noite. Foi buscá-lo aos seus terrenos, esteve valente a citar, a recuar, a aguentar, a templar a investida, fechando-se com decisão, aguentando os derrotes, até o grupo se fechar também e ajudar com a habitual coesão. A pega foi executada à primeira tentativa.

O experiente e valente Gonçalo Pires consumou-a ao terceiro intento, com a sabedoria usual e muito bem ajudado pelos companheiros, num toiro bruto e que se parava quando sentia o forcado na cara.

A pega do enorme Dinis Caeiro, ao terceiro toiro da corrida, foi um monumento à arte tão nobre de pegar toiros. O forcado fechou-se com braços de ferro e não mais saiu da cabeça do toiro. Aguentou, aguentou e fartou-se de aguentar os derrotes do inimigo.

Francisco Torres Alves, um jovem valor da forcadagem nacional, mostrou a irreverência da idade, foi buscar o toiro a terrenos proibidos e arrancou uma pega que fez levantar a "Catedral do Forcado".

João Pedro Oliveira consumou à segunda tentativa, bem ajudado pelos companheiros, depois de ter sido violentamente derrotado na primeira tentativa. Neste toiro fez a sua despedida como forcado José Vacas, brilhante ajuda dos forcados eborenses.

Ricardo Sousa executou valente e emotiva pega à primeira tentativa, aguentando fortíssimos derrotes, fechando-se muito bem e sendo prontamente ajudado pelo grupo, com uma primeira ajuda superior de Duarte Tirapicos.

Dirigiu a corrida o Sr. Agostinho Borges, assessorado pelo médico veterinário Dr. Carlos Santana.

Síntese da corrida:

Toiros: Canas Vigouroux, pobres de trapio e comportamento.

Cavaleiros: Rui Fernandes (Volta e Volta); Diego Ventura (Volta e Volta); António Prates (Volta e Volta)

Forcados Amadores de Évora: João Madeira (Volta); Gonçalo Pires (Volta); Diniz Caeiro (Volta); António Alves (Volta); João Pedro Oliveira (Volta); Ricardo Sousa (Volta com o primeiro ajuda Duarte Tirapicos)

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros

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