Carminho: "Celeste Rodrigues ganhava metros de altura quando cantava"

A fadista recorda ao DN Celeste Rodrigues, que morreu nesta quarta-feira aos 95 anos e que tinha tanta vontade de viver que não dormia mais do que três horas por noite, para não perder tempo de vida

Quando lhe perguntamos o que aprendeu com Celeste Rodrigues, que morreu nesta quarta-feira aos 95 anos, Carminho parece sorrir e começa: "É difícil pôr em palavras aquilo que se aprende no fado. [Com a Celeste] Eu aprendi fado, aprendi a cantar, a ouvir, a escolher poemas, aprendi sobre a vida. O fado é uma forma de vida, é uma escola que não tem um livro onde a pessoa vá aprender como se faz. Aprende-se como se faz ouvindo estas pessoas, tendo disponibilidade para se deixar levar por aquilo que a pessoa não explica. São estas figuras tão importantes e tão fortes que são a referência para as gerações que se seguem poderem perceber o que é isto do fado. A Celeste era, sem dúvida nenhuma, uma delas."

E a cantar como era? "Tinha um timbre muito profundo, ligeiramente velado. Era uma figura baixinha, mas que depois projetava assim a cabeça para trás e cantava de coração aberto, sempre com uma postura muito imponente. Ganhava metros e metros de altura quando cantava. Marca-me o bom gosto com que escolhia os poemas e as melodias, e a linguagem do canto. O fado tem uma linguagem, e a pessoa pode até cantar fados mas tem de ter a linguagem para os interpretar. A Celeste transportava toda essa linguagem na voz."

Carminho recorda-a dizer que "dormia três horas por dia, porque não queria perder tempo de vida a dormir." "Marcou-me muito o facto de ela ter uma força de vida e uma vontade de viver muito grande"

A fadista de 33 anos conheceu-a com 12, no Embuçado, casa de fados da mãe, Teresa Siqueira. "Eu era um bocadinho a mascote da casa", recorda. Nessa altura Carminho ficava só a olhar e a ouvir. A ouvir as histórias da irmã de Amália, muitas delas da Beira, de onde trouxe canções e uma forma de cantar, e a olhar para ela, "sempre elegantemente vestida", com a solenidade que vem também da tradição do fado, salienta, comparando-o ao fato de domingo que outrora se vestia para ir à missa. "Como se o fado fosse uma forma de oração, sagrada."

Quando quis gravar um dos fados eternizados na voz de Celeste, Cabeça de Vento (que faz parte do seu álbum Alma), Carminho ligou-lhe."Foi muito querida, muito generosa. Disse: 'Claro que sim, Carminho. Tenho muito gosto.'"

Recordando a relação que a fadista tinha com o seu bisneto Gaspar Varela, que toca guitarra portuguesa (e que a acompanhava), e com o neto Diogo Varela, que a filmou no documentário Celeste, define-a como "um polo matriarcal que une muita gente". "E espero que continue a unir, e que a memória dela permaneça sempre nestas noites a que muita falta vai fazer."

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