Dan Kaufman. "Afastar os filhos dos pais é uma espécie de fascismo"

Guitarrista, jornalista e ativista, está em Portugal com o seu grupo, os Barbez, a cantar as músicas da resistência ao fascismo em Espanha. Dan Kaufman acabou de lançar um livro sobre como o Wisconsin deixou de ser um estado progressista.

Os Barbez estão numa pequena digressão por terras portuguesas. O guitarrista Dan Kaufman e a cantora convidada Velina Brown falaram ao DN no Festival Músicas do Mundo, em Porto Covo. Nesta sexta-feira o grupo atua em Braga e no domingo em Évora, com uma incursão à Galiza (Pontevedra) de permeio para tocar temas do disco "For those who came after: songs of resistance from the Spanish Civil War".

A Europa e a história europeia são uma grande fonte de inspiração para o vosso trabalho. Pode explicar por que razão uma banda de Brooklyn canta temas da resistência italiana?

Os meus pais são judeus. Familiares nossos morreram no Holocausto. Os meus avós vieram da Europa de leste. Penso que uma parte dos judeus nos EUA estão a par dos assuntos políticos europeus e da sua história. A minha mãe empenhou-se em tornar-me consciente sobre o holocausto. Os meus pais eram politicamente ativos no movimento dos direitos civis e acho que há uma corrente de ética e de princípios do judaísmo à qual os meus pais estavam ligados. Estudei numa escola muito alternativa e um dos meus colegas tinha um avô que tinha sido voluntário na Brigada Abraham Lincoln, foi lutar para Espanha. Isso sempre me fascinou. Mais tarde soube dos encontros anuais dos veteranos e familiares e como jornalista, em 2004, escrevi um artigo sobre o líder do Abraham Lincoln Brigade Archive, Moe Fishman, que foi voluntário em Espanha. Tornei-me amigo deles e fui escrevendo mais sobre o tema. Apesar de todos os voluntários já terem morrido, as famílias continuam a realizar o encontro anual, é uma comunidade muito importante para a esquerda norte-americana. Os veteranos foram muito ativos, marcharam contra a guerra no Vietname ou a guerra no Iraque. E a certa altura convidaram o grupo para participar no concerto da reunião anual.

É religioso?

Sou bastante secular mas tenho a cultura judia. Vou à sinagoga, gosto da música, e faço jejum porque me sinto culpado [risos]. Gosto da comunidade. A minha mãe era mais religiosa, era kosher e ao mesmo tempo uma convicta feminista. O judaísmo é interessante na medida em que é possível ser-se secular e no entanto manter um ethos judeu.

Como se encadeiam as questões políticas e históricas com a música?

Quando era miúdo gostava de punk e rock. Outros estudaram música clássica, a Velina [Brown] vem do teatro musical. Temos influências diversas mas de alguma forma acabamos por fazer um processo natural, ao estarmos juntos, de encontrar um som em conjunto.

Estão pela primeira vez a apresentar os temas do último disco, de temas cantados na Brigada Abraham Lincoln, a um público estrangeiro.

Sim, mas a um público familiarizado com as canções, pelo menos a algumas. Estes temas fazem partes dos encontros anuais em San Francisco, de onde vem a Velina, e de Nova Iorque. Agora é a primeira oportunidade para as tocarmos mais vezes. O disco foi gravado antes das eleições presidenciais, mas tornou-se ainda mais imperativo lançá-lo tendo em conta o momento que estamos a viver nos EUA, mas também na Europa.

Quais são as lições que devemos tirar daquele momento histórico em que o fascismo venceu?

Velina Brown - É importante podermos identificar quando o fascismo está a crescer e não ficarmos sentados à espera que se torne numa realidade. Os veteranos da Brigada Abraham Lincoln foram perseguidos nos EUA por terem sido "antifascistas prematuros". Como é isso de ser prematuro? Neste caso mais vale cedo que tarde, é o que temos de fazer.

Dan Kaufman - É uma das coisas fascinantes da Brigada Abraham Lincoln. Era ilegal, como noutros países, ir para Espanha combater o fascismo. Arriscaram a vida, atravessaram as montanhas à noite, muitos sem treino militar, mas tinham o impulso de ir ajudar. A solidariedade internacional é extremamente importante.

