Desta ponte vê-se o grande sonho americano e a ínfima intimidade da família

"Imagino o que seria na América um ator chegar à boca de cena na pele de um imigrante italiano e dizer 'não entendo este país'. Seria possível hoje em dia? Na Broadway? Um mexicano dizer isso?", pergunta Jorge Silva Melo a propósito da peça Do Alto da Ponte, de Arthur Miller, que se estreia na sexta-feira em Viseu.

Era só o número cem dos Livrinhos de Teatro, edição Artistas Unidos-Cotovia. Mas Jorge Silva Melo não pôde parar de ler Do Alto da Ponte, e veio-lhe a vontade de ver os seus atores, "a Joana Bárcia, o Américo Silva, a Vânia Rodrigues 'passarem a limpo e a corpo seu' o que [Arthur] Miller lhes deixou. Afinal, já são homens e mulheres, já são atores e não apenas 'jovens atores', é deles o teatro e para eles escreveram os poetas".

E depois já estava: "Embora não esqueça a vibrante interpretação de Raf Vallone no filme de Sidney Lumet, Eddie Carbone passou a ter a cara e a voz de Américo Silva. Ah, como ele se senta na sua cadeira depois de um dia de trabalho...", continua a contar ao DN o fundador e diretor dos Artistas Unidos.

É, então, através daqueles corpos que entramos em Red Hook, Brooklyn, Nova Iorque. Do Alto da Ponte estreia-se na sexta-feira no Teatro Viriato, em Viseu, onde estará em cena também no sábado, antes de um périplo que atravessa grande parte do país e que só termina em março do próximo ano. E tal acontece apesar de, em agosto, as prestações contratualizadas não terem sido pagas pela DGArtes no quadro de apoio sustentado às artes que contempla os Artistas Unidos. "Deveria ser mais 'apoio interrompido a qualquer momento'", diz o diretor.

Tragédia grega e moderna

Eddie Carbone - "um estivador que trabalha nas docas entre a Ponte de Brooklyn e o pontão onde começa o mar", diz-nos o advogado Alfieri logo no começo da peça - é, como tantos que fazem aquele bairro (veja-se o nome do advogado), filho de imigrantes italianos que partiram para a América.

Detalhe nada irrelevante nesta peça que se estreou em 1955 e que agora sobe a palco numa altura em que tantos continuam a tentar chegar a essa América prometida, agora sob a administração Trump, que com a política de "tolerância zero" separou famílias à entrada no país, e em que outros tantos tentam entrar na Europa pelo Mediterrâneo.

Mas o núcleo da peça é uma família, uma casa: um homem, Eddie (Américo Silva), a sua mulher, Beatrice (Joana Bárcia), e a sobrinha órfã que criaram como filha, Catherine (Vânia Rodrigues), de 17 anos. Ela que se apaixona por Rodolpho (André Loubet), que com o irmão Marco (Bruno Vicente) vem da Sicília como imigrante ilegal, para trabalhar na América. São primos de Beatrice, ficam em sua casa.

"Tudo é anunciado desde a primeira cena: Catherine cresceu, já quer sair de casa. E isso é insuportável para quem a viu menina e ainda não se habituou a vê-la mulher. Que quer Eddie da sua afilhada Catherine? Que o tempo pare? Ou a sua atração é também sexual? É difícil envelhecer, claro - e o facto de Catherine ser agora uma mulher, querer trabalhar, ir ao cinema com o namorado significa que 'o tempo dela chegou' enquanto se vai desfazendo 'o tempo de Eddie'. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...", nota o encenador.

Eddie não quer deixar Catherine ir. Sobretudo não com Rodolpho. Paper Doll ("When I come home at night she will be waiting/ She'll be the truest doll in all this world/ I'd rather have a paper doll to call my own/ Than have a fickle minded real live girl"), que ele canta quase logo depois de chegar aos EUA, com Eddie presente, é, como quase tudo o resto na peça, premonitório.

Eddie olha para ele e vê o "louro, platinado", os "agudos" da sua voz a cantar - "umas notas assim altas, 'tá a ver o que quero dizer?", sugere ao advogado -, o facto de saber costurar. Em suma: vê feminilidade onde Catherine descobre o amor e um rapaz apaixonado com quem quer casar.

Alfieri explica-lhe que nada há de ilegal num amor daqueles, e que a única forma de a lei intervir seria depois de uma denúncia do rapaz (e logo Marco, que na Sicília - terra onde o único trabalho era empurrar táxis colina acima - deixou mulher e filhos para sustentar) como imigrante ilegal.

