Claude Lanzmann, realizador de Shoah, morre aos 92 anos

Claude Lanzmann, realizador de Shoah, morreu esta quinta-feira, em Paris, avança o Le Monde

Shoah, de 1985, é um documentário de nove horas sobre o Holocausto, que consiste em testemunhos de vítimas (judeus) e agressores (nazis). Nele, Lanzmann não faz uso de imagens de arquivo e campos de extermínio como os de Auschwitz e Treblinka são vistos conforme se encontram, anos depois já do fim da Segunda Guerra Mundial. O filme levou 11 anos a ser feito e foi filmado em 14 países. Com o objetivo de combater o esquecimento, Shoah, palavra que em hebraico significa aniquilação, é considerada uma das experiências mais radicais do cinema.

Filho de uma família de judeus da Europa de Leste que imigrou para França, Claude Lanzmann nasceu em Paris em 1925, tendo-se alistado da Resistência Francesa com 17 anos. Formado em Filosofia e Jornalismo, foi convidado por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir para trabalhar na revista Temps Modernes que fora fundada em 1945. Nos anos 1960 opôs-se à guerra na Argélia e subscreveu o Manifesto dos 121. Entre os signatários havia nomes como o de Andre Breton, Sartre e, precisamente, Beauvoir.

Lanzmann teve uma relação amorosa com a escritora e filósofa existencialista, tendo chegado a viver com ela, entre 1952 e 1959. Simone de Beauvoir morreu em abril de 1986, aos 78 anos, vítima de pneumonia.

O realizador francês fez o seu primeiro documentário, Pourquoi Israel, em 1973. Mas foi em 1985, com Shoah, que fez estremecer o público.

Sobre a decisão de não recorrer a imagens de arquivo disse em entrevista: "O problema é que são sempre as mesmas imagens de arquivo, interpretadas de forma diferente, dependendo de quem as usa e eu... prefiro criar eu as coisas, se puder fazê-lo. Mas, sobretudo, é preciso ver que não há arquivos do extermínio. Não há uma foto do que se passava no interior de uma câmara de gás. Não há nada".

Porque muitos dos protagonistas do filme são checos ou eslovacos? "Simplesmente porque não era muito longe de Auschwitz e também porque estiveram entre os primeiros a ser deportados e os primeiros residentes no campo", explicou Lanzmann.

Em 2009, o francês publicou as suas memórias, A Lebre da Patagónia. A obra constitui uma viagem por diversas faces do século XX a partir da sua vasta experiência pessoal. Como grande pilar, o livro tem os bastidores das filmagens de Shoah, mostrando um esforço considerável do autor para se distanciar de muitos aspetos revoltantes da guerra.

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