Da Rua da Sofia para a região Centro. Há uma nova Artéria a pulsar teatro

Hoje, às 18.00, domingo às 15.00 e 18.30, o centro de Coimbra tem mais para oferecer do que os jogos de futebol. Sofia, meu amor!, criação da Trincheira Teatro, decorre na Rua da Sofia e nas zonas envolventes. E é grátis, como todos os espetáculos da rede Artéria

São três atuações, hoje e amanhã, na Rua da Sofia, em Coimbra, mas resultam de um trabalho iniciado em 2016. Sofia, meu amor!, é o primeiro espetáculo da Artéria, rede de intervenção sóciocultural que junta criadores em itinerância por oito municípios da região Centro.

O espetáculo "nasceu do mapeamento das necessidades dessa rua, há três anos", diz a coordenadora artística da Artéria, Isabel Craveiro.
"Houve um longo trabalho de pesquisa nestes territórios. No ano passado fizemos um workshop com os residentes, comerciantes, trabalhadores e as instituições da Rua da Sofia, houve uma preparação grande", acrescenta.

Desse trabalho nasceu o trabalho dirigido por Pedro Lamas e João Paiva, com atores da Trincheira, mas também de estudantes de teatro e a participação da comunidade local, de forma a que as palavras da produção não sejam ocas: "Na Rua da Sofia, ou Rua da Sabedoria, encontrámos segredos, mistérios, soluções, encontrámos histórias sobre histórias de passado, presente e futuro. Descobrimos a vontade transformadora da alquimia, que queria tornar o vulgar e o corriqueiro em ouro."

A entrada é gratuita, mas devido às limitações de espaço há que reservar lugar (através do número 919612123).

Sofia, meu amor! irá depois ser apresentado em julho, na Guarda (dia 7), Ourém (15) e Belmonte (22).

Como é que uma peça nascida numa rua histórica do centro de Coimbra pode partir em itinerância? "Não desvirtuando a ideia", responde a coordenadora artística da Artéria. E para isso há que dar informação que contextualize o público, para que este "perceba os pontos de partida da criação". Por outro lado, diz, é ideia da rede que "as digressões funcionem um pouco como embaixadas das cidades e despertem vontade de conhecer estes locais".

Estreia da Artéria

Este é o espetáculo inaugural da Artéria, uma rede de programação "um bocadinho diferente das outras", comenta Isabel Craveiro. Com coordenação artística da companhia Teatrão e académica do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, é um projeto de dois anos que "surgiu com a ideia de que é necessário criar uma rede de circulação da produção da região Centro, de criar um projeto que ajude a fortalecer o tecido cultural da região centro", focado no teatro e na dança.

A rede engloba os municípios de Coimbra, Guarda, Belmonte, Fundão, Figueira da Foz, Ourém, Tábua e Viseu. E não nasceu de um capricho. "Resultou de um estudo do território, de um trabalho no terreno para podermos desenhar o projeto. Foi um trabalho diferente do habitual, que juntou estes parceiros do projeto, agentes culturais, câmaras e academias".

Para Isabel Craveiro, do Teatrão, esta experiência demonstra que há necessidade "de trabalhar mais uns com os outros, de fazer parcerias que ao princípio parecem menos óbvias".

Os próximos espetáculos da Artéria, todos a estrear em agosto são Vagar, de Marina Nabais, em Ourém, e a seguir para Tábua, Coimbra e Viseu; A rua esquecida, de Fernando Moreira, a estrear no Fundão (segue-se Viseu, Guarda e Belmonte); saal, de Filipa Francisco, na Figueira da Foz (e parte para Belmonte, Fundão e Ourém), e Labirinto, de Graeme Pulleyn, na Guarda (para se dar a conhecer na Tábua, Viseu e Figueira da Foz).

Todos os espetáculos decorrem em espaços abertos do património e com entrada gratuita.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.