Lázaro Ramos. Apanhar o avião para votar a todo o custo no Brasil

O ator e autor brasileiro esteve na Festa do Livro em Cabo Verde, mas apanhou o avião bem cedo para chegar ao Rio de Janeiro e conseguir votar no segundo turno das eleições

Lázaro Ramos queria ficar mais uns dias no Mindelo, mas o receio de que o seu voto também fizesse falta para decidir as disputadas eleições em curso no Brasil fez com que abreviasse a participação no festival literário Morabeza e voasse para o Rio de Janeiro.

O ator de novelas, séries e filmes, bem como autor de um trio de livros para crianças e um para adultos, foi a estrela do Morabeza, obrigando a organização a pedir-lhe para fazer duas sessões dada a quantidade de público que o queria ouvir. A fila era desde cedo grande no Centro Cultural no Mindelo e Lázaro Ramos não dececionou os "leitores" que o queriam ouvir e fazer perguntas. Entrou no palco empunhando o telemóvel e a filmar uma audiência em delírio: "Estou a filmar tudo para pôr Cabo Verde nas minhas redes sociais".

Ainda não começara a conversa que o levou à ilha de São Vicente e já recordava Cesária Évora. Depois comparou a terra onde nasceu, Pati, com 183 habitantes, com muitas das povoações do arquipélago: "Até parece que estou na Bahia, com os meus primos e amigos."

Apesar do tema ser literatura, foi-lhe impossível fugir ao tema Bolsonaro X Haddad, mesmo que antes de lá chegar tenha falado do seu ativismo nas questões da sociedade brasileira, questionado a ausência de registo de uma história da raça negra, de como a escrita lhe deu a voz que não era ouvida antes, de como até utiliza o humor para facilitar uma maior consciência em certas questões: "O problema do Brasil neste momento é estar ocupado com o que nos divide em vez de valorizar o que nos une".

O tema político do dia cria em Lázaro Ramos uma angústia que partilha com a audiência: "Não acredito em milagres nem em que ninguém vá salvar o país." Confessa que na primeira volta das eleições não votou em nenhum dos dois candidatos que hoje estão a disputar a presidência brasileira, que não usou nas redes sociais qualquer frase "com hashtag", nem deixa de aceitar as opiniões que são contra a sua. "Seja quem for eleito, a luta é pelo diálogo", diz, acrescentando que passou os últimos três dias nas redes sociais em conversa com mais de 1200 pessoas: "É um trabalho de formiguinha, mas deste modo posso ter esclarecido muitas das questões em jogo nestas eleições".

O público, maioritariamente feminino e jovem, aproveita o momento das perguntas para querer saber o que anda a fazer pelas artes do teatro, do livro, do cinema e da televisão. E quanto tempo vai ficar no Mindelo. Até se virá morar para a ilha de que disse tão bem: "Quero ajudar o Brasil, por isso não virei morar para Cabo Verde. A construção da democracia dá trabalho." Avisa que sairá bem cedo na madrugada seguinte para chegar a tempo de votar: "Tenho de apanhar o avião para poder votar."

Ainda fará outras declarações de âmbito político que o público escuta atento: "Não estou preparado para o conflito e tenho dificuldade para lidar com a barbárie. Não se calará tão cedo e quando consegue abandonar o auditório é o momento de passar vários minutos a tirar selfies com as que o foram ver e ouvir, que entre as muitas questões que lhe colocaram estava também a de como tornar o livro acessível em Cabo Verde.

O medo, os tabus e a autocensura

O medo passou pelo festa do Livro Morabeza em vários sotaques da língua portuguesa e não foi só a propósito de Bolsonaro poder vencer as eleições brasileiras. Continua a discutir-se a autocensura no país ao nível da expressão e o ex-ministro Jorge Tolentino foi um dos que mais abordou o tema. Começou por afirmar que "é bom ter medos", mas que o país "não tem espaço para tabus que são criados por uma elite para se entreter". Dá um exemplo: "o bairrismo, que não existe mas é referido constantemente." Quanto à literatura, alerta para o facto de o "escritor cabo-verdiano se confrontar com uma capacidade de crítica social muito baixa e que no plano da literatura essa situação nem existir". Alerta, no que respeita à língua portuguesa, estar a ser "cada vez mais maltratada", o que dificultará a "projeção internacional que a literatura do país tanto necessita".

O professor Daniel Medina secunda a sua opinião no que respeita à crítica literária: "Se todos somos primos, é difícil fazê-la. É como o jornalismo de investigação... Não dizemos o que pensamos de verdade, nem na política e isso condena-nos à estigmatização". Yara dos Santos acrescenta que tem sempre dificuldade "em apresentar o seu trabalho porque certas fações intelectuais não aceitam que os livros levantem questões."

Num registo oposto esteve o da escritora uruguaia Carmen Posadas, que referiu que "tudo o que se escreve é autobiográfico, como se estivéssemos a fazer um striptease". A todas estas afirmações que são feitas no palco assiste na primeira fila da plateia o escritor Germano Almeida, o mais recente Prémio Camões, que encerrará o festival Morabeza com uma entrevista de vida. Questionado sobre o quanto mudou a sua vida mindelense após essa espécie de prémio Nobel para a língua portuguesa, Almeida sorri e garante que continua a ser tratado como dantes: "Nada mudou na minha vida."

O valor da literatura

Germano de Almeida também não é esquecido pelas autoridades presentes na sessão de abertura da segunda edição da Festa do Livro Morabeza. O ministro da Cultura, Abrãao Vicente, não deixa de referir o quão importante é para a literatura de um país pequeno como Cabo Verde ter dois Prémio Camões, uma vez que, antes de Germano Almeida, Arménio Vieira venceu o galardão em 2009. O Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, volta a falar no escritor antes de se mostrar preocupado com a utilização do crioulo na poesia e na música enquanto os romancistas preferem a língua portuguesa.

Uma sessão de abertura em que foi anunciado o primeiro vencedor do prémio literário Arnaldo França, concedido em conjunto pela Imprensa Nacional de Cabo Verde e de Portugal, a um dos 13 originais a concurso. Nesta primeira edição foi vencedor o romance Beato Sabino de Olavo Correia.

A sessão de boas vindas desta edição do Morabeza terminou com uma conversa entre o Presidente da República, também poeta, e Miguel Sousa Tavares. Este começou por definir a sua relação com os habitantes de Cabo Verde não como compatriotas mas comãetriotas porque "temos a mesma mãe", seguindo-se uma declaração anti-festival: "A literatura é a menos importante das artes", justificando que se pode viver sem literatura mas não, por exemplo, sem a arquitetura, a pintura e a música. Fonseca concordou com a ausência de uma "função utilitária da literatura", mas valorizou essa arte que desde tempos imemoriais coexiste em todas as sociedades.

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