Carmen Dolores vai estar na plateia a ver-se a si mesma em "Carmen"

Teatro da Trindade homenageia a atriz de 94 anos no dia da estreia de Carmen. Mas este espetáculo é também a história da amizade entre Carmen Dolores, o encenador Diogo Infante e a atriz Natália Luiza.

Em 1983, regressada de uma temporada em Paris, Carmen Dolores interpretou ao lado de Curado Ribeiro Comédia à Moda Antiga, de Alexei Arbuzov. O espetáculo, encenado por Jorge Listopad, estreou-se no Teatro Aberto, em Lisboa. No livro autobiográfico No Palco da Memória, publicado em 2013, a atriz conta algumas conversas que manteve com os muitos espectadores que iam felicitá-la no final. Num dos dias apareceu lá a Natália Luiza: "Aquela jovem acabada de sair do Conservatório, chorava ainda de emoção quando nos foi falar, toda nervos e sensibilidade. Qual será o seu futuro como atriz?"

A pergunta fá-la sorrir hoje. "Ah, lembro-me perfeitamente de ela aparecer muito comovida no final do espetáculo", comenta Carmen Dolores. "Quem poderia imaginar?" Quem poderia imaginar que em 2018 "aquela jovem" iria estar no palco do Teatro da Trindade a interpretar Carmen, o espetáculo escrito e encenador por Diogo Infante como homenagem à atriz, atualmente com 94 anos.

Aliás, o encontro entre Carmen, Diogo e Natália é, só por si, o enredo de uma peça de teatro. Depois do momento relatado, Natália Luiza haveria de se estrear profissionalmente no teatro em O Jardim das Cerejas, de Tchekhov, precisamente ao lado de Carmen Dolores. Em 1986. Numa das noites, na plateia do Teatro Aberto, esteve Diogo Infante. "Vim a Lisboa fazer audições para o Conservatório e aproveitei para ir ao teatro. Lembro-me de ter ficado muito tocado pela energia de duas atrizes, a Carmen e a Natália", recorda ele. "Havia algo nelas que me era estupidamente familiar, era como se as conhecesse. Talvez fosse uma memória do futuro."

É que o futuro haveria de lhes proporcionar muitos outros encontros. Em 1992, entraram todos na peça Espectros, de Ibsen, no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez. Foi aí que começou a nascer esta amizade a três (e também, podemos dizê-lo, este novo espetáculo). Quer Diogo quer Natália voltariam a trabalhar com Carmen Dolores, no teatro e na televisão, e houve até uma vez, em 1998, em que Diogo Infante dirigiu a já então veterana atriz: "Fui convidado pelo Mega Ferreira para encenar um espetáculo de Tennessee Williams e lembrei-me logo do Jardim Zoológico de Cristal. Fui convidar a Carmen e ela respondeu-me: Só se fizeres o Tom. E assim foi. Na sala-estúdio do Nacional. Contracenámos e eu, que era um miúdo, estava a dirigir a Carmen. Ela foi de uma generosidade avassaladora."

E chegamos a 2017, quando Carmen Dolores lançou o terceiro dos seus livros de memórias, intitulado Vozes dentro de Mim. Assim que o leu, Diogo Infante, que é também o diretor artístico do Trindade, percebeu logo que poderia transformá-lo num espetáculo. "Fui apanhada de surpresa, acho que foi muito bonito da parte dele. Não poderia dizer que não", conta Carmen. Foi também ela quem se lembrou de Natália Luiza para fazer de "si".

Natália, que nos últimos anos se tem dedicado mais à encenação do que à representação, aceitou o desafio. Regressa aos palcos. Esta é também a primeira vez que os papéis se invertem e que Diogo Infante dirige Natália Luiza. "Ela é a que mais vezes me encenou, quem melhor me conhece, quem mais me soube levar para fora da minha zona de conforto", conta Diogo, enquanto, ao lado dele, Natália vai abanando a cabeça, como quem diz que não merece tantos elogios.

Carmen, uma homenagem

Hoje, 11 de julho de 2018, é portanto, o dia em que Carmen, Diogo e Natália mostram ao mundo o resultado destes anos de encontros e amizades e admirações mútuas. No Teatro da Trindade, em Lisboa, - o mesmo teatro onde estreou Amor de Perdição, o filme de estreia da atriz, em 1943, e onde dois anos depois ela haveria de se estrear também no palco - estreia-se Carmen, uma coprodução entre o Teatro da Trindade, o Teatro Meridional e o Festival de Almada. O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, assistirá à representação, assim como muitos outros amigos e colegas, depois da qual haverá uma homenagem à atriz - a sala principal ganha o nome de Carmen Dolores e será inaugurada uma exposição em vários espaços do teatro.

Na plateia estará Carmen Dolores. A atriz acompanhou de perto o processo de criação do espetáculo e conversou muito com Diogo e Natália, mas não quis ver nenhum ensaio. "Não consigo imaginar como será ter alguém a fazer de mim", diz. " É uma coisa estranha. Não sei como é que o vou sentir."

