Duas vozes de exceção para um compositor esquecido

Este domingo às 16.00, o contratenor Carlos Mena, com quem falámos, junta-se no palco da Gulbenkian ao soprano Ana Quintans para nos revelar a obra de Jaime de la Té y Sagau, catalão que fez carreira em Portugal no tempo de D. João V

Poucos ouviram a sua música alguma vez e, na verdade, quase ninguém o conhece. E contudo a sua obra foi editada modernamente, na série "Portugaliae Musica" da Fundação Gulbenkian. Este domingo, seis obras de sua autoria vão-nos ser "dadas" por Carlos Mena e Ana Quintans, no concerto Meandros Musicais do Tejo, integrado no miniciclo "Ibéria - Música entre Portugal e Espanha".

E a escolha de Jaime de la Té y Sagau parece ter calhado "como uma luva" a Carlos Mena: "O meu interesse pela música de câmara vocal de Té y Sagau remonta já a 1998, ano em que chegou às minhas mãos um manuscrito de cantatas para voz solo e baixo contínuo de uma qualidade extraordinária. E desde aí sempre me foram interessando as suas vida e obra, razão pela qual, quando há uns meses a Fundação Gulbenkian me pediu um programa de música ibérica, o nome de Té y Sagau me ocorreu de imediato no que à componente vocal do programa diz respeito", explica.

Ao longo destes 20 anos, relata, "cantei obras dele em vários concertos, incluindo na Fundação Gulbenkian, onde interpretei a cantata "Aguarda, espera" há alguns anos." Mas pese embora o seu contributo pessoal, o cantor afirma que "Té y Sagau é completamente desconhecido dos espanhóis e é mais um daqueles casos que vêm comprovar como há tanta música e tantos autores que merecem ser redescobertos e tornados "visíveis" nos programas de concertos - mormente da música historicamente informada. E Té y Sagau é claramente um deles!"

Proposta dele aceite. Faltava... um soprano. Aí foi fácil a escolha: "A qualidade excecional, quer artística, quer vocal da Ana [Quintans] fazem com que, sempre que tenho essa possibilidade, proponha o seu nome como soprano nos programas para que me convidam. E isto é válido, para mim, praticamente em qualquer repertório. Mas então se se trata de música hispano-portuguesa, faz ainda mais sentido que seja ela, é quase uma "obrigação" para mim." E resume: "Realmente é única!"

Um programa de solos e duos

Na Gulbenkian irão cantar dois Duos, retirados das 20 Cantatas Humanas a Duo, e mais duas cantatas (para voz solo) cada um, extraídas de outras coleções. Uma característica destas obras é a nítida preferência de Té y Sagau pelas tonalidades menores. Algo que Carlos Mena explica assim: "Isso dever-se-á, desde logo, às preferências dos cantores da época e à prática dos compositores napolitanos de então, que eram os modelos nestes géneros. Depois, a própria temática dominante nestas obras - a dor, tristeza e o sofrimento amorosos - encontra maior "comodidade" na "cor" menor, por uma razão tematicamente óbvia, mas que também está relacionada com a forma como se afinava os instrumentos na altura, a qual concedia às tonalidades menores possibilidades mais amplas de descrever cambiantes e chiaroscuri, dentro dos affetti tipicamente exagerados da época."

Mas estes temas tão "deprimidos" não impedem alguns "raios de sol" que diríamos "oblíquos": "Ele tem uma certa tendência para usar hipérboles nos momentos de sofrimento que, mais que acentuar o afeto, acabam por o parodiar. Digamos que há um evidente artifício na manipulação das emoções que torna o efeito final algo cómico."

A referência aos modelos vindos de Nápoles não foi fortuita, pois Carlos Mena é categórico na atribuição de filiação: "Té y Sagau é totalmente italianizante. É inclusive mais italiano que o estilo italiano que "invadiu" o gosto espanhol no século XVIII! O perfil do fraseio, as progressões harmónicas, os ornamentos profusos e o uso da retórica musical são do mais puro estilo italiano de Setecentos." Dito isto, é pouco o que descobre de "autóctone": "Há alguns detalhes que o revelam, de que salientaria a permanência de coplas na estrutura formal das cantatas, algo que era muito típico nos vilancicos."

Reflexos, semelhanças, afinidades desta música com a de espanhóis seus contemporâneos, vê-os Carlos Mena "certamente em José de Nebra [1702-68] e em Domenico Terradellas [1713-51], mas também em compositores portugueses ou ativos em Lisboa, como Francisco António de Almeida [1702-55?) ou Davide Perez [1711-78]." Outra figura ilustre ocorre referir: Domenico Scarlatti (1685-1757), que Té y Sagau decerto conheceu em Lisboa: "Aí não me posso pronunciar, pois não conheço o suficiente as cantatas de câmara de Scarlatti para poder comparar..."

Onde também não há muito para cotejar é nas linhas vocais - a dele e a do soprano: "Não há uma grande diferença entre uma e outra, nem nas cantatas para voz solo, nem nos Duos. Claro que a minha linha é mais grave que a da Ana, mas convém recordar que naquela época um solista contralto lia em geral à primeira vista a linha de um solista soprano - sendo que em ambos os casos se tratava de "castrati" - transpondo automaticamente para a sua tessitura vocal. O mesmo se passava aliás com os instrumentos do contínuo."

Na Gulbenkian, Mena e Quintans, a solo ou em duo, serão acompanhados por um baixo contínuo de cravo e violoncelo. Escolha justa, para Mena, por se tratar de "instrumentos com grande clareza, presença e definição sonora e que podem por isso contribuir de forma significativa para destacar os diversos climas expressivos que se vão sucedendo na linha instrumental destas obras." Mas guarda uma reserva: "Pessoalmente, e idealmente, agrada-me mais quando disponho de um contínuo com mais instrumentos, como a harpa, a tiorba ou a guitarra barroca."

O que aí vem para Mena

Da sua temporada 2018-19, Carlos Mena destaca quatro compromissos, cada qual com o seu "quê" de muito especial: "Vou apresentar-me como maestro, dirigindo o Messias de Händel com a Sinfónica da Galiza; depois canto numa produção de L"Olimpiada, de Vivaldi, no Concertgebouw de Amesterdão, com o maestro Andrea Marcon; terei também o espetáculo Amoria com as irmãs pianistas Labèque, na Philharmonie de Paris; e, ainda em Paris, cantarei numa versão encenada da Paixão segundo São João, de Bach, dirigida por Christophe Rousset, num espetáculo que marca a reabertura do histórico Théâtre du Chatelêt." Por cá, não teremos afortunadamente de esperar muito para o rever e voltar a escutar: "em meados de fevereiro [dias 15 e 16], farei dois recitais em tom mais intimista, só com música do século XVI, em Castelo Branco e em Faro."

Meandros Musicais do Tejo

Ana Quintans (soprano), Carlos Mena (contratenor), Ruth Verona (violoncelo) e Carlos García-Bernalt (cravo)

obras vocais de Té y Sagau e peças instrumentais de Seixas, Avondano, Scarlatti e Pérez

Grande Auditório Gulbenkian, dom., 25, 16.00

bilhetes: 15€

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.