Rodolpho sou eu

Perguntamos por Rodolpho a Silva Melo, se o tio de Catherine chega a conseguir o que quer, criar em nós ambiguidade em relação a Rodolpho. "Rodolpho sou eu, compra os mesmos discos que eu comprei, usa as calças vermelhas que eu quis comprar, quis ir para a América (a dos seus sonhos e das cantigas), ver a Broadway. Só que sabe dançar e cantar e o André Loubet é bem mais bonito do que eu... Mas a sua tocante ingenuidade é confrontada com a denúncia e a violência de Eddie. E a desgraça do seu irmão Marco. Adoro este Rodolpho ingénuo e estou tão contente por ser o André Loubet quem o interpreta, é tão talentoso..."

A "desgraça" a que o encenador se refere parece estar sempre anunciada, criando uma tensão sempre crescente, acentuada em cenas como aquela em que Eddie "inicia" Rodolpho no pugilismo.

Alfieri, o advogado a que o próprio Arthur Miller se referia como uma espécie de coro na tragédia grega, dizia de Eddie, ainda antes de acontecer o que quer que fosse, coisas como: "O meu pensamento foi que ele tinha acabado de cometer um crime" ou "percebi logo que era só uma paixão que lhe tinha entrado no corpo, como um estranho".

E Catherine? "Está a crescer. Gosta de pôr batom, de usar sapatos altos, de ir ao cinema. E gosta de rapazes... A 'traição' de Eddie é de uma enorme violência para ela. Não é fácil sobrepor à imagem do pai bondoso a do denunciador, a do 'bufo'. Mas também foi o problema de muita dessa juventude (os que tinham 19 anos em 1955) ao descobrirem o passado dos pais, por exemplo, na Alemanha...", responde o encenador.

"O mais abjeto dos crimes contra a comunidade"

Marco acaba por ser a maior vítima da obsessão de Eddie pela sobrinha, a par dele próprio. "É um homem bom, um homem simples", descreve Silva Melo. "E imagino o que seria na América um ator chegar à boca de cena na pele de um imigrante italiano e dizer 'não entendo este país'." Seria possível hoje em dia? Na Broadway? Na 42.ª Avenida? Um mexicano dizer isso?"

Perguntamos a Silva Melo se a traição de Eddie é tão grave quanto põe em causa toda aquela comunidade ítalo-americana. "Sim, é a denúncia, o mais abjeto dos crimes contra a comunidade... E que naquela América do macarthismo [referência à política anticomunista do senador Joseph McCarthy nos anos 40 e 50] se tornou lei. Não esqueçamos que o seu amigo Elia Kazan denunciou Miller (e Marilyn Monroe, que fora namorada de Kazan e era agora mulher de Miller...) por atividades contra a América. A coragem de Miller ao pedir o perdão para Eddie também é um ato de enorme coragem pessoal."

"Ele deixou-se ver na sua verdadeira natureza - e só por isso gosto mais dele do que de todos os meus outros clientes mais prudentes", diz, antes de cair o pano, Alfieri, que o chora "sim, mas dividido".

O que é que se vê, afinal, do alto desta ponte? A questão é, mais uma vez, dirigida ao encenador que há pelo menos dois meses de ensaios tem o olhar ali pousado. "É estranho o título, é. Visconti [que dirigiu uma versão de palco da peça em 1958] dizia que era o que vinha escrito num postal que a família Carbone enviara aos seus primos sicilianos 'vista da Ponte de Brooklyn' e assim os atraíra ao 'sonho americano'... e à perdição. Mas eu não encontro isso no texto. Só que talvez seja isso mesmo: da ponte vê-se uma miragem, uma paisagem idílica, uma promessa... Lá dentro, no bairro de Red Hook, a vida não é um bilhete-postal."

Em Viseu, no Teatro Viriato, a 14 e 15 de setembro, no Teatro Municipal da Guarda, a 21 de setembro, em Leiria, no Teatro José Lúcio da Silva, a 28 de setembro, no Centro Cultural do Cartaxo, 6 de outubro, no Teatro Municipal de Vila Real, a 19 de outubro, no Teatro Municipal de Bragança, a 27 de outubro, em Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes, a 3 de novembro, no Teatro Nacional de S. João, de 8 a 25 de novembro, no Teatro Aveirense, a 30 de novembro, no S. Luiz Teatro Municipal, de 10 a 27 de janeiro de 2019, no Teatro Municipal de Almada, a 9 e 10 de fevereiro de 2019, em Setúbal, no Fórum Municipal Luísa Todi, a 16 de fevereiro de 2019, em Faro, no Teatro das Figuras, a 1 de março de 2019, em Viana do Castelo, no Teatro Municipal Sá de Miranda, a 16 de março de 2019.

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