O encenador explica: "A Carmen tem tido um papel muito interventivo, lê, dá sugestões, está sempre a facilitar-nos a vida. Disse-nos: pensem que a Natália podia não me conhecer. Como quem diz: libertem-se de mim. Esqueçam-se de mim. E isso foi precioso porque, como é evidente, não podíamos fazer uma composição da Carmen, não é isso que se pretende. Trata-se de encontrar aqui um alter ego da Carmen, uma súmula de todas as Carmens, uma persona, mas que captasse a essência dela. Estabelecemos essa regra desde o início: não vamos fazer uma caricatura."

Para Natália Luiza sempre foi claro que não era possível nem desejável fazer "uma mimetização": "Uma coisa é a capacidade que se pode ter de apreender uma maneira de estar, uma personalidade que faz um determinado percurso ou que caminha numa determinada direção, que ela própria descreve. Outra coisa é a mimetização, que ficaria muito aquém daquilo que é e seria até arrogância e pouco inteligente da nossa parte fazê-lo. Aquilo que se pretende é honrar, respeitar um texto, uma memória, um percurso de vida que nos é caro também como fazedores do teatro do presente."

O espetáculo não é uma biografia de Carmen Dolores. Tal como o livro que lhe deu origem, tem "uma estrutura narrativa que é necessariamente não cronológica, como quando nos deixamos levar pela memória", explica Infante. "Como se um ator tivesse no seu sótão restos de cenários, figurinos e de personagens. Há esta ideia dos espíritos que andam pelos teatros e a Carmen usa a ideia das vozes dentro de si - que são as vozes das personagens que a acompanham e que lhe sussurram frases e a desafiam e reclamam novamente uma existência."

"Gostei de ter vivido as épocas todas"

Carmen Dolores terminou a sua carreira em 2005, com a peça Copenhaga, de Michael Frayn, no Teatro Aberto: "Parei quando quis, quando achei que devia parar e queria ter tempo para mim. Acho que parei na altura certa. Fiquei no meu cantinho, a escrever as minhas coisas, como eu gosto. No silêncio."

De então para cá já publicou três livros de memórias e um livro sobre o Teatro Moderno de Lisboa (com Tito Lívio). Neste momento está a escrever, com Vítor Pavão dos Santos, um outro livro sobre os Comediantes de Lisboa, a primeira companhia em que trabalhou. "Sempre escrevi, desde criança, era a minha maneira de desabafar", conta. "Lembro-me de uma coisa e escrevo, tenho imensos papéis escritos por aí, escritos à mão, com aquelas canetas verdes, grossas. E tenho ainda tantas memórias, felizmente." Depois, a certa altura, percebeu que aquilo que escrevia podia também ser importante para os outros. "Percebi que há poucas coisas sobre os atores antigos, sobre como eram as coisas antigamente. Custa-me que as pessoas sejam esquecidas. São pessoas que numa determinada altura toda a gente sabia quem eram, mas se não fizeram cinema nem televisão e se não deixaram nada escrito essas pessoas não ficam na memória."

Essa tem sido a sua tarefa. Fixar as memórias. "Gostei de ter vivido as épocas todas, umas mais fáceis, outras mais difíceis. Tive a sorte de viver várias épocas muito diferenciadas, o antes do 25 de Abril, o depois do 25 de Abril, o muito antes. Tenho muitas memórias de infância. E isso dá-me prazer. Acho que as memórias particulares não interessam tanto aos outros. Interessa-me mais olhar para os outros e lembrá-los com um olhar terno, hoje até talvez mais terno do que naquela altura. Eu vinha de um meio muito diferente e muito fechado, tudo era uma surpresa para mim. E a escrita também serve para parar, para lembrar certos momentos que na altura não percebia bem, ainda não estava bem inserida na classe. Gosto de lembrar e nunca é com saudosismo. É bom lembrar como foi bom."

"A Carmen é muito transparente", afirma Diogo Infante. "Ela é generosa e franca e fala com clarividência e sensibilidade sobre temas delicados, fala da vida e da morte com uma simplicidade quase tocante. Há um sentido de humor fino, envolvente. É uma mulher com uma grande consciência de si própria." Natália Luiza confirma: "Às vezes, com a idade, as pessoas vão-se amargurando, mas esse não é o caso da Carmen, que é uma pessoa solar e que fez o caminho inverso. Caminha para a claridade."

Nos últimos anos, Carmen Dolores deixou também de ir ao teatro como tanto gostava de fazer. "Estou bem, mas já não sou nova", diz sorrindo, justificando-se. Irá hoje. E vai estar nervosíssima, certamente. "Antes de entrar em cena era horrível. Sempre fui muito preocupada. Era um sofrimento." E nesta noite, mesmo sentada na plateia, é ela quem vai estar em palco.

Carmen
De Diogo Infante, a partir de Vozes dentro de Mim, de Carmen Dolores
Encenação de Diogo Infante
Interpretação de Natália Luiza
Teatro da Trindade, Lisboa
De 11 a 29 de julho
Bilhetes: de 8 a 14 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.