Há o perigo de caminharmos para um novo tipo de fascismo ou para regimes iliberais e populistas?

Nos EUA está aterrador. Estão a pôr crianças atrás das grades. A história americana está cheia de eventos horríveis, e de coisas boas também, mas isto é novo na história recente. Afastar os filhos dos pais [imigrantes] para muitos de nós é uma espécie de fascismo. Estamos profundamente preocupados com o rumo dos acontecimentos. Principalmente em relação aos migrantes e aos refugiados. Viemos num avião com uma pessoa que ia ser deportada para os Camarões. Ele gritava por ajuda e dizia que ia ser morto nos Camarões. Afirmava que era casado com uma norte-americana e que tinha sido trazido algemado sem lhe dizerem para onde, e sem direito a contar a sua história a uma autoridade nem a contactar a mulher. Estamos num novo nível de ferocidade. Obama também deportou muita gente, mas estão a levar as coisas longe demais. Os movimentos fascistas não aparecem do nada. É muito assustador.

O Dan vive em Nova Iorque, a Velina em San Francisco, cidades não conservadoras. O discurso populista está a transformar as vossas comunidades de alguma forma?

Velina Brown - Há muita gente que passou a estar ativo. Não estavam a ver o panorama, porque as coisas não estavam más para eles. Agora há mais pessoas conscientes porque foram afetadas. É ridículo uma pessoa ficar à espera que lhe batam à porta.

Dan Kaufman - Gostava que houvesse mais pessoas organizadas, em especial quando as crianças foram presas. Isso foi visceral. Como é que podemos reagir? Não há um movimento trabalhista nos EUA, na Europa parece ser mais fácil organizar uma oposição.

Acabou de ver lançado o seu livro sobre o Wisconsin [The fall of Wisconsin: the conservative conquest of a progressive bastion and the future of american politics]. O que descobriu no seu estado natal?

É uma história contada através dos seus cidadãos. São duas coisas: é a história do estado e da destruição do seu passado e é contada pelo povo que tem resistido. O livro pormenoriza a forma como o Estado foi tomado de assalto através de um movimento deliberado de industriais poderosos. Quer em Washington, quer no estado tentam mudar a legislação de forma a privatizar a educação pública, a destruir o movimento trabalhista, a desfazer as restrições ambientais. Basicamente não querem qualquer impedimento para a criação da sua riqueza. São libertários, mas não veem os estragos que causam à sociedade como um todo. O Wisconsin tem uma história única nos EUA. Teve mayors socialistas em Milwaukee, o que não é comum, e teve um movimento trabalhista muito forte. A maior parte do que os EUA têm de estado social foi desenvolvido no Wisconsin, o new deal e outras leis foram escritas por cidadãos do Wisconsin fiéis à tradição de um movimento progressista pragmático, queriam melhorar a vida do povo ao fazerem estas reformas. Mas isso foi desfeito. Em parte, resultado disto, o estado votou em Donald Trump, se bem que por uma margem mínima. Foi um dos três estados fulcrais que o ajudaram a ser eleito. O livro tem várias histórias sobre pessoas comuns, não é sobre pessoas que ganham a vida em manifestações: a do sindicalista que se opõe a uma das pessoas mais poderosas do país, Paul Ryan, outro é um fotógrafo de casamentos...

Quando é que começou o livro?

Comecei a fazer artigos sobre o tema há sete anos, quando começaram a perseguir os sindicatos. Mas o livro começou a ser escrito após a vitória de Trump, quando as pessoas começaram a ficar interessadas em saber como é que isto aconteceu. E continua a acontecer, porque é um campo de batalha entre as duas forças. É uma metáfora para esta grande mudança em curso nos EUA. O governador Scott Walker disse "Se podemos fazê-lo aqui podemos fazê-lo em qualquer lado".

Essa afirmação chocou muita gente?

Sim, e houve protestos em massa, mas acabaram vencidos. E não foram propriamente ajudados pelo presidente Obama nem por outros democratas poderosos. O partido democrata recebe muito dinheiro de Wall Street, está corrompido. Ao passo que o movimento trabalhista está neste momento tão pequeno que já não consegue recolher fundos. As pessoas foram deixadas ao seu destino.

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